Como é uma tourada em Portugal?

A lide “à portuguesa” em 10 passos:

(Atenção: algumas imagens podem impressionar os leitores mais sensíveis.)

1. Os animais são apartados e transportados

Os touros vivem em manada, apresentando-se bastante dóceis no campo. Estes animais tornam-se agressivos quando isolados da manada pelo que o processo de ‘apartação’ (isolamento dos touros) se torna um processo de grande stress para os animais e consiste em recolher os animais selecionados para uma determinada tourada. Depois de “apartados”, o transporte dos animais é efetuado em camiões divididos em vários compartimentos fechados, sem espaço para os animais se mexer, desde a ganadaria até à praça de touros, geralmente no dia do próprio espetáculo, podendo a viagem durar centenas de quilómetros. O regulamento determina que em qualquer tipo de espetáculo tauromáquico não são admissíveis touros anteriormente lidados ou com mais de 6 anos de idade. No entanto, nas “variedades taurinas” podem ser lidados touros ou vacas, sem qualquer limite de idade. Nos designados “festivais tauromáquicos” os animais lidados também não estão sujeitos a idade ou pesos mínimos, exceto quando atuam artistas amadores que não podem lidar animais com mais de 3 anos. Na prática, nesta modalidade, podem ser lidados bezerros de apenas 1 ano ou menos. Nas vulgares “corridas de touros” os animais devem ter, no mínimo, 4 anos de idade (para o toureio a cavalo) exceto nas praças de 2ª e 3ª categoria, em que têm que ter mais de 3 anos.

2. Os animais são alojados nos curros

À chegada à praça de touros os touros são descarregados do camião para os currais onde ficam alojados de forma separada. A maioria das praças de touros fixas não possui curros devidamente equipados que garantam a salvaguarda do bem estar dos animais. No caso das praças de touros desmontáveis, os animais permanecem nos apertados compartimentos do camião junto à praça de touros, a maior parte das vezes em dias de calor intenso, sem água nem alimento durante longas horas e sem qualquer possibilidade de se mexer.

3. Os animais são embolados

Na zona dos curros, os animais são imobilizados para que se consiga proceder ao corte das pontas dos cornos (embolação) para colocação de uma proteção em couro – obrigatória – chamada “embola”. Este processo tem por objetivo proteger os cavalos e forcados das investidas do animal, tentando evitar mortes e cavalos esventrados. Por vezes o corte dos cornos provoca sangramento no animal e é um processo que altera as noções de distância do touro no momento de investir. No caso das praças portáteis a embolação é feita no interior do próprio camião de transporte.

4. Os cavalos

Ao contrário dos touros, o Regulamento do Espetáculo Tauromáquico não se refere às condições de alojamento dos cavalos, pelo que as praças de touros não possuem condições para alojar estes animais.. Os cavalos permanecem no exterior da praça de touros, junto aos veículos de transporte dos cavaleiros, algumas vezes ao sol.

5. A lide com ferros compridos

A lide começa com a colocação dos ferros compridos. Como a utilização de “picadores” é proibida em Portugal, existem os ferros compridos para provocar maiores lesões no animal quando entra na praça. São ferros maiores que provocam lesões mais profundas, fundamentais para a posterior realização da lide e principalmente da “pega” (as lesões obrigam o animal a baixar a cabeça).
Têm ferro de 8 cm com dupla lâmina em forma de seta com 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.

6. A lide com ferros curtos

Seguem-se os ferros curtos, em forma de arpão, não existindo nenhum limite para a colocação destes ferros. Os ferros de palmo são mais pequenos em termos de comprimento (o arpão é igual). Têm ferro de 8cm com arpão de 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.

7. Os passes de capote

Após a colocação dos primeiros ferros (compridos) o cavaleiro dá ordens ao bandarilheiros para dar uns passes no touro com o capote. Isto tem por objectivo cansar mais o animal (que não está habituado a este desgaste físico). Os “passes de capote” também têm como objetivo aumentar o grau de lesão dos ferros: ao forçar o animal a rodar a cabeça (como se vê na imagem) os ferros já cravados vão rasgando ainda mais os tecidos do animal, aumentando o grau de lesão dos ferimentos.

8. A “pega”

A “pega” só pode ser realizada no final da lide, quando o animal já está bastante desgastado fisicamente e com lesões muito profundas que lhe dificultam levantar a cabeça. Sem estas lesões era humanamente impossível a realização da “pega”, que é efetuada por 8 elementos selecionados pelo Cabo do grupo de forcados.

9. O retirar das bandarilhas

As bandarilhas são retiradas imediatamente após a lide do animal, sem qualquer assistência veterinária. O processo é feito pelo “embolador” que tem que usar uma navalha para cortar a carne do animal e puxar as lâminas cravadas. Além disso, o “embolador” e os ajudantes, injetam antibióticos nos animais e spray de alumínio nas feridas para evitar infeções maiores. Os touros ficam nos curros (ou no camião), sem assistência veterinária, sem comida nem água.

10. O transporte para o matadouro

Feridos, com lesões profundas, os animais são ilegalmente transportados para o matadouro. Não existem salas de abate em nenhuma praça de touros pelo que os animais são transportados e aguardam a abertura do matadouro para o abate. Alguns morrem durante a viagem. A carne destes animais acaba por entrar na cadeia alimentar humana.

Do sofrimento dos touros nas touradas

Artigo da Veterinária Alexandra Pereira sobre o sofrimento dos touros na tourada à portuguesa.

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