Touradas no Porto: história de uma evolução

Touradas no Porto: história de uma evolução
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sergio-caetano-bastaÀ semelhança de qualquer outra localidade da lezíria do Tejo, a cidade do Porto foi igualmente palco de inumeros festejos tauromáquicos durante a idade média, que decorreram com grande fervor nas ruas e praças da invicta até ao século XIX, mas que acabaram por desaparecer com o fim da monarquia pelo desinteresse e repúdio da população portuense em relação ao maltrato injustificado e cruel dos animais.

O repúdio dos portuenses pelas touradas levou à falência das empresas tauromáquicas, e no século XIX a atos mais exacerbados que culminaram com a demolição e, em alguns casos, a queima das praças de touros da cidade (casos das praças da Aguardente e da Areosa).touradas porto

Real Coliseu Portuense (Rotunda da Boavista)

As touradas começaram a perder fulgor no Porto a partir de 1830, altura em que muito se contestava o espetáculo pelo uso e abuso dos animais. Várias tentativas foram feitas nas décadas seguintes para trazer de volta os touros à cidade mas sempre sem sucesso.

Na década de 70 do século XIX assistiu-se a uma súbita edificação de praças de touros por todo o país e uma tentativa de impor à cidade do Porto a tradição das touradas com a construção de 3 praças de touros (Cadouços, Rua da Boavista e Largo da Aguardente). Mas a tentativa resultou num grande insucesso devido ao desinteresse da população. Ramalho Ortigão satirizou o episódio como uma fugaz cópia dos hábitos da capital, considerando-o desgarrado e sem qualquer tradição: “Ao cabo de dois anos ninguém mais voltou aos touros.” Também Pinho Leal deixou registado o seu conformismo com o fracasso da reintrodução das touradas e os gostos dos portuenses “nada depõe contra o gosto e a humanidade dos portuenses”. As 3 praças desapareceram em menos de cinco anos, com fracas receitas e a falência das empresas que as geriam. A imprensa escrita da cidade fazia eco da antipatia e indignação popular em relação às touradas. O Jornal Comércio do Porto em 1870 escrevia nas suas páginas: “Vê-se que infelizmente se porfia no intento de introduzir nesta cidade um divertimento contrário à indole e hábitos dos seus habitantes, porém ainda que o não fosse, nem por isso ele deixaria de ser menos condenável e digno de reprovação” – Comércio do Porto, 26 de janeiro de 1870.

“As touradas tendem a acabar no Porto, com o que nada se perde.” O Comércio do Porto, 21 de setembro de 1897

No final do século XIX foi realizada a última grande ofensiva para tentar ressuscitar a afición dos portuenses com a construção de duas novas praças de touros na cidade – Rotunda da Boavista e Praça da Alegria – a que se juntaram as praças erguidas na Serra do Pilar (V. N. de Gaia), Matosinhos e Granja.

O Real Coliseu Portuense (Rotunda da Boavista) foi a mais imponente e maior praça de touros da cidade do Porto. Acolhia cerca de 8.000 espetadores e possuía 2 restaurantes, camarotes, bancadas, salão de bilhares, cafés e quiosques de venda de jornais, além de dispor de iluminação elétrica. O exeburante redondel foi construido por dois empresários que fizeram fortuna no Brasil, mas 6 anos depois estava ao abandono.

Passado o periodo da curiosidade despertado pela imponência e o exotismo do edifício, o povo do Porto não se rendeu à tentativa de imposição de uma tradição, já na altura considerada anacrónica e sem raizes na região. Os touros e os toureiros eram importados do Ribatejo e Estremadura. Poucos anos depois da inauguração a praça de touros viu-se obrigada a acolher outro tipo de espetáculos como demonstrações de natação e equilibrismo e acabou por ser abandonada e demolida em 1895.

As praças de touros da Serra do Pilar e da Rua da Alegria não tiveram melhor sorte e acabaram por fechar portas. A imprensa dava conta desta realidade, antecipando o evidente desfecho: “De há muito os portuenses têm demonstrado a sua pouca afeição às diversões tauromáquicas. (…) Assim, as touradas tendem a acabar no Porto, com o que nada se perde.” – O Comércio do Porto, 21 de setembro de 1897.

