Perguntas frequentes

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Existem muitos mitos associados às touradas, por isso apresentamos a resposta para algumas perguntas frequentes nos debates sobre este polémico assunto.

Tudo o que precisa de saber sobre as touradas e o que está escondido dos olhares do público.

Atenção: Algumas imagens podem ferir a susceptibilidade dos leitores.

A ciência diz-nos que sim, que os animais sofrem muito nas touradas, antes, durante e após os espetáculos. No caso dos touros, os animais são sujeitos a intenso stress quando são afastados da sua manada, colocados em camiões e transportados para a praça de touros. Aí são descarregados para os curros, onde são “embolados”, ou seja, são imobilizados e os seus cornos são serrados pelo embolador que lhes coloca as “embolas”1.

Durante o espectáculo, os touros sofrem diversas agressões com bandarilhas de vários tipos: “ferros compridos”, com arpões até 4 cm de comprimento e 2 cm de largura e ferro até 140 cm, “ferros curtos” e “ferros de palmo”, com ferro de 90 cm e 35 cm de comprimento, respetivamente, enfeitados com papel de seda de variadas cores e rematados com um ferro até 8 cm de comprimento com um ou dois arpões até 4 cm de comprimento e 2 cm de largura. Estas armas letais, penetram a pele e músculos dos animais, provocam ferimentos consideráveis.

A lide com o capote, tem por função cansar o animal e aumentar o grau de lesão dos “ferros”, uma vez que os “passes de capote” fazem o animal rodar a cabeça, rasgando ainda mais os músculos para que o touro baixe a cabeça, permitindo assim a realização da “pega” no final da lide.

Além disso estes animais estão habituados à pastar em manada, e não estão preparados para o intenso esforço físico e a sobrecarga de estimulação a que são sujeitos na arena. Ao fim de poucos minutos, o desgaste físico é perfeitamente visível nos animais, que além de sangrarem também se urinam descontroladamente.

1 Protecção de couro e ferro que protege os artistas e cavalos das investidas do animal.

 

Muitas vezes esquecidos, os cavalos são outra das vítimas das touradas, sendo forçados a enfrentar o touro na arena, servindo de “escudo” aos cavaleiros tauromáquicos que, sendo necessariamente muito bons cavaleiros, não correm grande perigo. Já os cavalos sofrem lesões, muitas vezes visíveis no dorso dos animais, devido à utilização de esporas que provocam ferimentos na zona lombar. O Regulamento do Espectáculo Tauromáquico não se refere aos cavalos, apesar de serem um dos principais intervenientes na “tourada à portuguesa“, por isso não existem regras para proteger o bem-estar destes animais. Alguns cavaleiros utilizam serretas2 e outros utensílios cruéis que aumentam o grau de lesão nestes animais. Não existem regras para o alojamento destes animais antes e depois da sua participação nas touradas e há registo de muitos casos de cavalos que morrem durante ou após as corridas.

2 Instrumento em forma de arco com picos colocado no nariz dos cavalos.

Não é totalmente verdade que os animais utilizados nas touradas tenham assistência veterinária. Em cada espectáculo tauromáquico é obrigatória a presença de um Diretor de Corrida e um Médico Veterinário, que fazem parte do corpo de Delegados Técnicos Tauromáquicos designados pela IGAC. O Veterinário deveria inspeccionar os touros antes do espectáculo e tem por obrigação garantir que são cumpridas algumas regras de bem-estar animal. Muitas vezes entram na arena touros lesionados ou com problemas de visão, o que indica que não foram devidamente inspecionados. Durante a tourada, o Médico Veterinário está sentado ao lado do Diretor de Corrida nas bancadas, mantendo-se no seu lugar até ao final do espetáculo. Não intervem na recolha dos animais da arena, nem durante o processo de retirada das bandarilhas. Ao arrepio do Regulamento e da mais elementar deontologia médico-veterinária, é uma vergonhosa “figura de corpo presente”.

