As touradas em Portugal – Breve história de uma atividade polémica

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Sérgio Caetano

A realização de touradas nunca foi consensual na sociedade portuguesa e por quatro vezes estiveram proibidas no nosso país. A sua promoção ao longo dos últimos anos foi inconstante havendo registo de vários períodos em que praticamente deixaram de existir os combates com touros em Portugal, como após a Revolução Liberal ou após o 25 de Abril de 1974.

A promoção de touradas esteve sempre relacionada com a evolução da nossa sociedade e em particular no século XIX com as lutas entre liberais e absolutistas. Periodos como a implantação da República e a transição para a Democracia foram nefastos para as touradas que quase desapareceram em Portugal.

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“The Spanish Bullfight” – James Gillray. (Séc. XIX)

Inicialmente as lutas com touros consistiam em exercícios militares para aguçar a ferocidade dos combatentes e aperfeiçoar a sua perícia. Mais tarde com o surgimento da pólvora, a cavalaria perdeu a sua importância nos campos de batalha e os combates com touros e outros animais ‘ferozes’ ganharam um carácter lúdico mas igualmente violento, originando um grande número de vítimas mortais. A prática desta atividade esteve sempre reservada às classes mais privilegiadas da sociedade.

Os combates sangrentos como diversão foram sempre contestados pela igreja católica. O Papa Pio V chegou a proibir a sua realização em 1567, acabando desde logo com a realização de touradas em Itália. Em Portugal e Espanha a decisão do Papa foi desrespeitada, a Bula Papal foi ignorada e o seu conteúdo escondido ou adulterado, mas a Bula chegou a ser publicada em Portugal e as touradas proibidas pelo Cardeal D. Henrique.

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As corridas de touros não são um exclusivo da Peninsula Ibérica. Elas ocorreram um pouco por toda a Europa medieval. A maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de espetáculos sangrentos por volta do século XVI por se tratarem de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Atualmente as touradas são proibidas em diversas nações europeias como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra.

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Lutas com touros em Inglaterra (1620).

No século XVII, D. Pedro II (O Pacífico) foi um grande opositor deste divertimento e introduziu o “embolamento” dos touros, obrigando a que os animais usassem uma proteção nos cornos para evitar os derrames de sangue, e mortes, muito comuns nas arenas da época. A obrigação nem sempre era cumprida e no início do século XVIII as lutas eram feitas com intensa crueldade e sem qualquer compaixão com os animais que eram abatidos das mais variadas maneiras, utilizando-se não só o rojão, como as lanças, a espada, a meia-lua e até as ferozes matilhas de cães.

As lutas entre cavaleiros e touros ganharam forma em Portugal, após a ascenção ao trono do Rei Filipe V em Espanha, que considerava estes divertimentos como bárbaros e cruéis e um péssimo exemplo para o povo, pelo seu carácter grosseiro e pouco civilizado. Por isso, embora não tenha proibido as corridas de touros, proibiu os nobres de as praticar. Este facto levou ao afastamento da figura do nobre cavaleiro e ao aparecimento do matador a pé nas arenas de Espanha já que os populares não dominavam os sistemas de equitação nem tinham posses para comprar e manter os cavalos. Por outro lado, impedidos de tourear, os aristocratas espanhóis dedicaram-se em exclusivo à selecção e criação de touros, desenvolvendo fortemente esta actividade, e atravessaram a fronteira desenvolvendo o toureio a cavalo em Portugal. O mesmo aconteceu em 1806, quando Carlos IV de Espanha proibiu as touradas e os matadores espanhóis vieram para Portugal matar touros na praça do Salitre.

