TUDO SOBRE TOURADAS: Como é uma tourada em Portugal?

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Existem muitos mitos e mentiras sobre a forma como se processa uma tourada em Portugal. Aqui encontras toda a informação sobre o ritual de uma tourada, do campo até ao matadouro.

1. Os animais são apartados e transportados

2. Os animais são alojados nos curros

3. Os animais são embolados

4. Os cavalo de toureio

5. A direção e fiscalização da tourada

6. A lide com ferros compridos

7. A lide com ferros curtos

8. Os passes de capote

9. A “pega” dos forcados

10. O retirar das bandarilhas

11. O transporte para o matadouro

Uma tourada em Portugal tem uma duração de cerca de 3 horas, onde são “lidados” 6 touros, cuja idade varia consoante o tipo de espetáculo tauromáquico previsto no Regulamento do Espetáculo Tauromáquico (Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de junho): corridas de toiros; corridas mistas; novilhadas; novilhadas populares; variedades taurinas e os festivais tauromáquicos.

Geralmente, atuam 3 cavaleiros (corridas a cavalo) que enfrentam 2 touros cada um e 3 grupos de forcados, compostos por 8 elementos.

Os espetáculo desenrolam-se de acordo com as regras estabelecidas no Regulamento do Espetáculo Tauromáquico. A lide consiste em enfrentar o touro na arena, agredindo-o lentamente, evitando ser colhido (atingido pelo animal) e pode processar-se de várias formas: a cavalo (com bandarilhas), a pé (com capote e com bandarilhas) ou a lide dos “forcados”, que se realiza no final e que consiste em agarrar, dominar e imobilizar o touro na arena.

O objetivo dos intervenientes é ir dominando o animal, cravando vários tipos de bandarilhas, que além das lesões profundas no dorso do touro, provocam um intenso sangramento que vai enfraquecendo o animal. Na sua essência a lide consiste em ir preparando o animal, através do domínio e da força, para o seu destino final: a morte.

No início da lide são cravadas lâminas maiores (chamados “ferros compridos”) que servem para “castigar” o animal e fazer com que ele não consiga levantar a cabeça. Este tipo de ferros substitui a “vara” dos “picadores” que, em Portugal, é proibida.

Geralmente a lide a cavalo ou a pé, não pode exceder 13 minutos e a “pega dos forcados” não pode exceder 10 minutos, o que dá um total de 23 minutos para lidar cada touro, mas estes tempos raramente são cumpridos.

Como em Portugal é proibida a morte na arena (com exceção de 2 localidades: Barrancos e Reguengos de Monsaraz) a estocada final do matador é substituída pela “pega dos forcados”. Só depois do espetáculo é que o animal é transportado para o matadouro e abatido, longe dos olhares do público.

Apesar de existir um forte espírito de competição, não existe propriamente um vencedor oficial no final das corridas. Geralmente é o público ou a crítica tauromáquica que elegem o “triunfador” da corrida em função do desempenho de cada artista e da reação provocada no público. Todos os espetáculos são acompanhados por 2 Delegados Técnicos Tauromáquicos designados pela Inspeção Geral das Atividades Culturais para fiscalizar o evento: 1 Diretor de Corrida (também conhecido como “o inteligente“) e 1 médico veterinário, que assegura uma função de mero corpo presente. Ambos assistem ao espetáculo na tribuna com um elemento da força policial e o cornetim.

Os ativistas da Plataforma Basta de Touradas assistiram a dezenas de touradas em vários pontos do país, documentando a forma como se processa uma tourada e como são tratados os animais, antes, durante e após os espetáculos. com base nessa experiência e na legislação em vigor, explicamos os 10 principais passos da lide numa tourada em Portugal.

1. Os animais são apartados e transportados

transporte de touros de lide

Foto: © Basta de Touradas

Os touros vivem em manada, apresentando-se bastante dóceis no campo. Estes animais tornam-se agressivos quando isolados da manada pelo que o processo de ‘apartação’ (isolamento dos touros) se torna um processo de grande stress para os animais e consiste em recolher os animais selecionados para uma determinada tourada.

Depois de “apartados”, o transporte dos animais é efetuado em camiões divididos em vários compartimentos fechados, sem espaço para os animais se mexer, desde a ganadaria até à praça de touros, geralmente no dia do próprio espetáculo, podendo a viagem durar centenas de quilómetros.

O regulamento determina que em qualquer tipo de espetáculo tauromáquico não são admissíveis touros anteriormente lidados ou com mais de 6 anos de idade. No entanto, nas “variedades taurinas” podem ser lidados touros ou vacas, sem qualquer limite de idade. Nos designados “festivais tauromáquicos” os animais lidados também não estão sujeitos a idade ou pesos mínimos, exceto quando atuam artistas amadores que não podem lidar animais com mais de 3 anos.