Já no século XX, ainda antes da implantação da República, surgiram duas novas praças de touros no Porto: Areosa e Bessa mas a sua história foi igualmente breve e não existem registos de atividade significativa nestes redondeis. Ainda se tentou erguer uma praça de touros nas Antas, na atual Praça Velasquez, mas o projeto não saíu do papel.

tourada portoA última ofensiva da indústria tauromáquica no Porto ocorreu no início da década de 90 do século XX, com a realização de uma tourada no campo do Lima 5 numa praça improvisada, e mais uma vez a afición não deixou raízes na cidade. Um dos principais diários portuenses da época, “O Primeiro de Janeiro” escreveu no dia seguinte na manchete do jornal: “A arrogância dos organizadores da tourada que ontem se realizou no Porto esteve na origem dos distúrbios entre populares e defensores dos animais, por um lado, e os promotores da iniciativa. A PSP teve de intervir. Uma pessoa saiu ferida da refrega, que até teve a presença provocante, inoportuna e parola do cavaleiro Joaquim Bastinhas.”

Tal como referiu Alberto Pimentel em 1894 “A tauromaquia portuense deu em vasa barris”.

Bibliografia:

  • Real, Manuel Luís, et al. “No tempo das touradas: de esplêndida corrida a tradição repudiada”. Porto: Câmara Municipal do Porto, 2002.
  • Leal, Pinho, “Portugal antigo e moderno”, Mattos Moreira & Cª, 1890.
  • Pimentel, Alberto, “O Porto na berlinda”. Porto: Ernesto Chardron, 1894
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Dia da Mulher – Vitória Pais Freire de Andrade

Dia da Mulher – Vitória Pais Freire de Andrade
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accao dissolvente touradasNo Dia da Mulher homenageamos uma grande lutadora pela Liberdade, pelos direitos das mulheres e pela abolição das Touradas em Portugal: Vitória Pais Freire de Andrade.

Nos anos 20 encabeçou o movimento pela abolição das touradas em Portugal e foi autora do livro “A acção dissolvente das touradas” publicado em 1925, onde mostrava especial preocupação em relação à exposição das crianças à violência das touradas defendendo a sua abolição. “As touradas, onde se comete a infâmia imprópria dos nossos dias de gozar com o sofrimento de outrem, assim como todos os espetáculos selvagens que as precederam, estão na razão inversa da civilização. Civilizemo-nos devidamente e elas desaparecerão por completo”, escreveu em 1925.

 

vitoria pais freire_touradas

Vitória Pais Freire de Andrade (20-01-1883 – 07-11-1930) Professora, natural de Ponte de Sor, onde nasceu em 1883. A par do seu empenho nas questões pedagógicas e no associativismo docente, evidenciou-se na militância cívica e feminista, tendo aderido à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, à Associação de Propaganda Feminista e ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi um dos pilares, quer pelos cargos directivos que desempenhou, como pela participação nos Congressos Feministas e Abolicionistas. Preocupada com o bem estar colectivo, reivindicou uma participação social mais activa por parte dos cidadãos, e assumiu-se permanentemente como educadora, tanto no exercício da profissão, como na vida associativa e cívica, sendo muito conceituada entre o professorado primário. Empenhou-se no combate à prostituição e à sua regulamentação pelo Estado, encabeçou o movimento pela extinção das touradas.

Fonte: “Silêncios e Memórias”, Estudos Sobre as Mulheres [sécs. XIX-XX] – http://goo.gl/AHzir

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Causa abolicionista recebida novamente em S. Bento

Causa abolicionista recebida novamente em S. Bento
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Audiência do Movimento “Fim dos dinheiros públicos para as touradas” (Foto: www.portugal.gov.pt)

O dia 19 de fevereiro de 2013 constituiu mais uma marca histórica no processo de abolição das touradas em Portugal. Pela segunda vez consecutiva um movimento abolicionista da tauromaquia foi o mais votado no Portal do Governo sendo recebido em S. Bento,  numa audiência com o Primeiro Ministro.

Inês Real, representante do movimento, foi acompanhada pela Alexandra Moreira e Paula Perez, e entregou a Passos Coelho um extenso e credível dossier sobre os 16 milhões de euros do erário público que são empregues anualmente em Portugal. Ficou demonstrado que esta atividade não poderia sobreviver sem os apoios públicos de que beneficia, principalmente de algumas autarquias locais, que investem milhões de euros na organização de touradas, compra de bilhetes, reabilitação e manutençao de praças de touros, escolas de toureio, subsídios a entidades taurinas, etc…

O Primeiro Ministro recebeu ainda todas as ideias apresentadas pelos participantes na iniciativa “16M ideias”, promovida na sequência deste movimento, e que consistia em apresentar ideias alternativas ao investimento de 16 milhões de euros na tauromaquia.

