A República e as touradas

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Sérgio Caetano, Jornalista

A implantação da República em Portugal constituiu um sério revés na expansão do negócio tauromáquico rompendo com a promoção da festa efetuada pelos últimos monarcas (D. Carlos e D. Manuel II). As questões económicas fizeram prevalecer as touradas no nosso país apesar do período hostil para o sector.

Em 1910 já estavam perfeitamente montadas as estruturas do negócio (empresários, ganadeiros e toureiros profissionais) que se mostrava ser bastante rentável na época, embora o espetáculo continuasse dependente de licenças especiais e as suas receitas tinham que reverter para instituições de caridade. Além disso, as categorias profissionais de “toureiros” ainda não eram reconhecidas nem regulamentadas.

No início do século XX, com a implantação da República, a tourada não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas após o 5 de Outubro de 1910.

Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram como reconheceu Mascarenhas Barreto em 1970: “Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da Costa do Sol1.

Projeto de abolição das touradas
Projeto de abolição das touradas em 1911.

A implantação da República e a tentativa de fazer nascer um Portugal novo que fosse ao encontro da civilização europeia foi devastador para os conservadores empresários tauromáquicos: “As circunstâncias em que surgia a República, saída de um movimento revolucionário, estabelecia um ambiente em que toda a hostilidade parecia de menos contra os antigos hábitos e as velhas tradições. Verificava-se como que a necessidade de estabelecer uma sociedade nova, assente em velhos hábitos, e o toureio, como expressão fidalga e tradicional seria atingido da forma mais incisiva”2.

O momento inspirou de imediato a apresentação de novas iniciativas para abolir o espetáculo. Fernão Bôtto Machado propôs à Assembleia Nacional Constituinte a abolição das touradas, num projeto de lei apresentado em 11 de Agosto de 1911 que contou com o apoio da (já constituída) Sociedade Protetora dos Animais. “Esse cruel e perigoso sport só é defendido nos nossos dias, ou por interesses de exploração ou por aficionados del redondel, mas sem fundamentos que o justifiquem e sem sequer razões que o desculpem.”3

A atribulada 1ª República não conseguiu erradicar este divertimento do nosso país, provavelmente porque na primeira metade do século XX ele se tornou muito pouco expressivo nos anos que se seguiram. Mas a relação próxima entre a monarquia e a tauromaquia continuava bem viva e manifestava-se nas arenas das praças de touros. Exemplo disso mesmo é o caso do cavaleiro José Casimiro, que cerca de uma década após a implantação da República, era fortemente hostilizado pela população devido à propaganda monárquica que fazia durante as suas atuações como toureiro, ao ponto de chegar a ser impedido de tourear em Lisboa.

Fernão Botto Machado
Fernão Botto Machado

Entre 1910 e 1926 registaram-se várias intervenções tanto na Assembleia Nacional Constituinte, como na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso, de repúdio e oposição às touradas sendo praticamente nulas as intervenções em sua defesa. É certo no entanto que alguns deputados simpatizavam e até assistiam às corridas, mas a sua defesa durante este período era feita de forma discreta e silenciosa.

A indústria tauromáquica só conseguiu restabelecer-se anos mais tarde, durante o Estado Novo, altura em que a tauromaquia serviu de inspiração para a propaganda nacionalista e integrada em projetos de dinamização turística. Foi ainda neste período que se construíram grande parte das praças de touros ainda hoje em atividade em Portugal, e que são exemplos as praças de Beja (1947), Póvoa de Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Santarém (1964) e Coruche (1966) e foi em 1953 que as touradas foram legalizadas pela primeira vez em Portugal com a publicação do 1º Regulamento de Espetáculo Tauromáquico e o reconhecimento dos artistas tauromáquicos como profissionais com legislação própria que abriu as portas ao negócio tauromáquico atual.

Só em 1991 as touradas foram reconhecidas como parte da cultura portuguesa com a aprovação do Decreto-Lei n.º 306/91 de 17 de Agosto de 1991 que reconheceu, pela primeira vez, a tauromaquia como “indiscutivelmente, parte integrante do património da cultura popular portuguesa”.

Bibliografia:
1. Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970. Pág. 46.
2. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951. Pág. 170.
3. Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911. Pág. 3.

Liberdade não rima com touradas

Nos últimos anos “Liberdade” e “touradas” têm andado juntas na boca dos responsáveis pela industria tauromáquica mas, no passado, a tauromaquia esteve sempre associada ao absolutismo e aos setores mais conservadores da sociedade.

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