Como é uma tourada em Portugal?

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Nota: O artigo contém imagens que podem ferir a suscetibilidade do/a leitor/a

Existem muitos mitos e mentiras sobre a forma como se processa uma tourada em Portugal.

Um espetáculo tauromáquico tem uma duração de cerca de 3 horas, onde são “lidados” 6 touros, cuja idade varia consoante o tipo de espetáculo previsto na legislação: corridas de toiros; corridas mistas; novilhadas; novilhadas populares; variedades taurinas e os festivais tauromáquicos. Geralmente, atuam 3 cavaleiros (corridas a cavalo) que enfrentam 2 touros cada um e 3 grupos de forcados, compostos por 8 elementos.

Os espetáculo desenrolam-se de acordo com as regras estabelecidas no Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de junho (Regulamento do Espetáculo Tauromáquico). A lide consiste em enfrentar o touro na arena, agredindo-o lentamente sem ser colhido (atingido pelo animal) e pode processar-se de várias formas: a cavalo (com bandarilhas), a pé (com capote ou com bandarilhas) ou a lide dos “forcados” que se realiza no final e que consiste em agarrar e imobilizar o touro.

O objetivo dos intervenientes é ir dominando o animal, cravando vários tipos de bandarilhas, que além das lesões profundas no dorso do touro, provocam um intenso sangramento que vai enfraquecendo o animal. Na sua essência a lide consiste em ir preparando o animal, através do domínio e da força, até à morte. Geralmente a lide a cavalo ou a pé, não pode exceder 13 minutos e a “pega dos forcados” não pode exceder 10 minutos, o que dá 23 minutos para lidar cada touro, mas estes tempos raramente são cumpridos. Como em Portugal é proibida a morte na arena (com exceção de 2 localidades: Barrancos e Monsaraz) a estocada final é substituída pela “pega dos forcados”. Só depois do espetáculo é que o animal é abatido, longe dos olhares do público.

Apesar de existir um forte espírito de competição, não existe propriamente um vencedor oficial no final das corridas. Geralmente é o público ou a crítica tauromáquica que elegem o “triunfador” da corrida em função do desempenho de cada artista e da reação provocada no público. Todos os espetáculos são acompanhados por 2 Delegados Técnicos Tauromáquicos designados pela Inspeção Geral das Atividades Culturais para fiscalizar o evento: 1 Diretor de Corrida (também conhecido por “o inteligente“) e 1 médico veterinário. Ambos assistem ao espetáculo na tribuna com um elemento da força policial e o cornetim.

Os ativistas da Plataforma Basta de Touradas assistiram a dezenas de touradas em vários pontos do país, documentando a forma como se processa uma tourada e como são tratados os animais, antes, durante e após os espetáculos. com base nessa experiência e na legislação em vigor, explicamos os 10 principais passos da lide numa tourada em Portugal.

Touro e cavalo em tourada à portuguesa
Touro de lide e cavalo de toureio numa tourada à portuguesa em 2022

1. Os animais são apartados e transportados

Transporte de touros de lide.
Fotos: © Basta de Touradas (em baixo)

Os touros vivem em manada, apresentando-se bastante dóceis no campo. Estes animais tornam-se agressivos quando isolados da manada pelo que o processo de ‘apartação’ (isolamento dos touros) se torna um processo de grande stress para os animais e consiste em recolher os animais selecionados para uma determinada tourada. Depois de “apartados”, o transporte dos animais é efetuado em camiões divididos em vários compartimentos fechados, sem espaço para os animais se mexer, desde a ganadaria até à praça de touros, geralmente no dia do próprio espetáculo, podendo a viagem durar centenas de quilómetros. O regulamento determina que em qualquer tipo de espetáculo tauromáquico não são admissíveis touros anteriormente lidados ou com mais de 6 anos de idade. No entanto, nas “variedades taurinas” podem ser lidados touros ou vacas, sem qualquer limite de idade. Nos designados “festivais tauromáquicos” os animais lidados também não estão sujeitos a idade ou pesos mínimos, exceto quando atuam artistas amadores que não podem lidar animais com mais de 3 anos. Na prática, nesta modalidade, podem ser lidados bezerros de apenas 1 ano ou menos. Nas vulgares “corridas de touros” os animais devem ter, no mínimo, 4 anos de idade (para o toureio a cavalo) exceto nas praças de 2ª e 3ª categoria, em que têm que ter mais de 3 anos.


2. Os animais são alojados nos curros

Curos em praças de touros.

