O sofrimento dos cavalos nas touradas

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Algumas imagens podem ferir a suscetibilidade dos/as leitores/as

Legislação que regula as touradas ignora a existência dos cavalos e o seu bem estar;

Cavaleiros tauromáquicos assumiram a utilização de instrumentos cruéis e doping nos cavalos de toureio;

Muitas vezes esquecidos, os cavalos são outra das vítimas da violência das touradas.

A plataforma Basta de Touradas lamenta a morte de cavalos na sequência dos espetáculos tauromáquicos realizados em Portugal (touradas e largadas de touros) e alerta o Governo para a necessidade de se incluir estes animais na legislação que regula as touradas, enquanto estes espetáculos forem permitidos no nosso país, minimizando o seu sofrimento e os abusos cometidos.

ferimentos de serretas no nariz dos cavalos de toureio
Ferimentos das serretas no nariz dos cavalos de toureio.

Regulamento tauromáquico ignora os cavalos

Cavalo ferido em tourada
Cavalo ferido em tourada em Portugal.

O Regulamento do Espetáculo Tauromáquico (RET) não faz qualquer referência aos cavalos, apesar de estes animais serem um dos principais intervenientes no espetáculo em Portugal. A legislação prevê apenas algumas medidas de bem-estar animal para os touros, tentando minimizar o sofrimento destes animais, antes e após as touradas.

Não estão previstas quaisquer medidas de bem estar, nem regras para o alojamento, transporte ou assistência veterinária às centenas de cavalos que todos os anos são forçados a entrar nas arenas e enfrentar touros com cerca de 500 kg. Também não está prevista a assistência veterinária aos cavalos em caso de acidente, algo que acontece com alguma frequência, ficando o tratamento e o destino dos animais nas mãos dos cavaleiros tauromáquicos, que muitas vezes optam pelo seu abate.

Os cavalos de toureio são vítimas de vários tipos de abuso, e muitas vezes o próprio público manifesta a sua indignação e descontentamento pela forma como alguns cavaleiros tauromáquicos abusam dos seus cavalos ou pelo uso de instrumentos cruéis, sem que o Estado tome medidas para evitar os múltiplos abusos cometidos.

Acidentes com cavalos são muito frequentes

Acidente com cavalo em tourada
Colhida violenta de cavalo de toureio numa tourada.

Um dos casos que mais chocou a sociedade nos últimos anos foi a morte violenta do cavalo “Xeque Mate” numa corrida de touros realizada em Coruche no ano de 2019.

Esta corrida foi apelidada pelos meios de comunicação de “terror na arena” tendo em conta os momentos de pânico e violência vividos nessa tarde na arena, incluindo a colhida violenta do cavalo “Xeque-Mate” do cavaleiro tauromáquico João Moura Jr. que sofreu uma fratura exposta e acabou por ser abatido, bem como a colhida do cavalo de Ana Batista e de um forcado que sofreu fraturas facial e craniana. As imagens do cavaleio João Moura Jr. coberto de sangue quando saiu da arena revelam o lado de extrema violência dos espetáculos tauromáquicos, e mereceram críticas de alguns aficionados que consideram que este tipo de imagens não deviam ser difundidas publicamente, porque prejudicam bastante a imagem da tauromaquia.

Foi o segundo cavalo de João Moura Jr. que morreu em plena arena, depois de em 2011 o cavaleiro ter visto outro dos seus cavalos (Belmonte) morrer na praça de touros de Angra do Heroísmo (Açores) vítima de um ataque cardíaco. O cavalo caiu fulminado na arena criando o pânico no público enquanto um cavaleiro e outras pessoas tentavam, no meio do alvoroço, reanimá-lo saltando com força em cima do corpo do animal. Estas imagens chocaram o país e mostraram como os cavalos são meros instrumentos de ataque e defesa na arena.