Na audiência esteve também presente o novo Secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier.
touradas 16 milhoes correio manha
Jornal “Correio da Manhã”, 19 de Fevereiro de 2013
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Touradas e coisas piores

Touradas e coisas piores
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Publicado em 2011-02-14 no Jornal de Notícias

antonio pina touradasMANUEL ANTÓNIO PINA (1943-2012)

 

A propósito da anterior crónica (sobre as inclinações “culturais” da Câmara de Vinhais, que decidiu iniciar os seus munícipes nos prazeres “exquis” da brutalidade e tortura pública de animais) escreve-me um leitor dizendo, em abono da tourada, que Hemingway e Picasso gostavam do espectáculo. Não só eles, acrescento eu, e de touradas e coisas piores…

Escritores e artistas raramente são exemplos morais recomendáveis. Céline, escritor maior (mesmo não sendo a literatura um campeonato) que Hemingway, partilhou com Hitler, além do desprezo pelas mulheres, o gosto pela carnificina de judeus, e Picasso, juntamente com as touradas, teve outra devoção não menos sangrenta, Estaline.

A História está cheia de obras sensíveis e generosas, às vezes de grande riqueza moral, realizadas por gente feia, porca, má ou nem por isso. E se o desprezível dr. Destouches, dito Céline, escreveu a admirável “Viagem ao fim da noite” mas também obras imundas e carregadas de ódio, em outras é difícil encontrar traço do ser humano existente por trás delas (quem dirá que por trás da belíssima Catedral de Brasília está um devoto, também ele, de Estaline?)

Não é por Hemingway e Picasso se terem divertido (terem sido capazes disso) com a agonia e morte de um animal que a tourada deixa de ser um espectáculo eticamente condenável. O facto de apreciarem touradas desabona a favor de um e outro, não abona a favor das touradas.

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Bosch anuncia que ‘jamais apoiará touradas’

Bosch anuncia que ‘jamais apoiará touradas’
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bosch_touradasO logotipo do Grupo foi usado de forma abusiva na promoção das touradas em Albufeira.
Os folhetos de promoção às corridas de touros realizadas na praça de Albufeira, distribuídos publicamente, apresentavam o simbolo da conceituada empresa Bosch. A estranha situação (uma vez que há muito que as grandes marcas internacionais se recusam a associar a sua imagem a eventos sangrentos e que implicam a violência e o sofrimento de animais), foi comunicada ao grupo Bosch na Alemanha e motivou uma imediata reacção e esclarecimento da empresa, que se desmarca totalmente da promoção das touradas:
“O fundador do Grupo, Robert Bosch, tornou a responsabilidade social um valor fundamental da sua empresa, e hoje em dia este valor é promovido em todas as localizações Bosch no mundo. Desta forma, a Bosch não é, nunca foi e nunca será a favor deste tipo de evento.​
Após averiguarmos a situação, descobrimos que a tourada foi apoiada por uma oficina que pertence a um conceito de Módulos da Bosch, que é um programa de certificação técnica. Estes senhores violaram o acordo assinado connosco e utilizaram indevidamente o logótipo da nossa empresa. Por isso, estão a ser tomadas medidas legais para evitar novo abuso da marca.”
A postura da Bosch demonstra o quanto a prática da tauromaquia é malvista e condenada a nível internacional.

 

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João Pedro Pais nunca apoiará as touradas

João Pedro Pais nunca apoiará as touradas
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joao pedro pais 

A imagem do cantor João Pedro Pais circulou recentemente nas redes sociais associada à tauromaquia.

Contactado pela plataforma Basta, o cantor faz questão de esclarecer, para quem possa ter ficado com dúvidas, a sua posição em relação às touradas e à violência contra animais:

“Serei sempre contra o sofrimento dos animais em qualquer parte do mundo! (…) Jamais apoiarei touradas!”

Um grande bem-haja ao João!

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Abolição das touradas eleita a causa mais popular!

Abolição das touradas eleita a causa mais popular!
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movimento touradas
Audiência do movimento pela abolição das touradas com o Primeiro Ministro e o Sec. de Estado da Cultura (foto: Governo de Portugal – www.portugal.gov.pt)

Na passada terça-feira, 8 de Maio, o movimento abolicionista das corridas de touros em Portugal viveu um dia histórico ao ser recebido pelo senhor Primeiro-Ministro na sua residência oficial.

O movimento pela abolição das corridas de touros foi claramente o mais popular numa votação promovida pelo Governo português no início deste ano, e foi por isso recebido pelo Chefe do Governo, Passos Coelho, e pelo Secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas.

