Publicado na Revista Universal Lisbonense em 15 de setembro de 1842.
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O povo, tem-se-nos dicto, que é uma criança com muita força; nunca porém ouvimos que fosse uma criança teimosa; e nem por seus actos, e comportamento tal qualidade se-lhe-descobriu nunca. Por que rasão pois se-lhe-achará ella hoje, como a mim me-parece, que lh’a-acho?…
A rasão não ha-de ficar por saber.
Há muitos annos que não ha um de tantas festas, e corridas de toiros em Portugal, como este; e em épocha nenhuma foi a barbaridade d’este divertimento gentilico mais stigmatisada, do que o-tem sido na actual!!
Está o povo feliz?… Vive farto, e contente? São as festas d’arraial e as corridas de toiros provas d’isso? Não: a imprensa, a tribuna, a chuva de leis, o estado do reino, tudo responde – que não.
É o povo mau? exercita-se d’ess’arte para a maldade? São essas as suas escollas para desaproveitar-se?…
Corridas de toiros houve nos tempos antigos, e desde o Nilo, até ao Téjo: frequentíssimas foram as festas d’arraial nos séculos, e na vida de nossos maiores; e ninguém antepõe a felicidade d’hoje á felicidade d’algum dia; e a história responde portanto a favor do povo.
Então é o povo teimoso por accinte. Ralharam com elle por brincar com toiros; reprehenderam-no; mostraram-lhe a maldade, e perniciosidade do briquêdo; e o povo por isso mesmo, e para mostrar que tem força brincou, e continua a brincar com toiros agora mais do que nunca!
Quem nunca tivéra fallado em corrida de toiros e no mal que ellas fazem á vista, ao pensamento, á saude, á bolça, aos costumes, á propriedade, á moral, e a tudo!.. Era melhor, e muito melhor ter feito vista grossa, do que dar occasião a que uma criança tão forte, como dizem que é o povo, se-exercite o habito de teimar!!
Façâmos-lhe porem justiça; elle não tem culpa; e purissimas, e rectissimas foram as intenções dos mestres que o-reprehenderam. Quem é o culpado, é… é… é, ou são aquelles que armam d’est’arte ás affeições do povo para colherem os seus sufragios.
Lembram-nos os calamitosos tempos do baixo imperio, em que os circos, os gladiadores, os muzicos, os bobos, os histriões precederam á queda, e ruina total do mundo romano!! Estaremos nós também a morrer morte de nação?..
Discorram n’este programma todos os que sabem discorrer: por nossa parte temos formado, e assentado o nosso juízo -<o mundo ha-de acabar como principiou.>
José de Freitas Amorim Barbosa.

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