Estatísticas das touradas em Portugal

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Estatísticas das touradas indicam um decréscimo desde o ano de 2009.

Em 2021 não se realizaram touradas nas regiões Norte e Algarve.

Público das touradas é bastante inferior ao que é divulgado pela IGAC.

Índice

Introdução

Segundo as estatísticas oficiais da Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC), o número de touradas realizadas em Portugal tem vindo a decrescer desde o ano de 2009, tendo atingido em 2016 um valor mínimo histórico (abaixo dos 200 espetáculos tauromáquicos por ano) algo de que não havia registo desde que começaram a ser publicados dados estatísticos da atividade tauromáquica.

O crescente desinteresse da população portuguesa pelas touradas, bem como o encerramento de praças de touros relevantes como Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, contribuíram para este declínio, que foi acentuado em 2021 com o encerramento da praça de touros que mais espetáculos tauromáquicos recebia nos últimos anos: a praça de touros de Albufeira, um espaço privado que era propriedade de um ex-matador de touros que decidiu vender o recinto, acabando com a realização de touradas no Algarve.

Só a praça de touros de Albufeira representava cerca de 11,4% dos espetáculos tauromáquicos realizados em Portugal, sendo apenas um exemplo que esta atividade atravessa uma crise profunda.

Em 2020 e 2021 a crise na atividade tauromáquica foi agravada pelas restrições impostas a toda a atividade cultural no âmbito do combate à pandemia de COVID 19 que resultou num decréscimo acentuado do número de espetáculos e de espectadores, mas é notório que a realização de touradas está cada vez mais confinada às regiões onde a tradição está mais enraizada (Lisboa, Vale do Tejo e algumas zonas do interior do Alentejo) onde as autarquias locais financiam com largos milhares de euros a manutenção desta tradição.

  • Factos:
  • 84% dos municípios portugueses (Continente) não acolheram touradas em 2021.
  • Cerca de 97,25% da população portuguesa não assistiu a touradas em 2019.
  • Apenas 2,7% da população assistiu a touradas em 2019.

    Fontes: Instituto Nacional de Estatística (INE) e Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC)

Apesar das estatísticas dos espetáculos tauromáquicos serem contabilizadas pela Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC) e pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), nenhuma das entidades apresenta números rigorosos, nem em relação ao número de touradas realizadas nem no que diz respeito ao público que a elas assiste. Este facto pode estar relacionado com a falta de uma fiscalização eficaz desta atividade, a existência de eventos “paralelos” (ou seja, ilegais) ao Regulamento do Espetáculo Tauromáquico que são contabilizados oficialmente e a falta de controlo e articulação entre as duas entidades.

Desta forma, optámos por nos basear nos dados estatísticos do INE para analisar o público que assiste a touradas (baseados na bilhética) e nos dados da IGAC para analisar o número de touradas realizadas (com base no licenciamento de espetáculos tauromáquicos).

De salientar que a IGAC só contabiliza os espetáculos tauromáquicos realizados em Portugal Continental. Também se realizam algumas touradas em praças de touros fixas nos Açores, que possui um regulamento e fiscalização própria, mas sem dados estatísticos oficiais.

1. Touradas realizadas em Portugal (1998-2020)

estatísticas - touradas realizadas
[1] Touradas realizadas em Portugal Continental (1998-2021)

O gráfico [1] mostra as touradas que foram licenciadas pela IGAC desde o ano de 1998.

O decréscimo de touradas realizadas em 2020 está relacionado com as restrições impostas pelas medidas de combate à pandemia de COVID-19, no entanto, é evidente o decréscimo de quase de 50% das touradas realizadas na década de 2009 a 2019.

O declínio verificado até 2006 esteve relacionado com o encerramento da praça de touros do Campo Pequeno (Lisboa), que esteve fechada para reabilitação entre os anos 2000 e 2006. Mesmo assim, o número máximo de touradas no continente foi atingido em 2002 com 372 espetáculos tauromáquicos.

É evidente uma queda acentuada das touradas realizadas em Portugal a partir de 2009, com um ligeiro aumento em 2019 (mais 1 espetáculo) mas com decréscimo em 2021 em comparação com a última temporada realizada sem restrições.