À chegada à praça de touros os touros são descarregados do camião para os currais onde ficam alojados de forma separada. A maioria das praças de touros fixas não possui curros devidamente equipados que garantam a salvaguarda do bem estar dos animais. No caso das praças de touros desmontáveis, os animais permanecem nos apertados compartimentos do camião junto à praça de touros, a maior parte das vezes em dias de calor intenso, sem água nem alimento durante longas horas e sem qualquer possibilidade de se mexer. Depois de descarregados os touros, é realizado o sorteio onde se determina quais os touros que serão lidados por cada toureiro. Como os animais são selecionados e testados nas ganadarias, os intervenientes conhecem bem o seu comportamento, pelo que o sorteio é um momento tenso que, não raras vezes, resulta em discussões entre os artistas.


3. Os animais são embolados

Embolar dos cornos dos touros.

Na zona dos curros, os animais são imobilizados para que se consiga proceder ao corte das pontas dos cornos (embolação) para colocação de uma proteção em couro – obrigatória – chamada “embola”. Este processo tem por objetivo proteger os cavalos e forcados das investidas do animal, tentando evitar mortes e cavalos esventrados, mas em Espanha é considerado uma fraude inaceitável porque coloca o animal em grande desvantagem. Por vezes o corte dos cornos provoca sangramento no animal e é um processo que altera as noções de distância do touro no momento de investir. No caso das praças portáteis a embolação é feita no interior do próprio camião de transporte, sem as mínimas condições sanitárias.


4. Os cavalos

Cavalos feridos em touradas em Portugal.
Foto: © Basta de Touradas

A maioria dos espetáculos realizados em Portugal, são corridas de touros a cavalo, onde os toureiros enfrentam o touro montados em cavalos lusitanos ou puro sangue árabe. Muitos destes cavalos sofrem lesões graves, mas o Regulamento do Espetáculo Tauromáquico não se refere às condições de alojamento dos cavalos nem à sua assistência veterinária, pelo que as praças de touros não possuem condições para alojar estes animais. Os cavalos permanecem no exterior da praça de touros, junto aos veículos de transporte dos cavaleiros, algumas vezes ao sol. Além de vítimas de colhidas graves, patas partidas ou cortes profundos, todos os anos são reportados casos de cavalos que morrem na arena, geralmente por ataque cardíaco, o que demonstra o esforço a que estes animais são sujeitos, normalmente em dias de calor intenso. Atualmente, este é o único espetáculo em todo o mundo, onde ainda é permitida a realização de combates a cavalo.


5. A lide com ferros compridos

Bandarilhas usadas em Portugal.
Fotos: © Basta de Touradas

As bandarilhas consistem numa espécie de lança, afiada na ponta, que podem ser de 2 tipos: A lide começa com a colocação de um tipo de bandarilhas designadas de “ferros compridos“. Como em Portugal é proibido o uso dos “picadores” (homem a cavalo que crava uma lança comprida no dorso do touro), existem os “ferros compridos” para substituir os efeitos dessa lança e provocar maiores lesões no animal quando ele entra na praça. São ferros maiores, com lâmina dupla (em forma de seta) que provocam lesões fundamentais para a posterior realização da lide e principalmente da “pega dos forcados”, porque estas lesões impedem o touro de levantar a cabeça.
Os “ferros compridos” têm ferro de 8 cm com dupla lâmina de 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.


6. A lide com ferros curtos

Ferros curtos em tourada em Portugal.
Foto: © Basta de Touradas

Após cravar vários “ferros compridos” (não existe número máximo nem mínimo) são cravados os “ferros curtos”, que têm a forma de um arpão, não existindo nenhum limite estabelecido na lei. Geralmente também são cravados “ferros de palmo”, que são mais pequenos em termos de comprimento (o arpão é igual). Os “ferros curtos” têm um ferro de 8 cm com arpão de 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.


7. Os passes de capote

Tourada em Portugal.
Foto: © Basta de Touradas

Durante a lide a cavalo, e depois de espetar os primeiros “ferros compridos”, o cavaleiro dá ordens ao bandarilheiro (auxiliar com capote) para dar alguns passes no touro com o seu capote (como se vê na imagem). Isto tem por objetivo cansar ainda mais o animal (que não está habituado a este desgaste físico) além de aumentar o grau de lesão dos ferros. Ao rodar a cabeça em busca do capote, o touro acaba por agravar as lesões no seu dorso, porque ao efetuar esse gesto, os “ferros compridos” já cravados vão rasgando ainda mais os tecidos do animal, impedindo que o animal levante a cabeça, preparando desta forma o touro para o resto da lide e para a “pega dos forcados”. Se o cavaleiro perceber que o touro ainda está demasiado “vivo” durante a lide, dá ordens ao auxiliar para entrar na arena e intervir desta forma com o capote, fazendo o touro correr e rodar a cabeça.


