História das touradas em Portugal

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6. O Estado Novo criou e legalizou a “tourada à portuguesa

A ação dissolvente das touradas em 1925 - Estado Novo.
Livro “A ação dissolvente das touradas” (1925).

Após a oposição do regime republicano, as touradas ganharam novo fulgor com o Estado Novo, altura em que foram eliminadas todas restrições impostas durante a Revolução Liberal, e se começou a conceber um modelo chamado de tourada à portuguesa inspirado nas velhas “touradas reais”, contra a vontade dos próprios aficionados que consideravam esta versão das corridas de touros, imposta pelo regime, como uma fraude inaceitável, nomeadamente a ideia de incluir os forcados no final da lide, apelidando-a de “festa mansa“.

Um dos jornais tauromáquicos da época – “A Estocada” – manifestava-se contra esta “festa mansa” nas suas páginas. Em abril de 1936, na sua 1ª edição, o jornal condenava as “pegas” dos forcados, os touros “embolados” e as “sortes de gaiola” nas suas páginas, publicando um manifesto contra a versão portuguesa da festa brava: “O Jornal A Estocada condena formalmente a Festa Mansa, com todo o seu ridículo e mentira. Não quer touradas com touros embolados, com sortes de gaiola, pegas e outras falsas manifestações de valentia.“.

Antes disso, a “afición” ainda tentou convencer Salazar a restabelecer as “touradas de morte” originais, facto que deu origem a um intenso debate na sociedade com a oposição de inúmeras entidades e grupos de católicos. Apesar da polémica, Salazar acedeu, tendo autorizado 3 corridas de morte (“à espanhola”) e encomendado um estudo sobre os “touros de morte” a um grupo de aficionados, medida que ampliou o debate e a contestação de vários setores da sociedade. A edição do livro “A ação dissolvente das touradas“, de Vitória Pais Freire de Andrade, é exemplo da reação que a abertura do regime às touradas de morte, desencadeou na sociedade.

Salazar rejeitou o regresso dos touros de morte optando por recuperar as “touradas reais” com a velha escola marialva de cavaleiros tauromáquicos e introduzindo os moços de forcados amadores no final da lide, concebendo assim aquilo a que hoje se chama de tourada à portuguesa numa altura em que as touradas eram fortemente influenciadas pela tauromaquia espanhola que sempre serviu de base às lides efetuadas em Portugal e continua a influenciar em vários aspetos, incluindo no léxico utilizado.

Filme Ribatejo: Estado Novo e a tauromaquia.
Cartaz de promoção do filme “Ribatejo” (1949).

A criação da chamada “tourada portuguesa” caiu mal a muitos aficionados, como já se depreendia nas duras palavras de Nizza da Silva, publicadas em 1933 no Jornal Tauromáquico “Sector 1” (que promoveu uma intensa campanha “pró-toiros de morte”).

O texto demonstra como a tourada à portuguesa não resulta de uma tradição antiga nacional, mas da necessidade de adaptar o espetáculo aos novos tempos, distingui-lo das tourada espanhola tornando-o mais suave a atrativo aos olhos do público: “A corrida de toiros foi cultivada durante séculos na península. Em Portugal, porém, decaiu a tal ponto que se transformou graças à falta de escrúpulos de certos traficantes da Tauromaquia, nesse espetáculo reles a que os empresários começaram a chamar anti-patrioticamente, a tourada à portuguesa.”

Apesar da resistência da “afición“, Salazar insistiu em promover uma versão da tourada menos sangrenta, sem picadores e sem os matadores de touros, mas com a participação dos cavaleiros de dinastia marialva e os moços de forcado, dando assim um cunho mais nacional a esta atividade. Foi a partir daqui que se concebeu a imagem poética de um Ribatejo dos toiros e dos campinos que se impôs e que persiste nos nossos dias.

Tourada no Campo Pequeno com Franco e Salazar na tribuna.
Franco e Salazar na tribuna do Campo Pequeno (1ª página do Diário de Notícias de 24 de Outubro de 1949)

Ficou célebre a majestosa “tourada à portuguesa” realizada no Campo Pequeno em 1949, à qual assistiram, lado a lado na tribuna da praça lisboeta, os ditadores Salazar e Franco, durante a visita do “Generalíssimo” espanhol a Portugal. Este evento marcou verdadeiramente a viragem das corridas de touros a pé para a “tourada à portuguesa” com cavaleiros e forcados. Um evento pleno de significado para fazer a diferença entre a tauromaquia espanhola e a recém criada, tourada portuguesa.

Uns anos antes, entre outras iniciativas, a tauromaquia foi incluída no programa dos festejos do Duplo Centenário da Fundação e da Restauração da Nacionalidade e na Exposição do Mundo Português em 1940, com a realização de touradas “à portuguesa” e a promoção da imagem do campino. Desta forma o regime propagandeou a tauromaquia no imaginário folclórico português e nas suas campanhas de animação turística, transmitindo à sociedade portuguesa que a tourada é uma tradição que faz parte do imaginário heroico português que importa preservar.

O Campino foi associado ao folclore português como o “guardador das lezírias” (uma espécie de “cowboy” português) através de cartazes, filmes e outros meios de propaganda da época.

A propaganda tauromáquica alastrou-se às salas de cinema através de diversos filmes daquela época, como Gado Bravo (1934), Severa (1939), Sol e Touros (1949), Ribatejo (1949), Sangue Toureiro (1958) e outros.

Para cimentar o cunho português às touradas, em 1953 Salazar legalizou o espetáculo tauromáquico e avançou com a criação de diferentes classes de “artistas tauromáquicos”, com a aprovação do primeiro “Regulamento do Espetáculo Tauromáquico e das Condições de Prestação e Remuneração do Trabalho”, aprovado por Despacho Ministerial de 22/6/1953 (com a inclusão das alterações aprovadas por Despacho Ministerial de 1/5/1954), eliminando todas as restrições anteriormente impostas e legalizando pela primeira vez as touradas em Portugal, tornando a “tourada à portuguesa” um negócio rentável com legislação própria.

Desta forma o regime também reconheceu o toureio como uma profissão, processo que já tinha sido iniciado em 1934 com a criação do Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses.

Primeiro Regulamento do Espetáculo Tauromáquico de 1953.
Regulamento tauromáquico que legalizou as touradas em Portugal (1953).

Com a aprovação do Regulamento Tauromáquico em 1953, o toureio a cavalo foi aos poucos substituindo o chamado toureio a pé, que continuava a ser o mais apreciado pelos aficionados portugueses, mas que hoje em dia está praticamente extinto no nosso país. Com a legalização da touradas, estas passaram a estar afetas ao Secretariado Nacional de Informação (Comissariado do Turismo) e a ser uma aposta do regime nas suas campanhas de promoção turísticas, ideia que já vinha sendo defendida desde os anos 30. Este é o motivo para a existência de várias praças de touros em estâncias balneares muito frequentadas naquela época, como Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Figueira da Foz ou Nazaré.

Foi também durante a ditadura que se ergueram a maioria das praças de touros hoje existentes em Portugal: Beja (1947), Póvoa do Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Cascais (1963 – demolida em 2007), Santarém (1964), Coruche (1966) etc., e se formaram grande parte dos grupos de “forcados amadores”.