O declínio está relacionado com o crescente desinteresse do público, principalmente em municípios onde não existe relação com a tradição tauromáquica nem praças de touros fixas, bem como a ausência de patrocínios e de atenção mediática.

No gráfico [2] é possível verificar que em 2021 não se realizaram touradas em toda a região Norte e no Algarve (ver “Fim das touradas em Albufeira“), estando a atividade tauromáquica restringida à região de Área Metropolitana de Lisboa e região interior do Alentejo, como se pode ver na infografia. Comparando com o número de touradas realizadas em 2019, verificamos uma grande diferença ao nível geográfico e uma redução muito significativa do número de touradas realizadas.

De salientar que, apesar da temporada tauromáquica em 2021 ter decorrido quase sem restrições, apenas se realizaram touradas em praças de touros fixas, não se tendo realizado nenhuma tourada em praças desmontáveis.

Atualmente a única praça de touros fixa ativa na região Norte localiza-se no concelho de Mogadouro, não tendo acolhido nenhum espetáculo em 2021 e apenas 1 em 2019. As restantes touradas realizadas em 2019 a norte do Douro, foram promovidas em praças desmontáveis (Ponte de Lima, Baião, S. João da Pesqueira e Macedo de Cavaleiros). No Algarve não existe nenhuma praça de touros ativa, depois do encerramento da praça de Albufeira em 2020, que como se vê no gráfico, era claramente a que mais espetáculos tauromáquicos promovia, embora com fraca adesão de público.

Comparação entre touradas realizadas em 2019 e 2021, por concelho.
[2] Comparação entre número de touradas realizadas por concelho (2019 e 2021).
Infografia: © Plataforma Basta de Touradas (2022).

Nota: Nesta análise não foram tidos em conta os dados referentes ao ano de 2020, tendo em conta que nesse ano, em consequência das medidas restritivas impostas pelas autoridade de saúde no combate à pandemia de COVID-19, a temporada tauromáquica foi bastante atípica, com apenas 42 touradas autorizadas, tal como sucedeu com outros espetáculos realizados em Portugal.

14%

Percentagem de municípios que acolheram touradas em 2021 (39 municípios).

84%

Percentagem de municípios em Portugal Continental onde não se promoveram touradas em 2021 (239 municípios).

2,8

Média de touradas realizadas por praça de touros em 2021.

1.1. Touradas realizadas em Lisboa (2006-2020)

Touradas realizadas no Campo Pequeno (Lisboa)
[3] Touradas realizadas no Campo Pequeno em Lisboa (fonte: IGAC).

No caso de Lisboa, a praça de touros do Campo Pequeno, apesar das obras de reabilitação do espaço, tem vindo a perder um número significativo de público que se tem traduzido numa redução do número de espetáculos tauromáquicos realizados. O gráfico seguinte mostra o número de touradas realizadas no Campo Pequeno, desde o ano de 2007 (dados da IGAC) altura em que o recinto (que é propriedade da Casa Pia) foi reaberto ao público depois de transformado num espaço multiusos coberto, complementado com um centro comercial e parque de estacionamento.

Regista-se o elevado decréscimo no número de touradas a partir de 2020, altura em que o recinto passou para uma nova gerência (Álvaro Covões), prevendo-se que em 2022 o número de touradas no Campo Pequeno volte a ser reduzido para apenas 4 corridas de touros. O fim dos espetáculos tauromáquicos no Campo Pequeno é uma possibilidade cada vez mais real, tendo em conta o desinteresse do público, a falta de patrocínios e os efeitos negativos que a promoção de touradas tem na frequência do espaço.

Um momento marcante neste processo, foi o processo de insolvência da empresa que geria o Campo Pequeno, e que era responsável pela organização dos espetáculos tauromáquicos realizados em Lisboa: A Sociedade de Renovação Urbana do Campo Pequeno (SRUCP).

Na sequência desta insolvência, em 2019 a Casa Pia entregou a gestão do Campo Pequeno nas mãos do empresário Álvaro Covões (através da empresa “Plateia Colossal”) que gere o recinto de espetáculos e o centro comercial, e do fundo fundo de investimento “Horizon Equity Partners” (António Pires de Lima e Sérgio Monteiro) que gere o parque de estacionamento.