No final da “lide” (depois de cravados um número indeterminado de bandarilhas) os touros são recolhidos aos curros da praça. Nas praças de touros fixas, a recolha é feita com o auxílio de vacas que conduzem o animal para a saída. Nas praças portáteis, é necessário laçar uma corda na cabeça do animal, que é puxado no exterior por um tractor (ou outro veículo) arrastando o touro até ao interior dos curros ou, geralmente, logo para o camião de transporte. As bandarilhas são arrancadas pelo embolador ou por qualquer colaborador, ainda durante a corrida de touros, sendo necessário cortar a carne do touro com uma navalha para que se consiga puxar a bandarilha e arranca-la do dorso do animal. Muitas vezes os ferros são retirados por um indivíduo que se deita no topo do camião de transporte e simplesmente os arranca do dorso do touro com puxões. Os animais são mantidos vivos no veículo de transporte, num compartimento fechado, sem espaço para se mexer ou deitar, sem água nem alimento. Os animais são, desta forma, transportados para o matadouro, devendo ser abatidos no prazo máximo de 5 horas. Em alguns casos, muito raros, alguns animais são poupados ao sacrifício e são escolhidos para voltar à ganadaria de origem para reprodução, mas a esmagadora maioria dos touros tem por destino o matadouro para entrar na cadeia alimentar. Alguns morrem durante o transporte, antes de chegar ao matadouro.

Não. O ponto alto do negócio tauromáquico foi nos anos 80. Atualmente já existem cavaleiros e grupos de forcados que pagam para participar em touradas, e vários “agentes” da festa brava admitem publicamente que apenas se dedicam a este negócio por “paixão” porque ele não gera lucro. Se as touradas fossem um negócio muito lucrativo não precisavam do apoio e dos subsídios atribuídos pela Câmaras Municipais que, em alguns casos, compram milhares de bilhetes para oferecer à população, como forma de garantir a presença de público nas praças e a viabilidade do espectáculo.

O número de pessoas que têm nas touradas a sua ocupação principal é insignificante, se é que alguém vive exclusivamente desta atividade em Portugal. Os artistas têm outras atividades profissionais, dedicando-se ao toureio apenas por paixão razões emocionais. Alguns cavaleiros tauromáquicos e grupos de forcados admitem publicamente que pagam para tourear. Os criadores de touros não têm rendimento suficiente para sobreviver e a criação de gado bravo não é a sua produção principal. Os maiorais e campinos dedicam-se a outro tipo de atividades nas explorações pecuárias e não, exclusivamente, aos touros. Os forcados são amadores e têm outras atividades profissionais. Os empresários tauromáquicos não organizam corridas suficientes para conseguir viver exclusivamente das touradas. Os emboladores serão os mais afetados, mas o seu número é cada vez mais reduzido em Portugal. Os recentes casos de Viana do Castelo e Póvoa de Varzim, que baniram as touradas do seu território, são o exemplo claro de que as touradas não geram emprego. O fim das touradas nestes dois concelhos não extinguiu um único posto de trabalho, e a requalificação das praças de touros (que só abriam duas vezes por ano para receber touradas) vai criar dezenas de postos de trabalho nestas cidades.

Esse é um dos maiores mitos e mentiras da indústria das touradas. O touro bravo não é uma espécie biológica, é uma variedade entre milhares que estão registadas. A “raça brava” ou “de lide” é apenas uma das muitas raças de bovinos existentes em Portugal. Na verdade, estes animais foram seleccionados artificialmente para se obter um determinado comportamento e fisionomia. Ou seja, são uma produção humana e são animais domesticados, não são touros selvagens. Todos os bovinos domésticos descendem do “Auroque”, bovino selvagen que chegava quase aos 2 metros de altura e que foi extinto no século XVII. A raça brava é uma criação dos ganadeiros, e a sua continuidade depende da vontade dos seus criadores. É possível abolir as touradas mantendo a criação desta raça para fins turísticos, como já fazem alguns criadores.

