Um festival de música em vez de uma tourada

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P3 (Público), 09/06/2012 – Texto de Mariana Correia Pinto. Foto de Adriano Miranda.

Era uma tourada cujos fundos revertiam para os Bombeiros Voluntários de Pedrouços, na Maia. Um movimento no Facebook pressionou, a autarquia local cancelou o evento. Dia 10, há um festival (solidário) de música para o substituir

Quando a música começar a soar nos jardins da Casa do Alto, na Maia, Gustavo, Guilherme e Elisa hão-de respirar de alivio. Nas duas últimas semanas, eles correram contra o tempo. Ajudaram a fazer cair uma tourada e ergueram um festival de música, a realizar no mesmo dia e com o mesmo objectivo: angariar fundos para os Bombeiros Voluntários de Pedrouços, na Maia.

Tudo começou nas redes sociais. Foi lá que Gustavo Sousa se cruzou com um cartaz que anunciava a realização de uma tourada na Maia, no campo de futebol do Pedrouços, onde Gustavo tinha sido treinador das camadas jovens durante uns meses. “Achei que aquilo era um insulto”, lembra.

Foi pelo mesmo meio que o jovem de 30 anos respondeu. Criou uma página no Facebook anti-tourada na Maia e em 48 horas conseguiu juntar mais de duas mil pessoas. De repente, Gustavo não estava sozinho. De repente, o presidente da Câmara Municipal da Maia, Bragança Fernandes, tinha o email inundado com cartas que pediam o cancelamento do evento, apelidado de “lamentável” numa cidade “que não tem qualquer tradição tauromáquica”.

No dia seguinte, através de uma notícia publicada num jornal, tornou-se público que o presidente da autarquia não autorizava a realização do evento.

Anti tourada, pró-bombeiros

Tinha-se dado um passo importante. Mas o segundo problema – o dos bombeiros – ficava novamente sem solução. Elisa Nair Ferreira, que se tinha cruzado com a causa na página do Facebook criada por Gustavo, meteu-se num autocarro rumo a Pedrouços: “Sempre deixei claro que não faz sentido ajudar os bichos e não ajudar as pessoas”, salientou. “Pensei ‘agora que a tourada foi cancelada vamos fazer um evento como deve ser’.”

Nessa noite, tomou café com Gustavo Sousa e Guilherme Piedade. De uma amizade de Facebook (Elisa e Gustavo não se conheciam, Gustavo e Guilherme já se tinham cruzado, Guilherme e Elisa não viam há anos) e duas causas – anti-touradas e pró-bombeiros – começou a esboçar-se um evento alternativo.

Guilherme assegurou a primeira confirmação do festival (“se houver um palco toco de graça”, garantiu) e iniciou contactos para conseguir outros nomes. Procuraram bandas disponíveis para se associarem a causas sociais e acabaram com os “Trabalhadores do Comércio” como cabeças de cartaz de um evento que baptizaram de Festival Alternativa Solidária (FAS) e que se vai realizar na Casa do Alto, cedida graciosamente pela autarquia local.

Os três jovens, nenhum deles residente na Maia, não sabem quanto vão conseguir angariar, mas garantem que tudo irá direitinho para os Bombeiros Voluntários locais: os setes “abraços” pagos à entrada do recinto, o valor das bebidas, os dinheiro do aluguer das mesas que vão erguer o mercadinho local e ainda eventuais donativos.

Quando Elisa entrou nos Bombeiros Voluntários de Pedrouços, no dia seguinte ao cancelamento da tourada, percebeu que muitos daqueles homens “não se orgulhavam da parceria” com os toureiros. “Mas é como um pai que não tem o que dar de comer ao filho. Faz qualquer coisa”, justifica. Contam os organizadores que são os toureiros quem anda pelo país em busca de novos aficcionados. “Andam a atacar a zona Norte”, onde não há tradição tauromáquica, lamentam.

Os jovens do FAS, que se realiza no Domingo, dia 10 de Junho, definem-se como “não radiciais” ou “não fundamentalistas” do assunto, mas não suportam a ideia de aplaudir o sofrimento dos animais: “A tourada é ter prazer com o sofrimento do animal”, diz Elisa. E Guilherme acrescenta: “E fazer disso um espectáculo lúdico.” Por isso não podiam ficar parados: “Tenho um amigo que costuma dizer que ‘Che Guevaras’ de sofás há muitos. Não quisemos ser mais uns”, diz Gustavo Sousa, ajudante de despachante aduaneiro.

Em Janeiro, a maioria parlamentar chumbou uma petição lançada pela iniciativa Campanha Anti-Tourada de Portugal, que pedia a abolição das touradas no país. Por outro lado, no mês seguinte, Viana do Castelo deu um passo contrário: tornou-se na primeira cidade anti-touradas do país. Agora, os organizadores do FAS esperam que a Maia possa transformar-se num “exemplo para outras autarquias”. E a verdade é que nas redes sociais já se fala da cidade – e de Viana do Castelo – como um exemplo a seguir. Os presidentes das autarquias que aceitem acolher touradas já dificilmente se livram de, pelo menos, uma caixa de correio electrónico inundada de protestos.

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