Álvaro Covões, apesar de ter decidido manter a atividade tauromáquica, subalugando o espaço a uma empresa tauromáquica (“Ovação e Palmas”) para realizar 7 corridas de touros nesse ano, referiu numa entrevista em 2019 que se as touradas se mantivessem no Campo Pequeno, não seria certamente por questões financeiras, porque, segundo o empresário “a tauromaquia não é propriamente um negócio por excelência em Portugal. Não é a tauromaquia que vai viabilizar qualquer negócio na gestão de um equipamento, portanto não é tema”1. deixando evidente a fraca dimensão económica do setor tauromáquico na atualidade.

Outro dado importante, é o facto da Casa Pia ter anulado a obrigação dos concessionários realizarem cerca de 21 touradas por ano no Campo Pequeno, uma imposição que decorria dos contratos celebrados no século passado e na sequência do processo de construção da praça, no qual a Câmara Municipal de Lisboa cedeu o terreno para a construção do recinto, com a condição de se destinar à realização de touradas e outros divertimentos.

Para esclarecer este assunto, em 2019, o Presidente da Câmara de Lisboa escreveu à Direção da Casa Pia, deixando claro que “a Casa Pia de Lisboa tem a mais ampla liberdade na decisão quanto à atividade a realizar no recinto em causa e quanto aos termos e condições do contrato estabelecido com a Sociedade de Reabilitação Urbana do Campo Pequeno, ou outros que entenda vir a celebrar, sendo certo que a realização de espetáculos tauromáquicos nunca será para o município de Lisboa condição de manutenção da concessão“.

Isto significa que a Casa Pia é livre de decidir se quer, ou não, manter a realização de touradas no Campo Pequeno2.

  1. Álvaro Covões ainda não tomou qualquer decisão sobre touradas no Campo Pequeno – NiT
  2. Mais informação sobre a realização de touradas no Campo Pequeno aqui.

2. Público nas touradas (2011-2020)

O número de pessoas que assistem a touradas tem vindo a diminuir bastante nos últimos anos, de acordo com os dados oficiais. Na página web da Federação Prótoiro é referido que “Em 2019 os espetáculos tauromáquicos formais (realizados em praças de toiros) obtiveram cerca de meio milhão de espectadores (469.000). A média de espectadores por espetáculo continua a subir”. Esta informação é claramente falsa, como se comprova nos dados oficiais do INE que indicam que, em 2019, assistiram a touradas em Portugal 283.592 espectadores, muito longe do “meio milhão” referido pela Prótoiro, que não apresenta a fonte destes dados falsos que tem vindo a difundir nos media e nas redes sociais.

Um artigo publicado na revista científica “Animals em 7 de novembro de 2020, revela que 67% da população portuguesa considera que as touradas não devem ser permitidas. Apenas 30,3% consideram que as touradas devem ser mantidas e 2,8% dos inquiridos neste estudo, não responder à questão.

As touradas têm vindo a perder público desde a temporada de 2010, pelo que também não é verdade que a “média de espectadores continua a subir” como refere a Prótoiro.

Público nas touradas. Comparação entre dados do INE e da IGAC.
[4] Público que assistiu a touradas em 2019 (comparação entre INE e IGAC)

Durante muitos anos, os dados referentes ao público que assiste a touradas era apurado pela IGAC, no entanto, esses dados não eram credíveis porque não se baseavam na bilhética, mas sim em estimativas bastante inflacionadas realizadas pelos próprios aficionados. Em 2009, por exemplo, os dados divulgados pela IGAC eram 60% superiores ao número real de bilhetes vendidos e oferecidos contabilizados pelo INE. Em alguns anos a IGAC triplicou o número de espectadores nas touradas com as suas estimativas “a olho”.

Nas últimas décadas as estimativas da IGAC eram realizadas através da observação das pessoas nas bancadas pelo Diretor de Corrida (aficionado da tauromaquia), que determinava um número aproximado de espectadores. Perante as constantes denuncias de fraude na contabilização do público das touradas, em 2021 a IGAC decidiu finalmente deixar de publicar as estimativas de público dos Diretores de Corrida, remetendo para o INE a divulgação dos dados referentes aos espectadores das touradas em Portugal.

