A República e as touradas

A República e as touradas
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Sérgio Caetano, Jornalista

A implantação da República em Portugal constituiu um sério revés na expansão do negócio tauromáquico rompendo com a promoção da festa efectuada pelos últimos monarcas (D. Carlos e D. Manuel II). As questões económicas fizeram prevalecer as touradas no nosso país apesar do período hostil para o sector.

Em 1910 já estavam perfeitamente montadas as estruturas do negócio (empresários, ganaderos e toureiros profissionais) que se mostrava ser bastante rentável na época. No entanto, no início do século XX, a tourada não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas depois do 5 de Outubro de 1910. Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram: “Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da ‘Costa do Sol’”1

A implantação da República e a tentativa de fazer nascer um Portugal novo que fosse ao encontro da civilização europeia foi devastador para os conservadores empresários tauromáquicos: “As circunstâncias em que surgia a República, saída de um movimento revolucionário, estabelecia um ambiente em que toda a hostilidade parecia de menos contra os antigos hábitos e as velhas tradições. Verificava-se como que a necessidade de estabelecer uma sociedade nova, assente em velhos hábitos, e o toureio, como expressão fidalga e tradicional seria atingido da forma mais incisiva”2. O momento inspirou de imediato a apresentação de novas iniciativas para abolir o espectáculo. Fernão Bôtto Machado propôs à Assembleia Nacional Constituinte a proibição das touradas, num projecto de lei apresentado em 11 de Agosto de 1911 e que contou com o apoio da Sociedade Protectora dos Animais. “Esse cruel e perigoso sport só é defendido nos nossos dias, ou por interesses de exploração ou por aficionados del redondel, mas sem fundamentos que o justifiquem e sem sequer razões que o desculpem.”3

A atribulada 1ª República não conseguiu erradicar este divertimento do nosso país, provavelmente porque na primeira metade do século XX ele se tornou muito pouco expressivo nos anos que se seguiram, mas a relação próxima entre a monarquia e a tauromaquia revelava-se ainda nas arenas dez anos depois da proclamação da República. Exemplo disso mesmo é o caso do cavaleiro José Casimiro, fortemente hostilizado pela população devido à propaganda monárquica que fazia durante as suas actuações como toureiro, ao ponto de ser impedido de tourear em Lisboa.

Entre 1910 e 1926 registaram-se várias intervenções tanto na Assembleia Nacional Constituinte de 1911, como na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso, de repúdio e oposição às touradas sendo praticamente nulas as intervenções em sua defesa. É certo no entanto que alguns deputados simpatizavam e até assistiam às corridas, mas a sua defesa durante este período era feita de forma silenciosa.

A indústria tauromáquica só conseguiu restabelecer-se anos mais tarde, durante o Estado Novo, altura em que a tauromaquia serviu de inspiração para a propaganda nacionalista. Foi ainda neste período que se construíram grande parte das praças de touros ainda hoje em actividade em Portugal, e que são exemplos as praças de Beja (1947), Póvoa de Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Santarém (1964) e Coruche (1966).

Bibliografia:
1. Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970. Pág. 46.
2. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951. Pág. 170.
3. Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911. Pág. 3.
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Liberdade não rima com tourada

Liberdade não rima com tourada
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Vista geral do público aguardando início de uma tourada em Moçambique em Setembro de 1937, realizada no âmbito do programa da exposição agrícola.

Nos últimos anos “Liberdade” e “touradas” têm andado juntas na boca dos responsáveis pela industria tauromáquica.

Mas “Liberdade” e “touradas” são duas palavras que não combinam. Desde logo pelo óbvio: porque a liberdade é negada ao principal interveniente na tourada, o touro, muitas horas antes de se dar início ao espetáculo. Em algumas praças de touros as barreiras que cercam a arena foram até aumentadas para garantir a “liberdade” de cravar afiadas farpas num animal encurralado ao qual não é dada possibilidade de fuga de um destino que é certo: a morte.

