E quando acabarem as touradas?

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Viana do Castelo e Póvoa de Varzim deram o exemplo de evolução reconvertendo as praças de touros.

Autarquias deixaram de investir dinheiro nas touradas e reconverteram os velhos recintos em espaços culturais e desportivos para toda a população.

Ouvimos com frequência dizer que se as touradas acabassem, se colocava em causa toda uma economia, com grande impacto ao nível social além da extinção de uma espécie, o touro bravo.

Nos últimos anos, duas Câmaras Municipais – Viana do Castelo e Póvoa de Varzim – deram o exemplo demonstrando que isto não é verdade e as populações têm muito mais a ganhar com a reconversão desta atividade.

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As duas autarquias decidiram acabar com o apoio financeiro à realização de touradas e reconverter as velhas praças de touros em espaços multiusos, destinados a acolher atividades desportivas e culturais para usufruto de toda a população durante todo o ano.

Recorde-se que Viana do Castelo e a Póvoa de Varzim acolhiam em média, 2 touradas por ano, sendo que durante o resto do ano, as praças de touros destas duas cidades permaneciam encerradas, tal como acontece com a grande maioria destes recintos.

Desta forma, com a reconversão destes dois equipamentos, as duas cidades passam a dispor de um novo recinto multiusos sem tortura de animais, criando dezenas de novos postos de trabalho.

As velhas praças de touros destas duas cidades não geravam empregos, por estarem encerrada a maior parte dos dias do ano, além de representarem um encargo insustentável numa região sem qualquer ligação ao mundo da tauromaquia, uma vez que não existem na região grupos de forcados, toureiros ou criadores de touros.

O fim das touradas em Viana do Castelo e na Póvoa de Varzim não gerou nenhum drama social, nem se perdeu um único posto de trabalho. O mesmo se pode dizer de outras localidades, mesmo aquelas que se situam nas regiões do Alentejo ou Ribatejo, tendo em conta que as praças de touros em Portugal recebem em média, 2,5 touradas por ano. Praças de touros como as de Santarém, Vila Franca de Xira, Azambuja, Moita, Beja ou Montijo, não geram postos de trabalho fixos porque se encontram abandonadas quase todo o ano. Noutras localidades mais pequenas as praças de touros são praticamente o único equipamento existente, predominando a “monocultura” tauromáquica sem qualquer alternativa, mas são cada vez mais as praças de touros encerradas por todo o Alentejo, como por exemplo as praças de touros do Crato, Aljustrel, Alpalhão, Montalvão, Niza, Veiros (Estremoz), etc.

Não se extingue a “espécie” de touro bravo

Por outro lado é referido com insistência que o fim das touradas significa a extinção da espécie de touro bravo, porque estes animais não têm outra utilidade. Se isto fosse verdade, os criadores de touros não tinham classificado a carne de touro bravo como “Denominação de Origem Protegida – DOP“, mas importa esclarecer que, não só não existirá nenhum drama social, como não será extinta nenhuma espécie com o fim das touradas.

A suposta extinção do touro bravo é um dos maiores mitos e mentiras da indústria das touradas.

O touro bravo não é uma espécie biológica, é uma variedade bovina entre milhares que estão registadas. A “raça brava” ou “de lide” é apenas uma das muitas raças de bovinos existentes em Portugal. Na verdade, estes animais foram selecionados artificialmente para se obter um determinado comportamento e fisionomia. Ou seja, são uma produção humana e são animais domesticados, não são touros selvagens.

Todos os bovinos domésticos descendem do “Auroque”, bovino selvagem que chegava quase aos 2 metros de altura e que foi extinto no século XVII pela caça. A raça brava é uma criação dos ganadeiros, e a sua continuidade depende da vontade dos seus criadores.

Não existe a espécie “touro de lide”, mas sim uma raça de bovinos criados artificialmente pelos humanos. É possível abolir as touradas mantendo a criação desta raça para fins turísticos, como já fazem alguns criadores.

As touradas não geram postos de trabalho

Segundo os defensores desta anacrónica tradição, existem em Portugal milhares de pessoas que dependem desta atividade para sobreviver, alegando que a tauromaquia dinamiza as economias locais e gera muitos postos de trabalho.

Apesar desta alegação ser repetida de forma constante sempre que se debate este polémico tema, as evidências não corroboram estas afirmações. O mesmo aconteceu com outro argumento usado durante muitos anos e que alegava com toda a certeza que “as touradas são o espetáculo com mais público a seguir ao futebol”. Este argumento foi facilmente desmontado, consultando os dados estatísticos do Instituto Nacional de Estatistica (INE) onde se constata que, afinal, as touradas são dos espetáculos ao vivo com a mais baixa taxa de público em Portugal.

Já em relação à importância económica e social deste entretenimento, não existem dados que possam demonstrar a sua relevância, mas podemos aferir a sua importância através dos dados disponibilizados pelo INE e pela própria IGAC: Inspeção Geral das Atividades Culturais.

Pegando nas receitas financeiras das touradas da temporada de 2018 divulgadas pelo INE (receita de 4.552.958€) e confrontando esse valor com os dados do Banco de Portugal, verificamos que as touradas contribuem com 0,000007% para a riqueza económica do nosso país.

Artistas tauromáquicos não vivem exclusivamente da atividade.