Em 2010 o INE tinha interrompido a contabilização do público das touradas, mas retomou a contagem em 2018, apurando um total de 291.904 espectadores em espetáculos tauromáquicos. Nesse ano, a IGAC estimou esse número em 379.000 espectadores.

No que diz respeito a 2019, o INE contabilizou 283.592 pessoas nas bancadas das praças de touros, mas a IGAC refere no seu relatório que as touradas tiveram quase 400.000 espectadores, acrescentando cerca de 115.000 espectadores “fantasma”.

Posição Tipo de Espetáculo Espectadores 2019 Espetadores 2020*Espetadores 2021
1 Música 8 978 562 1 215 679
2 Teatro 2 189 770 671 306
3 Mista/Variedades 1 562 220 64 016
4 Multidisciplinares 1 270 186 111 864
5 Outras modalidades 1 489 161 222 933
6 Dança 533 322 89 457
7 Folclore 419 237 11 729
8 Circo 288 712 104 763
9 Touradas 283 592 62.446 133.356
10 Recitais de Coros 130 948 10 987
[5] Estatísticas da Cultura 2019, 2020 e Estatísticas de tauromaquia 2019, 2020 e 2021 – INE: Instituto Nacional de Estatística.
* Restrições impostas à realização de espetáculos ao vivo no âmbito do combate à pandemia.

As estatísticas da Cultura de 2019 indicam que as touradas são um dos espetáculos ao vivo com menos público em Portugal. Apenas os “Recitais de Coros” têm menos público que as touradas.

Os espetáculos de Dança, Folclore, Teatro, Música e outros, atraem muito mais público do que as touradas, dados que contrariam as mentiras propagadas insistentemente pelos defensores da tauromaquia e pela própria IGAC.

Verificámos que em 2020, ano em que foram adotadas muitas medidas restritivas à atividade cultural e, em particular aos espetáculos ao vivo, a tauromaquia conseguiu superar outras modalidades em número de espetáculos e de público, fruto da incompreensível exceção concedida para a realização de espetáculos tauromáquicos. Esta situação causou polémica após a divulgação de imagens de praças de touros cheias de pessoas, sem distanciamento e, muitas, sem qualquer proteção.

No gráfico seguinte são apresentados os dados oficiais do INE relacionados com o público das touradas nos últimos anos.

Espectadores de touradas em Portugal (2008-2021) Instituto Nacional de Estatística
[6] Público que assistiu a touradas em Portugal (Instituto Nacional de Estatística)

Notas:
1. O INE interrompeu a contabilização dos espetáculos tauromáquicos em 2010, retomando em 2018. Ao contrário da IGAC que apura o público nas touradas com base em estimativas, o INE contabiliza o número de bilhetes vendidos e oferecidos.
2. A redução drástica de público nas touradas em 2020 está relacionada com a redução do número de espetáculos culturais devido às medidas de combate à pandemia de COVID 19, que levaram ao cancelamento de inúmeros espetáculos.
3. Em 2021 a temporada tauromáquica decorreu sem quaisquer restrições.

Analisando o público que assistiu a touradas nos últimos três anos, verificamos que em 2020, apesar da significativa redução do número de espetáculos tauromáquicos realizados em virtude das restrições de combate à pandemia, a média de espectadores também baixou (1.414 espectadores). Em 2021, a temporada tauromáquica decorreu sem nenhumas restrições, sendo evidente o declínio de público em comparação com o período pé-pandemia. Verifica-se ainda uma redução da média de espectadores nas touradas em 2021, em comparação com o ano anterior.

Ano Nº de touradas Espectadores Média de espectadores
2018 181291.9041.612
2019 173283.5921.639 🟢
2020 4462.4461.414 🔴
2021115133.3561.159 🔴
[7] Número de touradas realizadas, espectadores e média alcançada entre 2018 e 2021. (Fonte: INE)

3. Touros abatidos após as touradas

O número médio de animais encaminhados para abate em matadouro é de superior a 1.000, tendo em conta que são utilizados 6 touros em cada espetáculo tauromáquico.