Este aspeto não foi ignorado pelos nossos decisores políticos que se viram “obrigados” a criar exceções na legislação para permitir que nos nossos tempos, milhares de animais possam ser agredidos em público nas tradicionais touradas. Desde esse momento que a tourada se viu confinada a um canto escuro à margem da evolução da nossa sociedade.

Mas a tauromaquia esteve sempre muito relacionada com correntes ideológicas conservadoras e absolutistas. Mais tarde, a indústria taurina desenvolveu-se dentro de uma classe burguesa tradicionalista e marialva, que alcançou benefícios no período do Estado Novo para cimentar as fundações de uma atividade fora do seu tempo.

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Touro ferido na arena do Campo Pequeno em Lisboa.

Do ponto de vista político, basta recuar até 1974 para perceber que a “Liberdade” nunca rimou com “tourada”. O fim da ditadura em Portugal fez ruir a conservadora industria tauromáquica que precisou de alguns anos para se restabelecer e encontrar espaço na democracia portuguesa. Com a revolução de 1974, a tauromaquia passou mais uma vez do estado de graça para uma situação onde tudo lhe era desfavorável, apesar de se manter a atração pelos touros em algumas regiões do Ribatejo e Alentejo. A tauromaquia, nos primeiros momentos após o 25 de abril, surgiu associada à “reação”, e o argumento da tradição não serviu para justificar a continuação do negócio de exploração de um espetáculo conotado com a fidalguia, o absolutismo monárquico e a ditadura fascista do Estado Novo.

“(…) depois do tal dia em que tantas garrafas de espumoso viram saltar a rolha, neste bem aventurado país toda a gente se pôs a armar em progressista, ninguém se confessa das direitas, a custo aparece um ou outro a proclamar-se do centro, a admitir que tem um primo forcado, ou um bisavô que foi marialva latifundiário.”

“Touros e reacção: Crónicas taurinas da temporada de 1974”. Lisboa: D. L. Petrony, 1975

Estas palavras foram publicadas logo em 1975 no livro “Touros e Reação – crónicas taurinas da temporada de 1974”, e demonstram o clima de pressão que era exercido sobre os mais notáveis e influentes aficionados das touradas no ativo em Portugal.

A tourada deixou de ter na sociedade portuguesa a visibilidade que conseguiu alcançar durante a ditadura do Estado Novo. Alguns toureiros viram-se obrigados a procurar fama nas arenas espanholas e mexicanas, os empresários tauromáquicos deitaram contas à vida, assim como os criadores de touros que com a redução do numero de corridas apostaram na exportação dos touros para outras paragens. As estatísticas da época indicam que o número de touros de lide exportados quase duplicou em 1974, devido à falta de mercado em Portugal.

Touros de lide exportados em Portugal (Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses)
Touros de lide exportados em Portugal (Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses, 1975)

 Os grandes latifundiários do Ribatejo e Alentejo, onde se localizavam as grandes herdades de criação de touros e cavalos, viram-se igualmente ameaçados pelos camponeses revoltados com a sua situação miserável, mas também com a ocupação de propriedades, através da Lei da Reforma Agrária. A este propósito é sugestiva a intervenção do deputados Casimiro dos Santos (PS) na Assembleia Constituinte, em fevereiro de 1976, reagindo às preocupações demonstradas por alguns partidos de direita, pelas ocupações consideradas ilegais e ilegítimas de propriedades agrícolas. “(…) Como não podia deixar de ser, a acompanhar o PPD e o CDS aparece também o PPM, com os seus condes, duques, toureiros e ‘ganaderos’, saudosos das grandes coutadas e das touradas à antiga portuguesa”.