8. A “pega” dos forcados

Pega dos forcados em tourada portuguesa.
Foto: © Basta de Touradas

A “pega dos forcados” só pode ser realizada no final da lide, quando o animal já perdeu bastante sangue e se encontra bastante desgastado fisicamente, com lesões profundas nos músculos que lhe retiram força e o impedem de levantar a cabeça. Sem estas lesões era humanamente impossível a realização da “pega”, que é efetuada por 8 elementos, cada qual, com a sua função. Normalmente os forcados realizam a “pega de caras”, em que um dos elementos enfrenta o touro e o agarra pelos cornos sendo auxiliados pelos restantes elementos. Quando isso não é possível, os forcados realizam a “pega de cernelha” que consiste em largar os cabrestos na arena, misturando-os com o touro. Nesse momento, 2 forcados aproximam-se do animal agarrando-o pela parte lateral. O fundamental, até por uma questão de honra, é que o touro não saia da praça sem ser dominado pela força humana.


9. O retirar das bandarilhas

Retirar das bandarilhas após uma tourada em Portugal.
Processo de remoção das bandarilhas após a lide na arena.

As bandarilhas são retiradas imediatamente após a lide do animal, sem qualquer tipo de assistência veterinária, normalmente durante o espetáculo. O processo é feito pelo “embolador”, ou seja, pela pessoa responsável pela colocação da proteção nos cornos do touro ou pelo transporte do camião. Para arrancar os diferentes tipos de lâminas, geralmente é usada uma navalha para cortar a carne em volta do arpão e puxar as lâminas. Tudo isto é feito com os animais ainda vivos. Além disso, o “embolador” e os ajudantes, injetam antibióticos nos animais e spray de alumínio nas feridas para evitar infeções maiores. Após este cruel processo, os touros ficam nos curros (ou no camião de transporte), sem qualquer tipo de assistência veterinária, sem comida nem água, até ao final do evento. Em todas as corridas é obrigatória a presença de um veterinário, mas este encontra-se, do princípio ao fim do espetáculo, na tribuna ao lado do Diretor de Corrida, pelo que é uma figura de corpo presente e não presta qualquer assistência aos animais.


10. O transporte para o matadouro

Touro encaminhado para o matadouro depois da tourada em Portugal.
Foto: © Basta de Touradas

Feridos, com lesões profundas, os touros de lide são ilegalmente transportados para o matadouro, uma vez que a legislação nacional e comunitária não permite o transporte de animais feridos. Não existem salas de abate funcionais em nenhuma praça de touros em Portugal pelo que os animais são transportados e aguardam a abertura do matadouro para o seu abate. Alguns animais morrem durante a viagem, conforme se encontra documentado em vários estudos e é admitido até pelos próprios criadores1. A carne destes animais acaba por entrar na cadeia alimentar humana, normalmente na forma de carnes processadas, apesar de todo o processo a que foram sujeitos.

Segundo os dados referentes à temporada de 2010, da Associação de Médicos Veterinários de Atividades Taurinas (AMVAT) são 4 os principais matadouros onde são abatidos os touros provenientes das touradas: Santarém, Tomar, Leiria e Mafra:

Matadouro Touros de lide abatidos
Matadouro Santacarnes (Santarém) 12
Matadouro de Ribacarnes (Tomar) 58
Matadouro Mapicentro (Leiria) 255
Matadouro de Mafra 1.600
TOTAL1.925
Touros de lide abatidos em Portugal em 2010 (abate por matadouro)

Nas temporadas de 2010 e 2011, o matadouro de Mafra foi o destino preferido para o abate dos touros utilizados nas touradas realizadas em Portugal.

1. Ana Caria Nunes e JM Prates. Avaliação bioquímica do stresse físico dos touros de raça brava de lide (Bos taurus L.). DRARO e UTL-FMV.2006

Cavalo de toureio colhido.
Cavalo de toureio colhido na arena em Portugal.

Do sofrimento dos touros nas touradas

Artigo da Veterinária Alexandra Pereira sobre o sofrimento dos touros na tourada à portuguesa.

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