Existem poucas informações sobre o destino dos animais após os espetáculos tauromáquicos. Desde que saem da arena, feridos e em sofrimento, os animais embarcam no submundo tauromáquico, pouco transparente e duvidoso.

A plataforma Basta de Touradas conseguiu em 2012 obter dados referentes às temporadas de 2010 e 2011, fornecidos por médicos veterinários aficionados. Esses dados indicam que foram abatidos 1.935 touros de lide em 2010 (em 301 espetáculos) e 1.858 em 2011 (em 274 espetáculos), animais que foram abatidos em 4 matadouros diferentes:

Matadouro Localidade 2010 2011
Santacarnes Santarém 12 60
Ribacarnes Tomar 58 ND
Mapicentro Leiria 255 118
Mafra Mafra 1600 1680
[8] Nº de touros de lide abatidos em matadouro (2010 e 2011).

Analisando estes dados, verificamos que o número de touros de lide abatidos em matadouro é ligeiramente superior ao esperado, tendo em conta o número de espetáculos realizados nestes dois anos. Este facto pode estar relacionado com a realização de eventos tauromáquicos ilegais, que não são contabilizados pela IGAC. No ano de 2010, por exemplo, foram abatidos mais 129 touros de lide do que seria esperado, numero suficiente para organizar 25 espetáculos tauromáquicos.

4. Touradas na televisão

Número de touradas transmitidas na RTP entre 2012 e 2021.
[9] Número de touradas emitidas na RTP (2012-2021).

Um dos reflexos do crescente desinteresse da população portuguesa em relação às touradas, é o fim da transmissão de touradas na televisão.

Depois da SIC e TVI terem abdicado deste tipo de conteúdo violento e cruel para os animais, na sequência de milhares de queixas dos telespectadores, em 2021 foi a vez da televisão pública anunciar o fim da transmissão de touradas.

Há anos que a transmissão de touradas era o principal motivo de queixa dos telespectadores da RTP e diversos provedores do telespectador tinham referido que a transmissão de touradas não é serviço público e que a RTP se devia abster de investir neste tipo de transmissão.

Recorde-se que em 2012 chegaram a ser transmitidas 12 touradas na televisão portuguesa, passando para 7 em 2015 e apenas 3 a partir de 2019. A transmissão de touradas foi restringida em 2008 quando o Tribunal de Lisboa proibiu a RTP de emitir a “44ª Corrida TV” antes das 22h30 e sem a difusão permanente de um indicativo visual apropriado que a apresente como um programa violento capaz de influir negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes, na sequência de uma Providência Cautelar interposta pela Associação Animal.

Segundo uma sondagem da Intercampus de junho de 2021, sobre a transmissão de touradas na RTP, a maioria dos entrevistados (44,9%) considerou “não acho bem e concordo que seja proibida de as transmitir“, enquanto 26,8% considerou que “não acho bem, mas não concordo que seja proibida de as transmitir” e apenas 22,5% considerou “acho bem” que a RTP transmita touradas. No total, mais de 71% dos entrevistados não concorda com a transmissão de touradas na RTP, contrariando o mito que as touradas na televisão pública são muito apreciadas pelos portugueses.

Ao nível das sondagens, apesar de ouvirmos com insistência que a transmissão de touradas geram audiências relevantes, a verdade é que, se isso fosse verdade, todos os canais investiam neste conteúdo. A verdade é que a transmissão de touradas implica um elevado investimento nas 3 horas de emissão, que não compensam os resultados.

5. Empregos

É costume ouvirmos dizer que muitas pessoas dependem da atividade tauromáquica e que a abolição das touradas vai gerar uma grave crise de desemprego. Isso não é verdade.

Basta analisar os dados estatísticos da Inspeção Geral das Atividades Culturais relativos à temporada tauromáquica de 2019 para perceber que o setor tauromáquico tem uma dimensão bastante reduzida, não só ao nível das receitas financeiras como em termos de emprego. São poucas as pessoas que dependem desta atividade para sobreviver, e praticamente todos os artistas, empresários e pessoas ligadas ao setor, possuem outras atividades profissionais principais, não relacionadas com a tauromaquia.