Logo nos primórdios da Revolução as elites do negócio tauromáquico apareciam “encostadas” aos partidos mais à direita, conservadores e monárquicos. A associação da tauromaquia à “reação” ganhou forma logo após a Revolução. Em 26 de setembro de 1974 uma tourada no Campo Pequeno a favor da Liga dos Combatentes, transformou-se num comício de preparação para a manifestação da chamada “maioria silenciosa” de apoio a António de Spínola, ficando a tourada celebrizada como uma tentativa de “contra-revolução” e de repúdio ao programa do Movimento das Forças Armadas. “Viva Spínola”, “Viva o Ultramar”, “Viva a GNR” e “Abaixo o MFA” foram algumas palavras de ordem gritadas nos altifalantes da praça de touros do Campo Pequeno. O próprio toureiro José João Zoio exibiu-se na arena com um dos célebres cartazes verdes da “reação” espalhados pelo país convocando os espectadores para a manifestação da “maioria silenciosa”. Dentro da praça de touros, a corrida foi várias vezes interrompida por manifestações de apoio a Spínola enquanto cá fora, à porta da praça de touros, se gritava “abaixo a reação” e “o fascismo não passará”.

28Setembro 1974 bastaO país vivia um período bastante inquieto de transição para a democracia, com toda a agitação política, a descolonização, eleições, etc…. Os defensores da festa brava tiveram que se organizar e reagir rapidamente à ameaça evidente que o período político representava. O Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses decidiu criar uma “Secção de Controle e Defesa do Toiro e do Cavalo” através da qual faz publicar a “Síntese do valor Económico e Social da Raça Bovina Brava” onde procurou demonstrar, em 1975, a importância do negócio tauromáquico, não só ao nível económico mas também turístico e de solidariedade pela fonte de receita que representava para instituições como asilos e hospitais. “Cuidamos que na pressa justificada de se recuperar tempos e valores perdidos, de se acudir a tudo e a todos, a potencialidade económica que acabamos de denunciar, não fique sem a atenção prioritária que se terá de conceder a quanto, esta Revolução, possa constituir factor importante ou vital de recuperação”. O Sindicato dos Toureiros, neste autêntico manifesto de propaganda tauromáquica, tentou recuperar a ideia, defendida pelo Estado Novo, que as touradas deviam constituir um cartaz turístico por ser um espetáculo diferente de todos os outros “Sem que queiramos ser apaixonados, pensamos que na confeção da nossa ‘ementa’, a corrida de toiros é, indiscutivelmente, um prato forte; forte e caro, que o estrangeiro paga sem discutir”. Apesar das contrariedades na agitada temporada de 1974, continuaram a realizar-se corridas de touros no Campo Pequeno e em Cascais, além de outras localidades do Ribatejo e Alentejo como, Coruche, Vila Viçosa, Barrancos e Moura mas sem que alguma vez o espetáculo se tenha tornado um cartaz turístico forte do nosso país.

Já alguns anos antes, o processo de implantação da República em 1910, foi igualmente nefasto para o negócio das touradas. A tourada, não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica, associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas. Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram.

Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da Costa do Sol”

Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970.

Invocar a Liberdade para procurar legitimar as touradas é negar a história e a natural evolução para uma sociedade mais justa, consciente e tolerante.

Combinar Liberdade com violência, sangue, sofrimento e morte é por isso depreciar um valor que para nós portugueses tem tanto significado e que associamos a fraternidade, amizade, tolerância e paz. Incutir nas gerações mais jovens que o valor da liberdade pode justificar a prática de atos de crueldade com os animais é insensato e contrário aos princípios de respeito e compaixão pelos animais que a nossa sociedade procura estabelecer junto das crianças.

Liberdade nunca rimou com touradas.

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Bibliografia:

  • Solilóquio, pseud. “Touros e reação: Crónicas taurinas da temporada de 1974”. Lisboa : Depos. Livr. Petrony, 1975.
  • Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses. “Síntese do valor económico e social da raça bovina brava”. Lisboa : Sind. Nac. dos Toureiros Portugueses, [D.L. 1975].
  • Diário da Assembleia Constituinte nº 112. Sessão nº111 de 11 de Fevereiro de 1976.
  • “Morte ao fascismo o povo vencerá”. Diário de Lisboa (27 de Setembro de 1974).
  • Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970.
  • Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
  • Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911.

 

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