Na prática, nesta modalidade, podem ser lidados bezerros de apenas 1 ano ou menos. Nas vulgares “corridas de touros” os animais devem ter, no mínimo, 4 anos de idade (para o toureio a cavalo) exceto nas praças de 2ª e 3ª categoria, em que têm que ter mais de 3 anos.

2. Os animais são alojados nos curros

Curros da praça de touros de Santarém.

Touro nos curros da praça de touros

À chegada à praça de touros os touros são descarregados do camião para os currais (ou curros) onde ficam alojados de forma separada. A maioria das praças de touros fixas não possui curros devidamente equipados que garantam a salvaguarda do bem estar dos animais. No caso das praças de touros desmontáveis, os animais não são descarregados e permanecem nos apertados compartimentos do camião de transporte junto à praça de touros, a maior parte das vezes em dias de calor intenso, sem água nem alimento durante longas horas e sem qualquer possibilidade de se mexer.

Depois de descarregados os touros, realiza-se o sorteio onde se determina quais os touros que serão lidados por cada toureiro. Como os animais são selecionados e testados nas ganadarias, os intervenientes conhecem muito bem o seu comportamento, pelo que o sorteio é um momento tenso que, não raras vezes, resulta em discussões entre os artistas. O conhecimento que os artistas têm do comportamento dos animais que vão lidar na praça, só aumenta o grau de desigualdade da luta, porque os animais são colocados numa situação que desconhecem totalmente. Estes animais têm a capacidade de aprender com a experiência, pelo que é expressamente proibido reutilizar os touros em futuras touradas.

3. Os animais são embolados

Embolar dos cornos dos touros.

Processo de embolação

Na zona dos curros, os animais são imobilizados para que se consiga proceder ao corte das pontas dos cornos (embolação) para colocação de uma proteção em couro – obrigatória – chamada “embola”. Este processo tem por objetivo proteger os cavalos e forcados das investidas do animal, tentando evitar mortes e cavalos esventrados, mas em Espanha é considerado uma fraude inaceitável porque coloca o animal em grande desvantagem. Por vezes o corte dos cornos provoca sangramento no animal e é um processo que altera as noções de distância do touro no momento de investir. 

No caso das praças portáteis a embolação é feita no interior do próprio camião de transporte, sem as mínimas condições sanitárias. Neste tipo de praças são ainda usados bastões de choques elétricos para obrigar os touros a sair do camião e descer a rampa para a arena.

4. Os cavalos de toureio

Cavalos feridos em touradas em Portugal.

Foto: © Basta de Touradas

A maioria das touradas realizadas em Portugal, são corridas de touros a cavalo, onde os toureiros enfrentam o touro montados em cavalos lusitanos ou puro sangue árabe. Muitos destes cavalos sofrem lesões graves, mas o Regulamento do Espetáculo Tauromáquico não se refere às condições de alojamento dos cavalos nem à sua assistência veterinária, pelo que as praças de touros não possuem condições para alojar estes animais. Os cavalos permanecem no exterior da praça de touros, junto aos veículos de transporte dos cavaleiros, algumas vezes ao sol. Além de vítimas de colhidas graves, patas partidas ou cortes profundos, todos os anos são reportados casos de cavalos que morrem na arena, geralmente por ataque cardíaco, o que demonstra o esforço a que estes animais são sujeitos, normalmente em dias de calor intenso. Atualmente, este é o único espetáculo em todo o mundo, onde ainda é permitida a realização de combates a cavalo.

5. A direção e fiscalização da tourada

Diretor de Corrida

Foto: © Basta de Touradas

Para cada tourada realizada em Portugal, a Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC) nomeia 2 Delegados Técnicos Tauromáquicos (DTT), que são pagos por esta entidade pública, e têm por objetivo fiscalizar o cumprimento do Regulamento do Espetáculo Tauromáquico (Decreto-Lei n.º 89/2014 de 11 de junho) e dirigir a corrida.

Os delegados incluem 1 Diretor de Corrida que dirige o espetáculo tauromáquico e 1 Médico Veterinário que tem por missão inspecionar os touros antes da corrida e verificar as suas condições de alojamento. O Veterinário permanece na tribuna durante o espetáculo, ao lado do Diretor de Corrida, do Cornetim e de um Agente da Autoridade, limitando-se a verificar se algum dos touros se lesiona ou apresenta algum tipo de lesão que impossibilite a lide. Nestes casos, o Veterinário deve ordenar a recolha do animal aos currais, o que nem sempre sucede. Quando acontece, não é prestada assistência veterinária ao animal lesionado, porque a presença do veterinário é apenas de “corpo presente” e não intervém nunca na assistência aos animais, ignorando totalmente a presença dos cavalos, que estão entregues aos cuidados dos cavaleiros.