Após o trágico incidente de Coruche ficaram, mais uma vez, muitas perguntas sem resposta que a Plataforma Basta de Touradas gostava de ver esclarecidas, nomeadamente:

  • se os Delegados Técnicos Tauromáquicos presentes na praça de touros, incluíram no relatório da corrida entregue à Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC), os dados referentes aos vários acidentes ocorridos?
  • se o cavalo Xeque-Mate do cavaleiro João Moura Jr. foi assistido por algum Médico Veterinário, e qual?
  • quem tomou a decisão de abater o animal?
  • se a enfermaria da praça de touros estava devidamente equipada como determina o Regulamento?

Infelizmente, este não é caso único. Além da morte de cavalos, vítimas de ataques cardíacos fulminantes na arena e fora dela, ocorrem várias colhidas graves, sem que se saiba que tipo de assistência foi dada aos animais. Todo o processo acaba por ser abafado e esquecido, havendo até indicações para que os meios de comunicação tauromáquicos evitem publicar imagens de acidentes com cavalos.

Em abril de 2022 a égua do cavaleiro mexicano Emiliano Gamero partiu uma pata durante uma tourada na localidade do Redondo (Portugal) sendo posteriormente abatida em circunstâncias pouco claras que nunca foram devidamente esclarecidas. Emiliano Gamero ficou conhecido por agredir violentamente os seus cavalos de toureio em 2017 na sua herdade, agredindo os animais a pontapé e com um chicote, situação que foi filmada e amplamente difundida e condenada pela imprensa mexicana e mundial.

A plataforma Basta de Touradas, durante a revisão do RET em 2014, apresentou várias propostas à tutela para minimizar o sofrimento dos cavalos usados em touradas, que foram ignoradas e excluídas da legislação. Apesar dos esforços e das negociações com agentes da tauromaquia, não houve a mínima abertura para incluir qualquer medida de proteção dos cavalos na legislação. Esta falta de vontade em proteger os cavalos e garantir o seu bem estar, faz aumentar as suspeitas de maus tratos a estes animais neste tipo de espetáculos.

Não se compreende a falta de vontade do Estado e da indústria tauromáquica em regular a forma como os cavalos são tratados nas touradas, minimizando o seu sofrimento.

Cavalos forçados a enfrentar touros com recurso a instrumentos cruéis e medicamentos

Cavalo de toureio em Portugal
Instrumentos cruéis na boca de cavalo de toureio em Portugal.

Em abril de 2016, durante um colóquio realizado na praça de touros do Campo Pequeno, os cavaleiros tauromáquicos João Salgueiro e Duarte Pinto assumiram a existência de doping nos cavalos de toureio, bem como o uso de instrumentos cruéis como as duplas gamarras, serretas, cabos de aço, freios castigadores, embocaduras, etc. (ler mais aqui).

Durante este debate público, João Salgueiro defendeu que devia ser feito controlo ao doping nos cavalos, como acontece noutras modalidades equestres. Em resposta, Duarte Pinto disse, convictamente, que “se isso acontecesse, mais de 75 por cento dos cavalos não seriam autorizados a actuar”. A revelação causou alvoroço na comunidade tauromáquica e João Salgueiro viu-se obrigado a publicar um esclarecimento acerca das suas declarações sobre o uso de substâncias dopantes nos cavalos de toureio.

Apesar dos espetáculos de toureio a cavalo serem os mais promovidos nas praças de touros, não existem condições para o acolhimento destes animais, tanto nas praças de touros fixas como nas desmontáveis nem vontade da parte dos cavaleiros e empresários em mudar este cenário.

É importante não esquecer que atrás do colorido das corridas de touros, há um lado bastante violento e cruel nomeadamente para os animais utilizados nestes espetáculos. Apesar de geralmente só se falar do sofrimento dos touros de lide, os cavalos são das principais vítimas das touradas pela forma como são tratados, pelos instrumentos utilizados na sua condução, a falta de controle veterinário e pelo intenso stress a que são sujeitos.

Cavalo de Rui Fernandes (2022)
Expressão de medo em cavalo de toureio em Portugal
Cavalo ferido em tourada na Azambuja em 2022.
Cavalo golpeado por cavaleiro na Azambuja (2022).

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