Tendo em conta que 2020 foi um ano atípico, com muitas restrições em virtude do combate à pandemia de COVID-19, analisamos os dados de 2019 e apresentamos aqui os factos principais:

5.1 Empresas tauromáquicas:

3

Número de empresas tauromáquicas que conseguiram organizar mais de 10 touradas em 2019 (média de 1,3 touradas por mês).

Este número reduzido de empresas e de espetáculos promovidos, torna praticamente inviável a manutenção de postos de trabalho fixos. Estas empresas são forçadas a recorrer a trabalho temporário e prestações de serviços.

Empresa tauromáquicaTouradas promovidasMédia por mês
Toiro das Sesmarias (EXTINTA)201,6
Colina Fresca, Agro-Pecuária, Lda. (Exploração pecuária)171,4
Sociedade de Renovação Urbana do Campo Pequeno (EXTINTA)121
MÉDIA:16,3 touradas1,3 touradas/mês
[10] As 3 empresas tauromáquicas com mais touradas organizadas em 2019

De referir que, das 3 empresas tauromáquicas com maior atividade em 2019, duas já encerraram a sua atividade (Toiro das Sesmarias, em Albufeira e a Sociedade Campo Pequeno, em Lisboa) e a outra (Colina Fresca) não tem como atividade principal a tauromaquia, mas sim, a atividade pecuária.

Aliás, refira-se que a maioria das empresas tauromáquicas não tem por atividade a promoção de espetáculos tauromáquicos, pelo que não deviam ser autorizadas pela IGAC a promover a realização de touradas.

Apesar do Regulamento Tauromáquico referir que “O promotor do espetáculo é a pessoa, singular ou coletiva, que tem por atividade a promoção ou organização de espetáculos tauromáquicos” (nº 1 do Artigo 10.º CAPÍTULO III, do DL 89/2014, de 11 de Junho), a verdade é que em 2018 – por exemplo – dos 52 promotores de touradas, apenas 13 tinham como Código de Atividade Económica (CAE) principal o CAE 93291 – Atividades tauromáquicas.

Na lista de promotores de touradas em 2018 encontramos várias entidades sem estatuto legal para promover este tipo de espetáculo, tais como associações, clubes de futebol, estações de rádio, juntas de freguesia, Misericórdias, associações de forcados e de bombeiros voluntários, além de empresários de outros ramos, como a pecuária, comércio e venda de automóveis, comércio de animais, estabelecimentos de bebidas, etc.

Na prática, a Inspeção Geral das Atividades Culturais devia ser rigorosa e cumprir o artigo 10º do Regulamento Tauromáquico, mas apesar das denúncias, continua a facilitar a atividade dos empresários tauromáquicos e a autorizar estas entidades a organizar touradas.

5.2 Cavaleiros tauromáquicos:

10

Número de cavaleiros tauromáquicos que alcançaram 20 ou mais atuações em 2019 (média de 2 touradas por mês).

Destes, apenas 4 cavaleiros tauromáquicos conseguiram realizar mais de 25 atuações na temporada de 2019. Tendo em conta os custos elevados de manutenção dos cavalos e restantes despesas da atividade (transportes, treinos, vestuário, etc.) e a redução significativa dos cachets pagos pelos empresários, é insustentável que alguém consiga viver dedicando-se exclusivamente a esta profissão.

CavaleiroNº de atuaçõesMédia por mês
António Ribeiro Telles322,6
Luís Rouxinol292,4
Luís Rouxinol Jr.282,3
Francisco Palha262,1
Marcos Bastinhas252,0
Miguel Moura252,0
João Moura Jr. 231,9
Filipe Gonçalves221,8
João Moura Caetano201,6
Manuel Telles Bastos201,6
MÉDIA:25 touradas2 touradas/mês
[11] Cavaleiros tauromáquicos com 20, ou mais, atuações em 2019 (Fonte: IGAC)

5.3 Bandarilheiros

10

Número de bandarilheiros com mais de 30 atuações em 2019.