Por sua vez, o Diretor de Corrida dirige o espetáculo da tribuna (uma espécie de árbitro), ordenando que a banda toque música durante a lide e com a função de garantir o cumprimento das regras estabelecidas no regulamento, incluindo as regras de bem estar animal, algo que nem sempre acontece. Os Diretores de Corrida (e Veterinários) nomeados pela IGAC são todos aficionados da tauromaquia, geralmente ex-forcados, empresários ou artistas, e muitos têm relações familiares e de amizade com os intervenientes e promotores das corridas de touros que vão fiscalizar.

Esta situação prejudica a existência de uma fiscalização imparcial e rigorosa, sendo frequentes as violações do regulamento, principalmente em matéria de bem estar animal.

6. A lide com ferros compridos

Bandarilhas usadas em Portugal.

Fotos: © Basta de Touradas

A tourada começa com o ritual das “cortesias” que consiste no desfile na arena dos artistas que vão intervir no espetáculo. O Regulamento Tauromáquico é bastante específico acerca deste ritual e, por exemplo, em relação aos trajes que devem ser apresentados, no entanto em lugar algum, a lei refere que os artistas devem espetar bandarilhas no touro, um pormenor que não deixa de ser bastante curioso.

Após as “cortesias” o primeiro artista (no caso das “corridas a cavalo”, o cavaleiro tauromáquico) coloca-se na arena aguardando a entrada do 1º touro (são lidados 6 touros no total) e começa a espetar os chamados “ferros compridos” (tipo de bandarilhas) no animal.

As bandarilhas consistem numa espécie de lança, afiada na ponta, que podem ser de 2 tipos: “ferros compridos” e “ferros curtos” (ver imagens em cima).

Como em Portugal é proibido o uso dos “picadores”1 existem os “ferros compridos” para substituir os efeitos dessa lança e provocar lesões significativas no dorso do animal logo que ele entra na praça. São ferros maiores, com lâmina dupla (em forma de seta) que provocam lesões fundamentais para a posterior realização da lide e principalmente para a “pega dos forcados”, porque estas lesões impedem o touro de levantar a cabeça. Os “ferros compridos” têm ferro de 8 cm com dupla lâmina de 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.

Quando cravados, alguns ferros compridos partem a meio, ficando metade no dorso do touro e a outra metade é uma bandeira que é exibida ao público pelo cavaleiro.

  1. Picador: homem montado num cavalo com uma proteção acolchoada e os olhos vendados, que crava uma lança comprida no dorso do touro, várias vezes, para rasgar os músculos do animal provocando intenso sangramento e evitando que o animal levante a cabeça.

7. A lide com ferros curtos

Ferros curtos em tourada em Portugal.

Foto: © Basta de Touradas

Após cravar vários “ferros compridos” (O regulamento não determina um número máximo nem mínimo de ferros a cravar) são espetados os “ferros curtos”, que têm a forma de um arpão, não existindo nenhum limite estabelecido na lei para o número de bandarilhas deste tipo que são cravados no animal.

Geralmente também são espetados “ferros de palmo”, que são mais pequenos em termos de comprimento (o arpão é igual). Os “ferros curtos” têm um ferro de 8 cm com arpão de 4 cm de comprimento e 2 cm de largura.

As bandarilhas são adornadas com papel de seda colorido, podendo ser também adornadas com flores, disfarçando assim o sangue e os ferimentos causados no animal.

8. Os passes de capote

Tourada em Portugal.

Foto: © Basta de Touradas

Durante a lide a cavalo, e depois de espetar os primeiros “ferros compridos”, o cavaleiro dá ordens ao bandarilheiro (auxiliar com capote) para dar alguns passes no touro com o seu capote (como se vê na imagem). Isto tem por objetivo cansar ainda mais o animal (que não está habituado a este desgaste físico) além de aumentar o grau de lesão dos ferros. Ao rodar a cabeça em busca do capote, o touro acaba por agravar as lesões no seu dorso, porque ao efetuar esse gesto, os “ferros compridos” já cravados vão rasgando ainda mais os tecidos do animal, impedindo que o animal levante a cabeça, preparando desta forma o touro para o resto da lide e para a “pega dos forcados”.

Se o cavaleiro perceber que o touro ainda está demasiado “vivo” durante a lide, dá ordens ao auxiliar para entrar na arena e intervir desta forma com o capote, fazendo o touro correr mais e rodar a cabeça para agravar as lesões das lâminas.

