A República e as touradas

A República e as touradas
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A implantação da República em Portugal constituiu um sério revés na expansão do negócio tauromáquico rompendo com a promoção da festa efectuada pelos últimos monarcas (D. Carlos e D. Manuel II). As questões económicas fizeram prevalecer as touradas no nosso país apesar do período hostil para o sector.

Em 1910 já estavam perfeitamente montadas as estruturas do negócio (empresários, ganaderos e toureiros profissionais) que se mostrava ser bastante rentável na época. No entanto, no início do século XX, a tourada não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas depois do 5 de Outubro de 1910. Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram: “Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da ‘Costa do Sol’”1

A implantação da República e a tentativa de fazer nascer um Portugal novo que fosse ao encontro da civilização europeia foi devastador para os conservadores empresários tauromáquicos: “As circunstâncias em que surgia a República, saída de um movimento revolucionário, estabelecia um ambiente em que toda a hostilidade parecia de menos contra os antigos hábitos e as velhas tradições. Verificava-se como que a necessidade de estabelecer uma sociedade nova, assente em velhos hábitos, e o toureio, como expressão fidalga e tradicional seria atingido da forma mais incisiva”2. O momento inspirou de imediato a apresentação de novas iniciativas para abolir o espectáculo. Fernão Bôtto Machado propôs à Assembleia Nacional Constituinte a proibição das touradas, num projecto de lei apresentado em 11 de Agosto de 1911 e que contou com o apoio da Sociedade Protectora dos Animais. “Esse cruel e perigoso sport só é defendido nos nossos dias, ou por interesses de exploração ou por aficionados del redondel, mas sem fundamentos que o justifiquem e sem sequer razões que o desculpem.”3

A atribulada 1ª República não conseguiu erradicar este divertimento do nosso país, provavelmente porque na primeira metade do século XX ele se tornou muito pouco expressivo nos anos que se seguiram, mas a relação próxima entre a monarquia e a tauromaquia revelava-se ainda nas arenas dez anos depois da proclamação da República. Exemplo disso mesmo é o caso do cavaleiro José Casimiro, fortemente hostilizado pela população devido à propaganda monárquica que fazia durante as suas actuações como toureiro, ao ponto de ser impedido de tourear em Lisboa.

Entre 1910 e 1926 registaram-se várias intervenções tanto na Assembleia Nacional Constituinte de 1911, como na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso, de repúdio e oposição às touradas sendo praticamente nulas as intervenções em sua defesa. É certo no entanto que alguns deputados simpatizavam e até assistiam às corridas, mas a sua defesa durante este período era feita de forma silenciosa.

A indústria tauromáquica só conseguiu restabelecer-se anos mais tarde, durante o Estado Novo, altura em que a tauromaquia serviu de inspiração para a propaganda nacionalista. Foi ainda neste período que se construíram grande parte das praças de touros ainda hoje em actividade em Portugal, e que são exemplos as praças de Beja (1947), Póvoa de Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Santarém (1964) e Coruche (1966).

Bibliografia:
1. Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970. Pág. 46.
2. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951. Pág. 170.
3. Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911. Pág. 3.
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Touradas em queda em Portugal

Touradas em queda em Portugal
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Nos últimos dez anos o número de touradas realizadas em Portugal tem vindo a diminuir de forma significativa. Os dados disponíveis relacionados com a actividade tauromáquica em Portugal, confirmam a tendência para o decréscimo acentuado do sector em Portugal, a que não é alheio o facto de um crescente número de cidadãos portugueses repudiar a realização deste tipo de práticas que implicam a crueldade com milhares de animais. Os números contrariam a ideia de que o negócio tauromáquico está em expansão e gera riqueza em Portugal, um argumento que é falso. Também o número de espectadores está em queda acentuada. Só nos últimos 3 anos a Praça de Touros do Campo Pequeno perdeu cerca de 40.000 espectadores.

A quebra no número de touradas é confirmada pela Associação Nacional de Toureiros (ANT) que recentemente revelou, em declarações à agência LUSA, que “os dados provisórios apontam para a realização, este ano, de 240 a 245 espectáculos taurinos”.

Touradas perderam 40.000 espectadores nos últimos 3 anos, só em Lisboa

Estes dados confirmam a tendência dos últimos anos para a contínua diminuição do número de eventos. Durante a época tauromáquica de 2013 há ainda a salientar a fraca adesão de público nas bancadas da maioria das praças de touros, com reflexos significativos na principal praça de touros do país – Campo Pequeno – que apresentou fracas assistências em muitos dos eventos taurinos organizados. Os números avançados pela empresa que gere a Praça de touros de Lisboa indicam que este ano as touradas organizadas naquele espaço perderam 18.000 espectadores em relação a 2012. Um decréscimo que se vem acentuando desde 2010. Nos últimos três anos a assistência às touradas em Lisboa perdeu cerca de 40.000 espectadores.

Apesar da ‘crise’ ser apontada como a causa da diminuição de touradas em 2013, a verdade é que entre 2003 e 2013 o número de touradas diminuiu mais de 30% (345 touradas em 2003 e 240 em 2013).

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Já Julho deste ano, numa reportagem publicada pelo jornal “i” que analisou o estado do negócio das touradas em Portugal, o empresário tauromáquico Joaquim Pinta Negra assumiu que as touradas “têm tendência para acabar” deixando clara a insustentabilidade do negócio “Todos temos os dias contados: as ganadarias estão à rasca, muitas a fechar ou a reduzir efectivos, e os toureiros não têm dinheiro para os cavalos”.

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Também o Presidente da Associação de Criadores de Toiros de Lide, João Santos Andrade, adiantou na mesma reportagem que o negócio da criação de bovinos para as touradas não é rentável, contrariando a ideia de que as touradas são um negócio que gera riqueza em Portugal: “Neste momento gastamos mais dinheiro a criar um touro do que ganhamos a vendê-lo”.

Os dados relacionados com o número total de espectadores no país, continuam a ser escassos, situação agravada com a eliminação da tauromaquia no tipo de eventos culturais reconhecidos e analisados pelo Instituo Nacional de Estatística. Os dados existentes são recolhidos pelos Directores de Corrida com base em estimativas do número de pessoas presentes nas praças de touros, mas indicam, mesmo assim, uma clara diminuição do interesse dos portugueses pelas touradas, situação confirmada na Praça de touros de Lisboa onde a empresa reconhece a significativa diminuição de público.

Fontes:

Correio da Manhã: Campo Pequeno recebeu menos 18 mil espectadores

Jornal O Mirante: Menos corridas de toiros em 2013 devido à crise 

Jornal I: Touradas. Uma tradição pelo país fora mas “sem margem de lucro”

Jornal Sol: Touradas descem 20%

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