História das touradas em Portugal

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2. O início das lutas com touros

Não se sabe ao certo onde surgiu esta tradição. Alguns historiadores tauromáquicos referem que as touradas remontam ao século XII, mas a verdade é que os combates com feras dessa época, não têm relação direta com as atuais touradas. As lutas com touros, como divertimento público, só surgiu muitos séculos mais tarde, sendo uma tradição bem mais recente do que se tenta transmitir.

Parece-me que a teoria mais provável é que possam derivar de caçadas, protagonizadas pelos povos visigodos. Com a chegada dos árabes à Península, é possível que este povo, confrontado com este tipo de caça, tenham introduzido os cavalos na perseguição aos bovídeos, com uso de lanças e as meias luas, que se mantiveram por muitos anos. Isso pode explicar a maior incidência da tauromaquia em regiões com maior influência muçulmana, algo que se reflete na própria arquitetura de várias praças de touros.

Na idade média, a caça aos touros deu lugar a combates de treino militar que surgiam habitualmente associados às justas e cavalhadas, para aguçar a ferocidade dos combatentes e aperfeiçoar a sua perícia.

Mais tarde, com o surgimento da pólvora, a cavalaria perdeu a sua importância nos campos de batalha e os combates com touros e outros animais “ferozes” ganharam um carácter lúdico mas igualmente violento, originando um grande número de vítimas mortais, animais e humanos.

A prática desta atividade estava reservada às classes mais privilegiadas da sociedade que as usavam para alimentar o seu prestígio e demonstrar toda a sua masculinidade, coragem e destreza.

S. Pedro Regalado, padroeiro dos toureiros
São Pedro Regalado, padroeiro dos toureiros. Curiosamente, segundo a lenda, o Santo curou um touro ferido que fugiu da praça de touros de Valladolid.

Desde o início, estes combates sangrentos com feras foram contestados pela igreja católica. O Papa Pio V chegou a proibir a sua realização em 1567, acabando desde logo com a realização de lutas com touros em Itália numa altura em que estes combates ainda eram meros exercícios militares.

Em Portugal e Espanha a decisão do Papa foi desrespeitada, a Bula Papal foi ignorada e o seu conteúdo escondido ou mesmo adulterado. Apesar disso, a Bula chegou a ser publicada em Portugal através da Carta Pastoral do Bispo de Coimbra D. João Soares, documento que se encontra ainda hoje conservado nos Arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal.

Na sequência da Bula Papal de Pio V e da sua publicação em Portugal, as lutas com touros foram proibidas pelo Cardeal D. Henrique no ano de 1578, proibição que se manteve apenas durante dois anos, até 1580, altura em que Portugal ficou sob domínio espanhol que se prolongou até 1640. Este período de 60 anos marcou o enraizamento das festas com touros no nosso país.

Bula Pio V proibindo as touradas em Portugal
Tradução da Bula Papal de Pio V a proibir as lutas com touros em Portugal (BNP).

As lutas com touros não são um exclusivo da Península Ibérica. Elas ocorreram um pouco por toda a Europa medieval, mas a maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de combates sangrentos por volta dos séculos XVIII e XIX, com o surgimento do iluminismo, por se tratarem de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas.

Atualmente as touradas são proibidas na maioria das nações europeias, com exceção de Portugal, Espanha e sul de França.

Após o domínio Filipino, no século XVII, D. Pedro II (O Pacífico) foi um grande opositor deste divertimento e introduziu a 14 de setembro de 1676 a obrigação de “embolar” os cornos dos touros com uma proteção para evitar os derrames de sangue, e mortes, muito comuns nas arenas da época. A obrigação nem sempre era cumprida e no início do século XVIII as lutas eram feitas com intensa crueldade e sem qualquer compaixão com os animais que eram abatidos das mais variadas maneiras, utilizando-se não só o rojão, como as lanças, a espada, a meia-lua e até as ferozes matilhas de cães.

A “embolação” retirava alguma emoção ao divertimento pelo que a maioria das vezes não era cumprida, a julgar pelos inúmeros avisos e decretos emitidos nos anos seguintes, lembrando esta obrigação.

Apesar das limitações, no século XVIII as corridas de touros em Portugal incluíam divertimentos bárbaros para entreter o público, como a “degolação dos carneiros” ou os combates de touros com cães de fila, além de outros divertimentos sangrentos. Não admira que tenham sido sempre muito contestadas por várias personalidades como Diogo Inácio de Pina Manique, que em 2 de abril de 1791 solicitou a proibição das touradas (independentemente dos motivos para a sua realização) numa carta precatória circular enviada ao Provedor da Comarca de Setúbal.

Bullfight: lutas com touros em Inglaterra.
Lutas com touros em Inglaterra (1620).

As lutas entre cavaleiros e touros também foram muito contestadas em Espanha. O Rei Filipe V considerou estes divertimentos como “bárbaros e cruéis” e um péssimo exemplo para o povo, pelo seu carácter grosseiro e pouco civilizado. Por isso, em 1724, embora não tenha proibido as corridas de touros no país vizinho, proibiu os nobres de as praticar.

Este facto é muito relevante, porque levou ao afastamento da figura do nobre cavaleiro e ao aparecimento do matador a pé nas arenas de Espanha já que os populares não dominavam os sistemas de equitação nem tinham posses para comprar e manter os cavalos.

A medida acabou por ser decisiva para o desenvolvimento das touradas atuais e para a sua evolução em Portugal porque, impedidos de tourear, os aristocratas espanhóis começaram a dedicar-se em exclusivo à seleção e criação de touros, desenvolvendo fortemente esta atividade, e como estavam impedidos de atuar em Espanha, atravessavam a fronteira para tourear em Portugal, contribuindo para o desenvolvimento do toureio a cavalo no nosso país.

O mesmo aconteceu em 1806, quando Carlos IV de Espanha proibiu as touradas no país vizinho, e os matadores de touros espanhóis vieram para Portugal atuar na antiga praça do Salitre em Lisboa.

Foi nesta altura que começaram a surgir as touradas atuais, com a lide de touros de raça brava nas arenas, criados unicamente para este fim. Foi o tempo das chamadas “touradas reais” promovidas com grande pompa em datas festivas pela corte. As touradas, que seriam mais tarde recuperadas na década de 50 do século XX.

Até lá, o êxito das touradas reais chocou de frente com a chegada da revolução liberal a Portugal.