“Os três representantes do movimento abolicionistas fizeram questão de informar o Primeiro-ministro de Portugal sobre o outro lado das corridas de touros, nomeadamente desmistificando a falsa ideia de que as touradas em Portugal são menos cruéis do que em Espanha.”

Pela primeira vez, a vontade clara da maioria da sociedade portuguesa em abolir definitivamente estes espectáculos foi ouvida pelo poder político português ao mais alto nível, e no final ficou a certeza de que este movimento não se ficará por aqui, já que os abolicionistas conseguiram a abertura do Governo para serem ouvidos na revisão do Regulamento do Espectáculo Tauromáquico que atualmente serve apenas os interesses da indústria tauromáquica, sem proteger as crianças nem tendo em conta as regras de bem-estar animal da União Europeia que Portugal ratificou.

Os três representantes do movimento abolicionistas fizeram questão de informar o Primeiro-ministro de Portugal sobre o outro lado das corridas de touros, nomeadamente desmistificando a falsa ideia de que as touradas em Portugal são menos cruéis do que em Espanha. Os abolicionistas explicaram ao Chefe do Governo que as touradas realizadas em Portugal são dos eventos mais cruéis do mundo, uma vez que os animais, depois de lidados na arena e depois de lhes serem arrancadas as bandarilhas com uma navalha, têm que aguardar vivos, feridos e em intenso sofrimento durante vários dias até serem finalmente abatidos no matadouro. Uma situação deplorável e inaceitável nos dias de hoje que tem sido escondida da opinião pública. Foram ainda realçados muitos outros aspetos de exceção de que esta atividade injustificadamente beneficia.

touradas portugal movimento primeiro ministro

(foto: Governo de Portugal – www.portugal.gov.pt)

 

Esta audiência com o Primeiro-ministro marca o início de uma nova era em Portugal rumo à abolição destes espectáculos que já no século XIX eram considerados “impróprios de uma nação civilizada” e que chegaram a estar proibidos em vários periodos da nossa história.

A sociedade portuguesa, tal como as sociedades dos restantes países onde ainda se realizam corridas de touros, está a evoluir e quer que as touradas sejam abolidas. É tempo de dizer basta, respeitando o público taurino, mas ouvindo finalmente aquela que é a vontade da maioria.

O movimento iniciado com esta iniciativa do Governo terá continuidade no futuro, dando expressão a uma vontade social inequívoca: a abolição das touradas em Portugal.

 

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Movimento anti-touradas em Portugal

Movimento anti-touradas em Portugal
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O movimento anti-touradas em Portugal é tão antigo como as próprias corridas de touros. Práticas desde sempre alvo de críticas no nosso país, e maioritariamente contestadas pela nossa sociedade atualmente. As touradas foram ao longo da nossa história sempre muito contestadas, principalmente durante a monarquia constitucional, devido à sua relação com o absolutismo. Por quatro vezes as touradas foram proibidas em Portugal. A partir do século XX, a evolução em termos de protecção aos animais, fez surgir novos argumentos de contestação a este tipo de espetáculo violento, pela crueldade infligida aos animais.

As corridas de touros constituem em Portugal uma excepção na Lei n.º 92/95 de 12 de Setembro, que proíbe “todas as violências injustificadas contra animais, considerando-se como tais os actos consistentes, sem necessidade, se infligir a morte, o sofrimento cruel e prolongado ou graves lesões a um animal”.

Em 2012, respondendo a uma vontade social inequívoca, surgiu a plataforma nacional “Basta” que tem por objetivo a abolição das touradas em Portugal, contando com um forte apoio do movimento animalista portugês.

O que pretendemos:

As corridas de touros não geram turismo nem riqueza para o país, sendo um tipo de espetáculo repudiado internacionalmente pela violência injustificada contra os animais;

As corridas de touros são insustentáveis do ponto de vista económico. A atividade sobrevive graças aos apoios públicos disponibilizados pelas autarquias locais, pelo Governo e recorrendo aos fundos da União Europeia;

A ‘Basta’ defende a abolição das touradas em Portugal representando a vontade da maioria dos cidadãos portugueses que não se revê neste tipo de práticas anacrónicas e violentas.

A ‘Basta’ reconhece, contudo, a existência de uma franja na nossa sociedade que ainda valoriza as touradas, e que deve ser respeitada.

A ‘Basta’ pretende contribuir para o progresso civilizacional da nossa sociedade, para a sua pacificação e para a valorização de outras práticas festivas, lúdicas e pacíficas que acontecem no nosso país e que merecem ser valorizadas.

Juntos pela Evolução!

Basta. Plataforma Nacional para a abolição das touradas em Portugal

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