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O movimento anti touradas em Portugal

[Última atualização: 09/04/2026] – O movimento abolicionista das touradas em Portugal é tão antigo como as próprias corridas de touros. Desde o século XVI que as lutas com touros na arena são contestadas, tanto pelo seu caráter violento (que resultava em grande número de vítimas humanas) como pela crueldade com os animais.

Manifestação Campo Pequeno
Manifestação contra as touradas no Sagres Campo Pequeno (Lisboa) com milhares de pessoas.

O caráter violento e desumano

Em Portugal, o primeiro registo de contestação a estas lutas é atribuido à Igreja católica. O Padre Manoel Bernardes (1644-1710) escreveu o seguinte sobre as loucuras e crueldades cometidas nas corridas de touros: “O jogo de feras foi introdução do demónio, como todas as mais do gentilismo, para que o coração humano perdesse o horror à morte e derramamento de sangue humano, e aprendesse a fereza de costumes e indómito das paixões”.

O padre acrescentou que “em vez de desterrarem semelhante folguedo, mandaram fazer um painel por um pintor célebre, onde se via o touro com os sete mortos a seus pés, e o puseram para memória do caso em lugar público. O que a mim, diz com muita razão o sobredito autor, me parece que foi levantarem os cidadãos um padrão e letreiro da sua loucura! Vejam se tem razão Cassiodoro, de chamar a este exercício jogo cruel, deleite sanguinolento e fereza humana (…)”.1

A critica surgiu alguns anos após a famosa Bula do Papa Pio V, horrorizado pela crueldade dos espetáculos taurinos. A 1 de novembro de 1567 publicou a Bula “Salute Gregis Dominici” proibindo determinantemente as corridas de touros e decretando pena de excomunhão imediata a qualquer católico que as permitisse ou participasse nelas. Ordenou igualmente que não fosse dada sepultura eclesiástica aos católicos que pudessem morrer vítimas de qualquer espetáculo taurino. Estas determinações apenas fizeram efeito na região de Itália, mantendo-se as lutas com touros noutras partes da Europa.

A contestação liberal

Mas foi no século XIX que a contestação às touradas subiu de tom, com a transformação destas lutas num espetáculo comercial semelhante ao que é praticado nos dias de hoje.

Em Portugal, os precursores da revolução liberal associavam as touradas a um Portugal atrasado e absolutista, pelo que – quase todos – se manifestaram contra elas. Passos Manuel chegou mesmo a abolir as touradas em setembro de 1836 considerando-as “impróprias de uma nação civilizada“. A contestação começava a incluir a crueldade com os animais.

A primeira associação de proteção animal

Em 1875 surgia em Lisboa a Sociedade Protetora dos Animais que desenvolveu uma intensa campanha contra este espetáculo.

O movimento liberal tentou “humanizar” o espetáculo tauromáquico, concedendo-lhe um caráter beneficente, autorizando a realização de touradas mediante uma licença especial e desde que as receitas revertessem para a Casa Pia e para as Misericórdias, impedindo que este divertimento se tornasse num negócio.

Começaram ainda a surgir publicações que se assumiam contra a diversão tauromáquica, com destaque para a Revista Universal Lisbonense, onde foram publicados inúmeros artigos de opinião sobre as origens e a crueldade das touradas realizadas em Portugal e Espanha, através de nomes notáveis como António Feliciano de Castilho e seu irmão José Feliciano de Castilho, entre outros.

No início do século XX, foi o movimento feminista que se destacou na luta e contestação às touradas, desenvolvendo campanhas, debates e artigos na imprensa contra o divertimento taurino, através de várias mulheres influentes na época, como Elina Guimarães, Adelaide Cabete ou Vitória Pais Freire de Andrade.

Com a República voltou a contestação do divertimento marialva, com várias publicações a assumir-se contra as touradas, por exemplo, o jornal “A Batalha“.

