Tauromaquia e solidariedade: Um mundo à parte

Tauromaquia e solidariedade: Um mundo à parte
Share Button
sergio-caetano-basta

Sérgio Caetano, jornalista.

 

Um dos argumentos usados na defesa das touradas em Portugal é o lado solidário da festa com a promoção de espectáculos tauromáquicos em benefício de diversas causas e recolha de fundos para diversas instituições. Já houve até quem se lembrasse de organizar uma tourada em Vila Franca de Xira em benefício de uma associação de proteção aos animais.

Reconheço que essa vertente solidária existe, embora cada vez mais instituições dispensem a generosidade da indústria tauromáquica, recusando-se a associar o seu nome a um espectáculo, violento, cruel e cada vez mais longe de reunir consenso na sociedade portuguesa.

É preciso recuar no tempo para compreender como surgiu esta vertente solidária da “festa” de touros no nosso país. Ela tem uma justificação e uma razão de ser, e está relacionada precisamente com a contestação de que sempre foi alvo. As corridas de touros de beneficência surgiram após a abolição das touradas, decretada em 1836. Por pressão das Misericórdias (proprietárias da maioria das praças de touros) e da Casa Pia de Lisboa (proprietária da praça de touros do Campo Pequeno), as touradas foram novamente autorizadas, mas apenas se a receita delas proveniente fosse destinada a fins de carácter social. Foi a forma encontrada na época para dar alguma dignidade a um tipo de divertimento, que já na altura, era considerado bárbaro e impróprio de uma nação civilizada.

Após o susto provocado pela proibição decretada por Passos Manuel, os empresários tauromáquicos e aficionados das touradas agarraram esta oportunidade para continuar a desfrutar do seu passatempo favorito, e evitar que ele desaparecesse do nosso país, começando a organizar corridas de touros em benefício de qualquer instituição que na época se encarregasse do apoio social, e até há registos de touradas promovidas em benefício de toureiros… Atualmente os espectáculos de beneficência designam-se “Festivais Tauromáquicos” e de acordo com a legislação, permitem a utilização de “reses” sem idade ou peso mínimos, o que permite a realização de eventos com custos inferiores para os promotores. O lado solidário da “festa” tem por isso, na sua origem, uma solução estratégica para salvar as touradas da extinção, e não um caráter solidário verdadeiramente genuíno.

O lado solidário da ‘festa’ tem por isso, na sua origem, uma solução estratégica para salvar as touradas da extinção

Vem isto a propósito do sucedido nos últimos dias, com a polémica questão da introdução nas Festas de Benavente dos “touros de fogo”, ao mesmo tempo que alguns empresários tauromáquicos e toureiros, anunciavam publicamente a sua disponibilidade para realizar uma corrida de touros a favor das vítimas dos incêndios em Portugal. Largar touros com os cornos em chamas pelas ruas, ao mesmo tempo que se demonstra solidariedade pelas vítimas dos fogos é para muitos cidadãos um chocante contrassenso difícil de compreender.

Mas o “mundillo” tauromáquico é mesmo assim. Um meio onde os seus intervenientes assumem uma grande paixão pelos seus animais (cavalos, cães, gatos,…) mas se sentem realizados e apaixonados pela “arte” de cravar lâminas afiadas com grande vigor em bovinos em desvantagem, provocando hemorragias e lesões profundas nos animais, que são sujeitos a uma lenta agonia que termina no matadouro, onde é levado a cabo o último tércio de uma lide demorada e sangrenta.

Conheço suficientemente bem o meio tauromáquico em Portugal para saber que não é verdade que estas pessoas se divirtam com o sofrimento dos animais, e que efetivamente muitas sentem carinho, preocupação e empatia pelos seus animais de estimação. Da mesma forma que nenhuma pessoa vai a uma praça de touros especificamente para aplaudir o sofrimento e a tortura de animais, como frequentemente se diz, mas para apreciar a mestria dos cavaleiros, a performance dos bandarilheiros e a bravura dos forcados.

O pequeno “mundillo” tauromáquico é efetivamente muito particular. Pertence a outra época, com outros valores e não pode ser compreendido pela sociedade atual. Por isso se esforçam, pensam e investem cada vez mais no marketing, tentando encontrar soluções para conseguir alterar a sua imagem e seduzir a sociedade portuguesa. Tarefa difícil, diria até impossível, e que leva a situações completamente bizarras e incompreensíveis, como a organização de touradas em benefício da proteção aos animais, ou a solidariedade com as vítimas dos incêndios numa semana em que se promoveu a “tradição” macabra de largar touros a arder nas ruas de Benavente.

A tauromaquia é um mundo à parte, uma exceção, numa sociedade que se quer civilizada, e que mais cedo ou mais tarde eliminará estas práticas anacrónicas, que nunca foram, e jamais serão aceites na nossa sociedade.