As touradas desenvolveram-se a partir das lutas com animais bravos e selvagens que foram muito populares em toda a Europa durante a Idade Média e até aos séculos XVII e XVIII. As touradas derivam das lutas que serviam de treino aos cavaleiros, que caíram em desuso com o surgimento da pólvora e evoluíram para uma “luta artística” que se foi transformando num negócio. As lutas com touros ocorreram um pouco por toda a Europa medieval. A maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de divertimentos sangrentos por volta do século XVI por se tratar de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Atualmente as touradas são proibidas em diversas nações europeias como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra, onde já existiram. O Iluminismo encarregou-se de banir este tipo de espetáculos da Europa. A existência de touradas em Portugal e Espanha é a triste demonstração de que esta corrente progressista teve pouca expressão na Península Ibérica. Existem também touradas em algumas cidades do sul de França, por influência espanhola.

A explicação é simples. Numa altura em que o espectáculo tauromáquico ainda se estava a desenvolver (século XVIII), para se transformar no que é hoje, o Rei Filipe V de Espanha, que considerava estes divertimentos como “bárbaros e cruéis” e um péssimo exemplo para o povo pelo seu caráter grosseiro e pouco civilizado, proibiu os nobres de as praticar. Este facto levou ao afastamento da figura do nobre cavaleiro e ao aparecimento do matador a pé nas arenas de Espanha. Impedidos de tourear no país vizinho, os aristocratas espanhóis dedicaram-se em exclusivo à selecção e criação de touros, desenvolvendo fortemente esta actividade, e atravessaram a fronteira desenvolvendo o toureio a cavalo em Portugal. O mesmo aconteceu em 1806, quando Carlos IV de Espanha proibiu as touradas e os matadores espanhóis vieram para Portugal matar touros na praça do Salitre (antiga praça de touros de Lisboa).

Não. Os forcados, antes de intervir no espectáculo, faziam a guarda ao rei nas touradas reais. Mais tarde, com a proibição da morte do touro na arena, era necessário encontrar uma forma de terminar a lide dominando a “fera”. Foi aí que se inventou a “pega” para simbolizar o domínio do homem sobre a “besta” no final da lide. Ao contrário do que a generalidade das pessoas pensa, a “pega” de touros surgiu em Espanha onde tinha o nome de “suerte de mancornar“. Foi uma prática popular no país vizinho no século XIX, mas que acabou por cair em desuso.

Não. Muitos portugueses, por não terem qualquer ligação com a tradição tauromáquica são indiferentes ao tema. Dados recentes demonstram que a maioria dos portugueses não gostam de touradas. Uma sondagem da Universidade Católica realizada em Lisboa em 2018, revelou que:

  • 89% da população nunca assistiu a touradas no Campo Pequeno desde a sua reabertura;
  • 75% da população não concorda com a utilização de fundos públicos para financiar as touradas;
  • 69% não concorda com a promoção de touradas em Lisboa pela Casa Pia;
  • 96% Concorda com a realização de outro tipo de espetáculos (que não touradas) na praça de Lisboa.

Existe uma sondagem realizada pela Eurosondagem em 2011 que, supostamente, diz que muitos portugueses são a favor das touradas, no entanto, a sondagem não é muito clara. É importante esclarecer que a referida sondagem se refere a “actividades com toiros” tendo sido respondida na sua maioria por pessoas favoráveis à questão tauromáquica. Os que se opõe foram excluídos na primeira pergunta.

Sim. As touradas estão a perder cada vez mais terreno em Portugal. É evidente o decréscimo de espectadores que assistem a touradas nos últimos 10 anos. As próprias estimativas da IGAC (que, escandalosamente, confia nos números enviados pelos próprios aficionados) indicam que as touradas perderam quase 50% do público entre 2008 e 2018 (698.142 espectadores em 2008 e 379.000 em 2018) e atingiram o recorde mínimo de touradas realizadas em Portugal no ano de 2018 (173 touradas). O declínio da tauromaquia é o reflexo de uma sociedade onde ganha cada vez mais importância o respeito e a afinidade pelos animais, valores que são acompanhados de medidas legislativas que colocam a tauromaquia num plano cada vez mais marginal à evolução civilizacional.

 

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