A proteção do Estado Novo

Durante o Estado Novo, a contestação às touradas abrandou com a proteção que o regime concedeu a esta tradição, incluindo até a tauromaquia nas campanhas de dinamização turística, considerando este divertimento, algo diferente e castiço, fomentando aquilo que se chama hoje de “tourada à portuguesa“, que não é mais do que a recriação das velhas touradas reais.

Mesmo em situação adversa, vários movimentos apareceram contra as touradas durante o Estado Novo, com destaque para a década de 30, quando o regime analisou a possibilidade de trazer de volta as touradas de morte. Além de várias personalidades distintas da época, também grupos de católicos se uniram contra os touros de morte, como um grupo de católicos de Lisboa que distribuiu um folheto com uma tradução de um artigo publicado no Jornal oficial do Vaticano contra a violência das touradas.

A contexto político e social atual

Após o 25 de Abril de 1974, a realização de touradas decresceu, ganhando fulgor nos anos 80, altura em que foram difundidas pela televisão para todo o país.

Voltariam a ser muito contestadas, a partir dos anos 90 através das associações de proteção animal, com destaque para a Associação Animal.

Nos últimos anos, a contestação tem-se alargado a outros setores da sociedade, de juristas, psicólogos, defensores de direitos humanos, passando por músicos, artistas, atletas e inúmeras marcas comerciais que deixaram de patrocinar este tipo de espetáculo violento. Também veterinários, biólogos e organizações ambientais contestam a perpetuação das touradas.

Ao nível político, a defesa da tradição tauromáquica situa-se claramente à direita, principalmente junto dos partidos mais conservadores (Chega, CDS e PSD), com alguma resistência no Partido Socialista onde o seu setor mais conservador continua a estar ao lado do lobby das touradas. O Partido Comunista Português (PCP) constitui uma exceção curiosa, mantendo uma posição de apoio às touradas, possivelmente por uma questão geográfica, já que muito do seu eleitorado se localiza em regiões onde a tradição está mais enraizada. Em 2015 os portugueses elegeram 1 deputado do Partido PAN (Pessoas, Animais e Natureza), o primeiro partido animalista com assento na Assembleia da República.

Ao longo dos últimos anos, além das associações de proteção animal, foram constituídos vários movimentos exclusivamente dedicados à causa abolicionista das touradas, como o MATP – Movimento pela Abolição da Tauromaquia de Portugal.

O nascimento da Plataforma Basta de Touradas

Em 2012, e respondendo a uma vontade inequívoca da sociedade, vários movimentos e associações uniram-se na designada Plataforma Basta de Touradas que tem por objetivo a abolição das touradas em Portugal optando por uma abordagem construtiva e uma estratégia gradual para alcançar este objetivo.

Uma das primeiras ações da Plataforma foi a participação no processo de revisão do Regulamento do Espetáculo Tauromáquico, algo que aconteceu pela primeira vez desde que o Regulamento foi criado nos anos 50 do século passado.

Desta forma, foram alcançados alguns avanços, como a inclusão de medidas de bem estar animal e outras obrigações que condicionaram o desenvolvimento da atividade tauromáquica. Uma das medidas aprovadas e incluídas na legislação foi a obrigatoriedade de incluir na publicidade às corridas de touros de uma advertência alertando que “o espetáculo pode ferir a suscetibilidade dos espectadores“, sendo a primeira vez que o Estado reconheceu o caráter violento das touradas.

As corridas de touros constituem atualmente uma exceção às leis de proteção animal em Portugal, e o seu futuro está claramente condicionado pela evolução civilizacional da sociedade portuguesa.

Os avanços alcançados na causa animal, colocam as touradas à margem dessa evolução, contrariando todos os valores e princípios que ganham raízes na legislação portuguesa.

  1. Castilho, António Feliciano de. “Padre Manoel Bernardes, Excertos”. Tomo segundo. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, Editor, 1865. Pág. 240 – 241. ↩︎