9. A “pega” dos forcados

Pega dos forcados em tourada portuguesa.

Foto: © Basta de Touradas

A “pega dos forcados” só pode ser realizada no final da lide, quando o animal já perdeu bastante sangue e se encontra bastante desgastado fisicamente, com lesões profundas nos músculos que lhe retiram força e o impedem de levantar a cabeça. Sem estas lesões era humanamente impossível a realização da “pega”, que é efetuada por 8 elementos, cada qual, com a sua função. Normalmente os forcados realizam a “pega de caras”, em que um dos elementos enfrenta o touro e o agarra pelos cornos sendo auxiliados pelos restantes elementos.

Quando isso não é possível, os forcados realizam a “pega de cernelha” que consiste em largar os cabrestos na arena, misturando-os com o touro. Nesse momento, 2 forcados aproximam-se do animal agarrando-o pela parte lateral. O fundamental, até por uma questão de honra, é que o touro não saia da praça sem ser dominado pela força humana.

10. O retirar das bandarilhas

Retirar das bandarilhas após uma tourada em Portugal.

Processo de remoção das bandarilhas após a lide na arena.

As bandarilhas são retiradas imediatamente após a lide do animal, sem qualquer tipo de assistência veterinária, normalmente durante o espetáculo. O processo é feito pelo “embolador”, ou seja, pela pessoa responsável pela colocação da proteção nos cornos do touro ou pelo transporte do camião. Para arrancar os diferentes tipos de lâminas, geralmente é usada uma navalha para cortar a carne em volta do arpão e puxar as lâminas. Tudo isto é feito com os animais ainda vivos.

Além disso, o “embolador” e os ajudantes, injetam antibióticos nos animais e spray de alumínio nas feridas para evitar infeções maiores. Após este cruel processo, os touros ficam nos curros (ou no camião de transporte), sem qualquer tipo de assistência veterinária, sem comida nem água, até ao final do evento. Em todas as corridas é obrigatória a presença de um veterinário, mas este encontra-se, do princípio ao fim do espetáculo, na tribuna ao lado do Diretor de Corrida, pelo que é uma figura de corpo presente e não presta qualquer assistência aos animais.

11. O transporte para o matadouro

Touro encaminhado para o matadouro depois da tourada em Portugal.

Foto: © Basta de Touradas

Feridos, com lesões profundas, os touros de lide são ilegalmente transportados para o matadouro, uma vez que a legislação nacional e comunitária não permite o transporte de animais feridos. Não existem salas de abate funcionais em nenhuma praça de touros em Portugal pelo que os animais são transportados e aguardam a abertura do matadouro para o seu abate.

Alguns animais morrem durante a viagem, conforme se encontra documentado em vários estudos e é admitido até pelos próprios criadores1. A carne destes animais acaba por entrar na cadeia alimentar humana, normalmente na forma de carnes processadas, apesar de todo o processo a que foram sujeitos.

Segundo os dados referentes à temporada de 2010, da Associação de Médicos Veterinários de Atividades Taurinas (AMVAT) são 4 os principais matadouros onde são abatidos os touros provenientes das touradas: Santarém, Tomar, Leiria e Mafra:

Matadouro Touros de lide abatidos
Matadouro Santacarnes (Santarém) 12
Matadouro de Ribacarnes (Tomar) 58
Matadouro Mapicentro (Leiria) 255
Matadouro de Mafra 1.600
TOTAL1.925
Touros de lide abatidos em Portugal em 2010 (abate por matadouro)

Nas temporadas de 2010 e 2011, o matadouro de Mafra foi o destino preferido para o abate dos touros utilizados nas touradas realizadas em Portugal, sendo o destino final de 83% dos animais que morreram nesses anos.

Um número bastante reduzido de touros são poupados à morte para servirem de “semental”2 nas ganadarias, algo que acontece com raridade. Existem ainda registos de alguns touros usados em touradas que depois aparecem em largadas de touros nas ruas de algumas localidades do Ribatejo, algo que é proibido pela legislação, e que constitui uma agravante em termos de sofrimento destes animais.

1. Ana Caria Nunes e JM Prates. Avaliação bioquímica do stresse físico dos touros de raça brava de lide (Bos taurus L.). DRARO e UTL-FMV.2006

2. Touros que apresentam boas caraterísticas para a lide na arena, são usados para reprodução.

Cavalo de toureio colhido.
Cavalo de toureio colhido na arena em Portugal.
touradas
Cavaleiro preparando-se para cravar uma bandarilha.
Touradas
Touro de lide e cavalo de toureio em tourada portuguesa.

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