No século XIX as touradas voltaram a ser muito contestadas em Portugal e a 7 de junho de 1809 o Príncipe Regente D. João proíbe as touradas no Reino sem a sua autorização expressa “pelos seus notórios inconvenientes”, facto comunicado ao Intendente Geral da Polícia, Lucas Seabra da Silva que se referiu a elas nestes termos: “Os combates de touros sempre foram considerados como um divertimento impróprio de humana Nação civilizada”. A Intendência mantinha também uma opinião muito desfavorável às corridas de touros que não raras vezes degeneravam em actos de violência e perturbação da ordem pública. D. João VI, obrigou a que fosse concedida uma licença especial para a realização destes espectáculos. As licenças eram concedidas quase exclusivamente para corridas cuja receita revertesse para obras de caridade. É desta forma que começaram a abundar as chamadas “corridas de beneficência” já que era a única forma que os empresários tauromáquicos encontravam para que lhes fossem autorizadas as touradas.

Com a Revolução Liberal veio um dos períodos de maior contestação às touradas. Em 1821, fracassada uma tentativa de as abolir proposta por Borges Carneiro, foram proibidas as “touradas de morte” em Portugal, através da Portaria 2:700 de 6 de abril de 1821. As touradas foram abolidas por decreto em 1836 por iniciativa de Passos Manuel durante o reinado de D. Maria II. Por constituírem uma importante fonte de receita para a Casa Pia de Lisboa e para as Misericórdias, e por forte pressão destas duas entidades, as touradas foram novamente autorizadas mas apenas para fins benéficos. No entanto a determinação não foi respeitada e rapidamente se transformaram num evento comercial lucrativo para um pequeno grupo de empresários tauromáquicos, acompanhando e imitando a evolução que acontecia no país vizinho. Essa influência é evidenciada nos trajes, nas lides, no vocabulário e até na música que se ouve nas praças.

Foram várias as personalidades que ao longo da história contestaram a violência do espetáculo tauromáquico. Em Portugal a contestação foi intensa durante o século XIX e personificada em homens como Passos Manuel, Borges Carneiro, José Feliciano Castilho, António F. Castilho ou Silva Túlio.

Durante o Estado Novo, as touradas beneficiaram de grande impulso em Portugal

A evolução dos valores humanos e o surgimento de uma consciência social para o respeito pelos animais não-humanos colocou os combates com touros à margem da evolução civilizacional. A sua prática esteve sempre relacionada com setores mais conservadores da sociedade portuguesa e espanhola. Foi durante os regimes absolutistas que as touradas foram propagandeadas na Península Ibérica, com destaque para os reinados de Fernando VII (Espanha) e D. Miguel que em Portugal anulou a Constituição e lançou as sementes para o florescimento do negócio das touradas com o início da criação de touros nas lezírias do Tejo e a construção da nova Praça de touros do Campo Santana em Lisboa. Em Espanha Fernando VII encerrou diversas Universidades e em 1830 fundou a “Universidade Tauromáquica” em Sevilha.

Ribatejo

A partir de 1919 as touradas foram outra vez proibidas em Portugal com a entrada em vigor do Decreto nº 5650 de 10 de Maio que punia toda a violência exercida sobre animais com pena correccional de 5 a 40 dias em caso de reincidência, mas a partir de 1923 as touradas voltavam a ser propagandeadas durante o Estado Novo, inclusive com touros de morte, e em filmes como “Gado Bravo” (1934), “Severa” (1939), “Sol e Touros” (1949), “Ribatejo” (1949), Sangue Toureiro (1958) … Foi também durante a ditadura que se ergueram grande parte das praças de touros hoje existentes em Portugal: Beja (1947), Póvoa do Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Cascais (1963 – demolida em 2007), Santarém (1964), Coruche (1966),…