Os dados fornecidos pela IGAC indicam que a categoria de bandarilheiro é a que consegue uma média superior de atuações por mês. Em 2019, 9 bandarilheiros conseguiram realizar uma média de 3 (ou mais) touradas por mês.

BandarilheiroNº de atuaçõesMédia por mês
André Rocha584,8
João Belmonte/Prates514,2
Manuel dos Santos Becas504,1
Duarte Alegrete494,0
João Bretes413,4
Ricardo Alves413,4
João Oliveira403,3
Francisco Marques363,0
Nuno Oliveira363,0
João Martins332,7
MÉDIA:43,5 touradas3,5 touradas/mês
[12] Bandarilheiros e número de atuações na temporada de 2019 (Fonte: IGAC)

Outras categorias:

  • Matador de touros – Nenhum “matador realizou mais de 10 atuações em Portugal em 2019.
  • Forcados – Os forcados não são remunerados e possuem outras ocupações profissionais.
  • Artistas amadores e praticantes – Não fazem da tauromaquia a sua profissão.
  • Novilheiros – Cada novilheiro efetua, em média, 5 atuações por ano.

Durante alguns anos a Associação Nacional de Toureiros publicou as suas próprias estatísticas relacionadas com a atividade dos profissionais da tauromaquia. Os últimos dados que dispomos referem-se à temporada de 2017, e indicam o seguinte:

CategoriaNúmero
Cavaleiros tauromáquicos (com 20, ou mais, atuações)6
Matadores de touros (com mais de 10 atuações)1
Novilheiros (apenas 2 constam na lista, com menos de 5 atuações)2
Emboladores (com 10, ou mais touradas realizadas)7
TOTAL16 artistas
[13] Categorias de artistas tauromáquicos com mais atuações em 2017. (Fonte: Associação de Toureiros – temporada de 2017)

5.4 Ganadeiros:

Apesar de existirem cerca de 100 ganadarias de touros bravos em Portugal que fornecem animais para touradas, largadas de touros e outros festejos tauromáquicos, os ganadeiros admitem que o negócio não é rentável. As ganadarias de touros bravos inserem-se dentro de explorações agrícolas que se dedicam a outros negócios, não sendo a criação de animais para touradas, a sua atividade principal.

Em entrevista ao Jornal “O Mirante”, o ganadeiro José Dias referiu:

Pergunta: Estamos sempre a ouvir que os toiros não são um negócio rentável. Mas continuam a existir muitas ganadarias.
Resposta: Os ganadeiros são na sua grande maioria senhores muito ricos, com muitas propriedades, que se dedicam ao negócio mais por paixão. Ninguém pode viver diretamente de uma ganadaria.
Pergunta: Também é um ganadeiro rico?
Resposta
: Não tenho prejuízo, mas também não tenho lucro. Se fosse a contabilizar as horas que faço à noite com o meu filho não haveria dinheiro que pagasse. Faço isto mais por paixão e carolice.

Neste sentido, e tendo em conta o declínio da profissão de “campino”, as ganadarias de touros bravos não possuem trabalhadores exclusivamente dedicados aos touros bravos, pelo que o fim das touradas não levaria a despedimentos nestas explorações.

Os dados demonstram o número insignificante de artistas tauromáquicos em atividade em Portugal, sendo de realçar que a esmagadora maioria tem outras atividades profissionais, desconhecendo-se se existe algum profissional da tauromaquia em Portugal que viva exclusivamente desta atividade.

Mesmo os cavaleiros tauromáquicos com maior número de atuações, têm que suportar custos muito elevados com a manutenção de uma quadra de cavalos, e restantes despesas associadas à sua atividade.

Em várias entrevistas, é admitido que atualmente, alguns cavaleiros tauromáquicos chegam a pagar para atuar em determinadas corridas de touros, especialmente aquelas que eram televisionadas.

Fontes:

Sondagem da Universidade Católica

Sondagem da Universidade Católica

Opinião da população de Lisboa sobre as touradas

Hernest Hemingway

Hemingway e as touradas

Toda a verdade sobre o mito do apoio de Ernest Hemingway às touradas

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