Num momento em que escolas fecham por falta de recursos, que o SNS apresenta sérias dificuldades, que famílias recorrem a bancos alimentares e autarquias de todo o país apertam o cinto, a Câmara Municipal de Alter do Chão encontrou uma forma singular de gastar 19.900 euros dos contribuintes (mais IVA). Na transmissão televisiva de uma tourada para o canal espanhol OneToro no passado dia 25 de abril.
O valor final, já com o imposto, aproxima-se dos 25 mil euros, dinheiro público que, em vez de servir para as prioridades reais da população, foi investido num canal televisivo em sinal fechado, de acesso pago.
A decisão foi bastante contestada, ao ponto da autarquia, ter emitido um comunicado a apresentar as suas justificações para este investimento.
Por detrás da “promoção internacional”: uma plataforma de nicho, acessível a poucos
O município justificou a despesa como uma estratégia de “marketing territorial” e “promoção internacional” do concelho, alegando que a transmissão da corrida de touros da Feira de São Marcos iria projetar Alter do Chão em Espanha, França e até América Latina.
A OneToro é uma plataforma digital paga, acessível apenas a assinantes, com mensalidades a partir de 19,99 euros. Ou seja, o dinheiro público serviu para financiar um espetáculo que, na prática, ficará fechado numa subscrição, inacessível livremente não só para os portugueses em geral, mas até para os próprios habitantes de Alter do Chão. A autarquia paga para “se mostrar ao mundo”, mas escolhe fazê-lo num espaço fechado, impossibilitando grande parte da população de ver o retorno do seu investimento.
Justificação frágil e sem números
Na sua defesa, a Câmara de Alter do Chão afirma que se trata de uma operação de marketing, capaz de levar o nome do concelho a mercados externos e de dinamizar a economia local. No entanto, não apresenta qualquer dado concreto: não indica quantos espectadores são esperados, não quantifica nenhum impacto turístico, não demonstra quantas dormidas ou consumos locais poderão ser gerados com esta emissão. Sem números, a defesa do interesse público fica no plano das meras declarações de intenção, sem qualquer garantia de retorno palpável para os contribuintes.
Contratar uma plataforma estrangeira em dificuldades
A escolha da OneToro torna a decisão ainda mais questionável. A própria imprensa espanhola noticia as sucessivas dificuldades financeiras da plataforma: cerca de 53 mil assinantes (muito aquém dos 200 mil projetados), prejuízos acumulados de milhões de euros e suspensão de emissões de algumas feiras por inviabilidade económica. O próprio modelo de negócio da OneToro está em xeque (com elevada pirataria e baixa subscrição), e os seus investidores privados ameaçam retirar-se. O município fala em “audiência global altamente qualificada” e “monopólio de audiências especializadas”, mas não apresenta qualquer estudo que comprove o real alcance desta plataforma.
Transmissão foi interrompida a meio devido à chuva
Infelizmente, este caso não é um episódio isolado. A Plataforma Basta de Touradas estima que são gastos anualmente cerca de 19 milhões de euros dos contribuintes com a tauromaquia em Portugal, entre apoios diretos de autarquias, subsídios estatais e fundos comunitários. O Estado, através de sucessivos governos, e algumas autarquias locais, insistem em canalizar dinheiros públicos para a tauromaquia, apesar de a atividade ser cada vez menos consensual, ter público em declínio e assentar no sofrimento e morte de milhares de animais.
O caso de Alter do Chão é paradigmático de como os recursos públicos continuam a ser desbaratados em atividades que servem sobretudo os interesses de um sector de negócio privado – as empresas tauromáquicas – em detrimento das verdadeiras necessidades das populações. O facto de a transmissão ter sido inclusive suspensa a meio devido à chuva acresce o ridículo desta decisão.
Contrato aqui: https://www.base.gov.pt/Base4/pt/detalhe/?type=contratos&id=14565988

Deixe um comentário