Respeitem a evolução e deixem-nos em paz.

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Setor tauromáquico não se conforma nem respeita a evolução civilizacional e organiza tourada para tentar impor tradição na região norte.

Dezenas de cidades na região norte abdicaram das touradas nas últimas décadas.

Impor uma tradição que não reúne consenso é arrogante e uma total falta de respeito pelos animais e pela evolução da sociedade

Mais uma vez o setor tauromáquico, num ato de pura provocação, tenta impor a tradição tauromáquica na região norte do país, sem a concordância da população e sem sequer respeitar a autoridade administrativa das Câmaras Municipais.

Sentindo-se protegidos por uma lei que exceciona as touradas da defesa e proteção do bem estar animal, decidiram desta vez, realizar uma tourada em Vila do Conde, onde não existe nenhuma praça de touros nem qualquer tipo de tradição de “lidar touros”, situação que foi prontamente repudiada pela sociedade e pelo Presidente da Câmara que nem sequer foi contactado pelos promotores do espetáculo.

Praça de touros de Matosinhos
Praça de touros em Matosinhos (1929)

O encerramento das praças de touros de Viana do Castelo e da Póvoa do Varzim, marcou o fim da tradição das touradas no Norte, onde chegaram a existir dezenas de praças de touros, mas a evolução em matéria de proteção animal, tratou de as erradicar.

As touradas já tinham sido banidas da cidade do Porto com a implantação da República, altura em que as várias praças existentes na invicta e em Vila Nova de Gaia foram demolidas e algumas até queimadas por estarem associadas à monarquia e a um Portugal atrasado e conservador. A última tentativa de promover touradas no Porto foi em 1993 numa praça de touros junto ao “Lima 5”, o que motivou uma hostil manifestação de repúdio da população da cidade e até da imprensa local, de tal forma que os promotores e toureiros garantiram que nunca mais voltariam à Invicta.

Há muito que a população do Porto se insurgia contra as touradas. Já no século XIX, mais precisamente a 14 de fevereiro de 1874, foi apresentada à Câmara dos Deputados em Lisboa, uma representação contra as touradas assinada por 2.000 portuenses, naquela que terá sido a primeira petição contra as touradas em Portugal.

Mesmo ao lado, em Matosinhos, a história não foi muito diferente, embora as touradas tenham persistido mais algum tempo. No entanto, as touradas nunca tiveram grande sucesso naquele município, como ser percebe nas palavras de Guilherme Felgueiras, na sua obra “Monografia de Matosinhos” publicada em 1958, onde o autor referia que a vila de Matosinhos, decididamente, não manifestou nunca grande predileção pela ‘festa brava’, daí terem fracassado persistentes tentativas para a dotar com uma praça de touros”. As touradas em Matosinhos eram promovidas em praças de madeira que acabaram por desaparecer sem deixar qualquer rasto.

Praça de touros de Espinho (1941) construída em madeira.
Praça de touros de Espinho (1941)

Outras localidades abdicaram das touradas nas últimas décadas, como foi o caso de Espinho, onde a última tourada na praça de touros local, ocorreu nos anos 80. A praça de betão substituiu uma outra de madeira inaugurada em 1941. A praça fixa foi inaugurada em 1972, pelo que não durou mais de uma década.

Outro exemplo é a cidade de Guimarães, onde as touradas foram eliminadas do programa das festas Gualterianas em 2009. Na altura a Câmara Municipal realizou uma conferência de imprensa explicando que a decisão estava relacionada com a evolução civilizacional, nomeadamente o respeito pelos animais, e a pressão da população vimaranenese para que as touradas fossem erradicadas das festas.

Entretanto foram também desaparecendo as touradas em praças desmontáveis que se realizavam regularmente em Aveiro (na Feira da Agricultura), Oliveira do Douro (junto à Salvador Caetano), em Barcelos, Marco de Canaveses, entre outras.

É mais do que evidente que a atividade tauromáquica não está em expansão na região norte e que, os poucos espetáculos que se realizaram nos últimos anos, se alimentavam do público emigrante e de pessoas que se deslocavam da região do vale do Tejo, algumas delas em autocarros disponibilizados pelas autarquias daquela região.

A evolução dos valores e princípios da sociedade, levou ao declínio das touradas na região norte do país, onde, nunca existiram verdadeiras raízes para esta tradição. Não existem grupos de forcados, nem criadores de touros, toureiros e – com o encerramento da praça da Póvoa de Varzim – não existem praças de touros fixas em funcionamento.

As tentativas de imposição pela força de uma tradição violenta e cruel, que não reúne consenso e que a população da região norte decidiu colocar de parte pela sua crueldade com os animais, mesmo que amparada por uma lei que a exceciona, não deixa de ser um profundo desrespeito pela evolução natural destas sociedades e uma atitude arrogante de quem se acha acima de tudo e de todos, só porque se montam em cavalos, trajados de fatos burgueses e armados com bandarilhas.

Deixem-nos em paz. Deixem os animais em paz.

Capa do Primeiro de Janeiro sobre tourada no Porto
Manchete do Jornal “O Primeiro de Janeiro” em 1993, a propósito da última tourada no Porto.