Movimento anti-touradas em Portugal

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O movimento abolicionista das touradas em Portugal é tão antigo como as próprias corridas de touros.

Desde o início das lutas com touros, que estas práticas são alvo de críticas e contestação no nosso país, inicialmente pelo seu caráter violento que resultava em grande número de vítimas humanas, e depois, pela crueldade contra os animais.

Manifestação Campo Pequeno
Manifestação contra as touradas no Campo Pequeno

O caráter violento e desumano

Em Portugal, depois da condenação da Igreja Católica na sequência de uma Bula Papal no século XVI que se opunha às lutas com touros e outras feras, as críticas aumentaram de tom após a revolução liberal, no século XIX, momento em que as touradas foram associadas a um Portugal atrasado e absolutista e abolidas em 1836 por serem consideradas “impróprias de uma nação civilizada”.

A contestação liberal

A partir daí, por força da contestação do movimento liberal, tentaram “humanizar” o espetáculo tauromáquico, concedendo-lhe um caráter beneficente, autorizando a realização de touradas mediante uma licença especial e desde que as receitas revertessem para a Casa Pia e para as Misericórdias, impedindo que este divertimento se tornasse num negócio.

Começaram ainda a surgir publicações que se assumiam contra a diversão tauromáquica, com destaque para a Revista Universal Lisbonense, onde foram publicados inúmeros artigos de opinião sobre as origens e a crueldade das touradas realizadas em Portugal e Espanha, através de nomes notáveis como António Feliciano de Castilho e seu irmão José Feliciano de Castilho, entre outros.

A primeira associação de proteção animal

Não tardou para que, como noutros países europeus, as touradas fossem criticadas em Portugal pelos maus tratos infligidos aos animais, nomeadamente através da ação da Sociedade Protetora dos Animais, entretanto constituída e que desenvolveu uma intensa campanha contra este espetáculo público.

No início do século XX, foi o movimento feminista que se destacou na luta e contestação às touradas, desenvolvendo campanhas, debates e artigos na imprensa contra o divertimento taurino, através de várias mulheres influentes na época, como Elina Guimarães, Adelaide Cabete ou Vitória Pais Freire de Andrade.

Com a República voltou a contestação do divertimento marialva, com várias publicações a assumir-se contra as touradas, por exemplo, o jornal “A Batalha“.

A proteção do Estado Novo

Durante o Estado Novo, a contestação abrandou com a proteção do regime à tradição tauromáquica.

Salazar legalizou as touradas em Portugal publicando o primeiro Regulamento do Espetáculo Tauromáquico e as diferentes categorias de artistas tauromáquicos, através de Decreto em 1953.

Foi ainda nessa altura que se ergueram a esmagadora maioria das praças de touros existentes no país.

O regime incluiu as touradas nas campanhas de dinamização turística, considerando este divertimento, algo diferente e castiço que agrada aos turistas que nos visitam, fomentando aquilo que se chama hoje de “tourada à portuguesa”, que não é mais do que a recriação das velhas touradas reais.

Mesmo em situação adversa, vários movimentos apareceram contra as touradas durante o Estado Novo, com destaque para a década de 30, quando o regime analisou a possibilidade de trazer de volta as touradas de morte. Além de várias personalidades distintas da época, também grupos de católicos se uniram contra os touros de morte, como um grupo de católicos de Lisboa que distribuiu um folheto com uma tradução de um artigo publicado no Jornal oficial do Vaticano contra a violência das touradas.

A contexto político e social atual

Após o 25 de Abril de 1974, a realização de touradas decresceu, ganhando fulgor nos anos 80, altura em que foram difundidas pela televisão para todo o país.

Voltariam a ser muito contestadas, a partir dos anos 90 através das associações de proteção animal. O aparecimento das televisões a cores contribuiu bastante para a sensibilização da sociedade portuguesa, porque passou a ser bem visível o sangue e o sofrimento a que eram sujeitos os animais, tanto touros como cavalos, e empatia pelos animais e pelo seu sofrimento passou a estar no centro do debate.

Nos últimos anos, a contestação tem-se alargado a outros setores da sociedade, de juristas, psicólogos, defensores de direitos humanos, passando por músicos, artistas, atletas e inúmeras marcas comerciais que deixaram de patrocinar este tipo de espetáculo violento. Também veterinários, biólogos e organizações ambientais contestam a perpetuação das touradas.

Ao nível político, a defesa da tradição tauromáquica situa-se claramente à direita, principalmente junto dos partidos mais conservadores, com alguma resistência no Partido Socialista onde o seu setor mais conservador continua a estar ao lado do lobby das touradas. O Partido Comunista Português constitui uma exceção curiosa, mantendo uma posição de apoio às touradas, possivelmente por uma questão geográfica, já que muito do seu eleitorado se localiza em regiões onde a tradição está mais enraizada.

Ao longo dos últimos anos, além das associações de proteção animal, foram constituídos vários movimentos exclusivamente dedicados à causa abolicionista das touradas.

O nascimento da Plataforma Basta de Touradas

Em 2012, e respondendo a uma vontade inequívoca da sociedade, vários movimentos e associações uniram-se na designada Plataforma Basta de Touradas que tem por objetivo a abolição das touradas em Portugal optando por uma abordagem construtiva e uma estratégia gradual para alcançar este objetivo.

Uma das primeiras ações da Plataforma foi a participação no processo de revisão do Regulamento do Espetáculo Tauromáquico, algo que aconteceu pela primeira vez desde que o Regulamento foi criado nos anos 50 do século passado.

Desta forma, foram alcançados alguns avanços, como a inclusão de medidas de bem estar animal e outras obrigações que condicionaram o desenvolvimento da atividade tauromáquica. Uma das medidas aprovadas e incluídas na legislação foi a obrigatoriedade de incluir na publicidade às corridas de touros de uma advertência alertando que “o espetáculo pode ferir a suscetibilidade dos espectadores“, sendo a primeira vez que o Estado reconheceu o caráter violento das touradas.

As corridas de touros constituem atualmente uma exceção às leis de proteção animal em Portugal, e o seu futuro está claramente condicionado pela evolução civilizacional da sociedade portuguesa.

Os avanços alcançados na causa animal, colocam as touradas à margem dessa evolução, contrariando todos os valores e princípios que ganham raízes na legislação portuguesa.

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