Em relação aos artistas tauromáquicos, como sabemos, a esmagadora maioria são elementos de grupos de forcados, na ordem das centenas, sem que exista um registo rigoroso sobre o número total de elementos inscritos na IGAC. No entanto, os forcados são amadores, pelo que não vivem desta atividade.

Em relação às restantes categorias (cavaleiros, bandarilheiros, matadores, novilheiros, etc.) a esmagadora maioria dedica-se a outras profissões e atividades principais na medida em que o número médio de espetáculos realizados anualmente, não lhes permite viver exclusivamente do toureio.

Em 2018 o cavaleiro Francisco Palha admitiu numa entrevista à MAAG que “Penso que hoje em dia, praticamente todos os toureiros têm de ter uma vida paralela. Tourear é muito dispendioso. Não se pode viver só disso“.

Em Portugal, na temporada de 2021 apenas 1 cavaleiro tauromáquico conseguiu realizar mais de 20 espetáculos. Foi Luís Rouxinol com 27 atuações. Seguem-se 9 cavaleiros entre 13 e 18 atuações. No toureio a pé nenhum artistas conseguiu mais de 7 atuações nesse ano e apenas os bandarilheiros apresentam número significativo de atuações (acima das 25). Segundo os dados da IGAC, foram 10 os bandarilheiros nessa condição.

Tendo em conta estes números é seguro afirmar que é cada vez mais difícil – senão impossível – viver exclusivamente do toureio, situação agravada com a redução significativa do vencimento dos artistas, muito longe dos tempos áureos da tauromaquia.

Esta situação já se arrasta há vários anos e basta atentar nas palavras do cavaleiro Luís Rouxinol em 2012, quando afirmou numa entrevista a um blog tauromáquico que “neste momento, e mesmo para uma primeira figura, é difícil viver só dos toiros… E quem disser o contrário, digo-lhe já que não é verdade!”. Estas palavras foram proferidas pelo cavaleiro tauromáquico com o maior número de atuações nesse ano e só demonstram que atualmente nenhum artista tauromáquico consegue fazer desta atividade o seu meio de subsistência.

Existem outras afirmações à imprensa tauromáquica que indicam que, alguns toureiros pagam para tourear.

Empresários tauromáquicos são menos de 1 dezena.

Em relação aos empresários tauromáquicos, serão os que mais beneficiam financeiramente desta atividade, mas o seu número é quase insignificante, como demonstram as estatísticas da IGAC. Em 2021, apenas 3 empresas tauromáquicas conseguiram realizar mais de 10 espetáculos em todo o país. O setor é representando pela APET – Associação Portuguesa de Empresários Tauromáquicos.

O maior promotor de espetáculos tauromáquicos em Portugal, era a empresa “Toiro da Sesmarias” em Albufeira. Esta empresa tauromáquica era a que mais touradas promovia anualmente, mas não conseguiu resistir, fechando a atividade no ano de 2021.

São cada vez mais os empresários que abandonam a atividade e aqueles que declaram publicamente que tencionam fazê-lo.

Os criadores de touros assumem que criação não é rentável.

Por sua vez, os ganadeiros são cerca de uma centena em Portugal, mas a maioria admite que o negócio deixou de ser rentável. A criação de touros de lide só continua a existir na Península Ibérica porque é financiada com fundos da Política Agrícola Comum (PAC), sendo que o valor dos subsídios ascende aos 200 milhões de euros em Espanha (de acordo com a própria Unión de Criadores de Toros de Lidia) o que significa que em Portugal os ganadeiros recebem cerca de 15 milhões de euros por ano da PAC, tendo em conta o número de efetivos existentes nas nossas ganadarias.

Não podemos ignorar que os chamados festejos populares, nomeadamente as “largadas de touros” continuam a mobilizar um grande número de pessoas em algumas localidades, gerando importantes receitas para o comércio local. Mas é importante ter em conta que estes festejos também geram relevantes danos patrimoniais e, por vezes, mortes, além de não existir legislação que regulamente a sua realização.

O fim da atividade tauromáquica deve ser acompanhada de um programa de investimento na reconversão das praças de touros em espaços multiusos destinados à prática desportiva e à cultura, seguindo os exemplos de Viana do Castelo e da Povoa de Varzim, criando uma alternativa saudável e diversificada além de garantir a criação de novos postos de trabalho.

Tendo em conta o cenário atual, a abolição das touradas é um cenário inevitável e cabe aos seus intervenientes acompanhar a evolução civilizacional, mostrando abertura para fazer esta reconversão, que se pode estender às ganadarias onde são criados os touros de lide, através do fomento do turismo de natureza.

Fontes:

  • Inspeção Geral das Atividades Culturais
  • Instituto Nacional de Estatística
  • Banco de Portugal
Praça de touros Albufeira
A antiga praça de touros de Albufeira vai ser transformada num novo empreendimento. A arena, onde se torturavam animais, vai dar lugar a um jardim.
Touradas realizadas em Portugal

Estatísticas das touradas em Portugal

“É, quanto a mim, o gosto mais depravado e aviltante que se pode imaginar, e que custará acreditar às gerações futuras, quando tenha passado esta deplorável paixão; como hoje custa a acreditar a bárbara satisfação que tinha o povo romano nas lutas dos gladiadores, e em ver dilacerar seres humanos pelas feras”.

Nogueira da Silva “Viagens em Espanha” em meados do século XIX.