Sérgio Caetano, jornalista. Junho de 2017

Share Button

Liga Portuguesa Contra o Cancro não apoia touradas

Liga Portuguesa Contra o Cancro não apoia touradas
Share Button

 

  • Direção da Liga assume publicamente oposição às touradas.
  • Instituição recusa estar associada à violência da tauromaquia e já solicitou a anulação da tourada a favor do Núcleo Regional dos Açores.

lpcc-logo

A Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) anunciou publicamente através da sua página na rede social “facebook” que é “absolutamente contra a realização de touradas e de espetáculos semelhantes”.

A comunicação surge na sequência do anúncio, através de uma conferência de imprensa, e em diversos órgãos de comunicação tauromáquicos, da organização de uma tourada no próximo dia 29 de maio, na praça de touros de Angra do Heroísmo, cujas receitas revertiam a favor do Núcleo Regional dos Açores da Liga Portuguesa Contra o Cancro, com a participação do Matador espanhol Javier Castaño.

A Plataforma Basta contactou, no dia 28 de abril, a Direção da Liga para solicitar esclarecimentos acerca da notícia que deixou indignados milhares de cidadãos.

Hoje, o Presidente Nacional da LPCC, Vítor Veloso, informou a Plataforma que “a Direção da Liga Portuguesa Contra o Cancro é absolutamente contra a realização de Touradas ou de espetáculos semelhantes e, que, de imediato, providenciamos no sentido da anulação do espetáculo programado pelo Núcleo Regional dos Açores. Apresentamos as nossas desculpas por tão insólita organização que só por descuido, desatenção e inexperiência foi anunciado. Com a certeza que não pactuamos com este tipo de espetáculo”.

A Basta congratula-se com a posição assumida pela Direção da LPCC, no respeito pelos valores fundamentais de responsabilidade social, ao não aceitar a colaboração na organização de um espetáculo violento e que implica maus tratos graves a animais.

Lembramos que a tourada é um espetáculo cada vez mais repudiado pelos cidadãos portugueses. De acordo com as estatísticas oficiais, nos últimos 5 anos (2010-2015) as corridas de touros perderam 42% do seu público em Portugal (fonte: IGAC).

Em Fevereiro de 2014, o Comité dos Direitos da Criança da ONU reconheceu o carácter violento da tauromaquia, instando o Estado português, a adoptar medidas para proteger as crianças e jovens da “violência física e mental da tauromaquia”;

Sendo a Liga Portuguesa Contra o Cancro uma instituição prestigiada e com reconhecido mérito na sociedade portuguesa, é com agrado que recebemos a informação que esta instituição não aceita estar conotada com as touradas, pelo facto, já felicitamos a sua Direção.

Share Button

I.P.O. de Lisboa nega envolvimento em evento tauromáquico

I.P.O. de Lisboa nega envolvimento em evento tauromáquico
Share Button

ipo lisboa cartazFoi anunciado pela imprensa taurina um espetáculo tauromáquico na praça de touros da Barquinha com o objetivo de angariar fundos para o Instituto Português de Oncologia de Lisboa (I.P.O.), com o slogan “o aficionado é solidário e a festa brava sabe ajudar”.

O evento, designado “concurso de pegas”, inclui a lide de reses bravas e a participação de diversos grupos de forcados, não tendo sido autorizado pela Inspeção Geral das Atividades Culturais (I.G.A.C.). Esta estranha situação, que envolve uma instituição de grande prestígio em Portugal (I.P.O.), motivou a indignação de muitos cidadãos, e um pedido de esclarecimento enviado pela plataforma Basta ao Presidente do Conselho de Administração do I.P.O. de Lisboa.

O I.P.O. contactou esta tarde a plataforma Basta, esclarecendo que não tinha conhecimento da realização deste evento, garantindo que não tem qualquer tipo de ligação ou protocolo com os promotores do evento tauromáquico anunciado para o próximo dia 26.

Confirma-se assim que, mais uma vez, a indústria tauromáquica utiliza de forma abusiva o nome de instituições para a realização de eventos tauromáquicos designados de “solidários”. O caso em apreço será denunciado às autoridades competentes na matéria.

Share Button
Envolvimento de crianças em touradas está a ser investigado

Diário de Notícias - 3 weeks ago
O envolvimento de crianças em touradas está a...

Autoridades investigam participação de crianças em touradas

ZAP - 2 weeks ago
A participação de menores em touradas carece,...

Peruanos protestam contra touradas

euronews - 2 weeks ago
Centenas de pessoas, muitas delas jovens,...

Marca "Touradas" lança sweat shirts

Naturales - 2 weeks ago
A marca Touradas acaba de lançar as primeiras...

News via Google. See more news matching 'touradas'