Durante o Estado Novo houve uma tentativa fracassada de reintroduzir as touradas de morte. O público português já não aceitava com bons olhos as cenas mais chocantes do espectáculo tauromáquico, nomeadamente a actuação dos picadores e o último tercio da corrida: a morte do touro, entretanto escondida em Portugal dos olhares do público. E nem o recurso a instituições de caridade parecia motivar o público a acudir às corridas. Este facto tornou-se evidente em Outubro de 1933 quando uma entusiasta afcionada da festa brava, alertava o “Sector 1” para a realização de uma corrida de touros de morte em Vila Nova de Gaia que poderia não ser muito bem aceite pelo público, e por isso pouco benéfica para a promoção da festa numa zona do país onde as touradas já despertavam uma acentuada repugnância por parte da população, que as erradicou depois de séculos de tradição: “Porque sou entusiasta da Festa Brava, lastimo que a campanha ‘Pró-Touros de Morte’ seja tão mal aproveitada e a Festa deturpada, mormente quando tal facto se dá numa terra onde a ‘afición’ não existe e onde se não compreende a beleza e emoção de tal espectáculo” . A tentativa de fazer regressar as touradas de morte foi amplamente contestada pela Liga Portuguesa de Proflaxia Social, a Sociedade Protectora dos Animais e até a Associação de Classe dos Empregados de Comércio. Apesar do lobbie tauromáquico possuir grande influência junto do poder político conservador, o Governo de Salazar não demonstrou grande simpatia pelas corridas de touros de morte, preferindo a estas, as antigas corridas de gala monárquicas. Prova disso foi a majestosa corrida de touros realizada no Campo Pequeno, à qual assistiram lado a lado na tribuna da praça lisboeta Salazar e Franco em 1949, durante a visita do “Generalíssimo” ditador espanhol a Portugal, com o Campo Pequeno (cerca de 40 anos depois do fm da monarquia) a recuar ao tempo das grandes touradas reais oferecidas ao povo pelo absolutismo .

Franco e Salazar no Campo Pequeno (Diário de Notícias, 24 de Outubro de 1949)
Dossier Movimento
Número de touradas em Portugal (fontes: IGAC/ANTP)

A “tourada portuguesa” é resultante de décadas de contestação e restrições que levaram ao modelo atual, suavizando a sua crueldade aos olhares do público. A “pega” dos forcados, por exemplo, surgiu já no século XX como a solução de recurso para substituir a “sorte de morte” no final da lide que simboliza o domínio do homem sobre o animal. A “pega” foi importada da “suerte de mancornar” que antigamente se realizava em terras espanholas.

A tendência natural das últimas décadas, nos países onde ainda subsistem as corridas de touros, tem sido claramente no sentido do aumento das restrições ao desenvolvimento desta atividade e a sua abolição, pela violência e risco associados, mas também e principalmente pelo sofrimento e maltrato a que são sujeitos os animais antes, durante e após o espetáculo. Portugal não foge à regra dos outros países onde a tradição se mantém, e as estatísticas indicam claramente que nos últimos anos o número de espetáculos tem vindo a diminuir em resultado de um menor apoio financeiro das autarquias, mas também pelo crescente desinteresse dos cidadãos portugueses pelas touradas.

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“Lutar com animaes bravos, maltrata-los e feri-los com traças ardilosas ou com destemida temeridade, mas por gosto e sem necessidade, é cousa repugnante e deplorável e que a moral não autoriza, e que muito doi a corações generosos. Semelhantes espectáculos não amenizam os instintos, nem levantam o nível moral de um povo, bem ao revez d’isto só servem para obdurar os ânimos, tolhendo os progressos da sua moralidade e empanando com uma nódoa os brilhos da actual civilização.”

Lisboa: Câmara dos Senhores Deputados, 5 de julho de 1869.
Joaquim Alves Matheus;
José de Aguilar;
Antonio Pereira da Silva;
Augusto da Cunha Eça e Costa;
João Carlos de Assis Pereira de Mello;
Fernando Augusto de Andrade Pimentel e Mello;
Henrique Barros Gomes;
António Joaquim da Veiga Barreira;
José Dionysio de Mello e Faro;
Barão da Ribeira de Pena;
Henrique de Macedo Pereira Continha;
Jose Augusto Correia de Barros;
Francisco Pinto Beata;
Luiz Vicente d’Affonseca;
Henrique Cabral de Noronha e Menezes;
Filippe José Vieira;
José Luiz Vieira de Sá Júnior;
Joaquim Nogueira Soares Vieira.

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