Portugal em Mudança

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Paula Pérez, empresária.

Paula Pérez, empresária.

 

Para uma maioria crescente de portugueses, a existência de touradas em Portugal já é absurda, claramente contrária ao caminho de modernização cultural, identitária e ética que se pretende seguir.

Sabemos que esta perceção não está uniformemente distribuída pelo território, e que há bolsas de “resistência” onde por vezes o Tempo parece ter parado.

Mas é importante assinalar que mesmo nessas regiões onde a tradição tauromáquica ainda tem peso, cada vez mais vozes se insurgem contra a manutenção das práticas de utilização cruenta de animais em espectáculos próprios da insensibilidade de outros tempos.

Há comunidades locais fraturadas, com uma parte da população a valorizar a tauromaquia ou com indiferença, e outra parte com franco repúdio pela tauromaquia.

E havendo essa oposição, perguntamos: é admissível que os poderes utilizem fundos públicos, dos impostos de todos, para financiar e manter viva uma atividade que indigna e envergonha uma parte dos contribuintes?

São os subsídios “agrícolas” a ganadeiros, são os apoios às “tertúlias tauromáquicas”, “grupos de forcados” e outros, são a compra pelas autarquias e a distribuição de bilhetes para eventos tauromáquicos que mantêm esta atividade viva. Sem estes balões de oxigénio já não haveria sustentabilidade para este negócio.

Também por isso queremos acabar com eles!

Em muitos outros campos se revela a escandalosa matriz de favorecimento em que estes senhores atuam. As corridas são dirigidas por delegados técnicos tauromáquicos com ligações ao negócio (mas pagos pela Inspeção Geral das Atividades Culturais – dinheiro de todos – no dia dos espetáculos). O mesmo se passa com o veterinário delegado técnico tauromáquico, sempre um aficionado, que algumas vezes “fecha os olhos” a claras violações do regulamento e quase sempre se demite na prática do seu dever de zelar pelo bem-estar dos animais – antes, durante e depois da tourada.

As pessoas não pensam no que acontece aos touros depois de recolhidos aos curros ou depois de puxados pelos cornos por um trator

Não é permitido a outros médicos veterinários (independentes do negócio) inspecionarem os touros e os cavalos usados nas touradas! O Estado (nomeadamente a DGAV) não sabe do destino dos touros usados nas diferentes corridas! Será isto aceitável?

Além do dever de denúncia que assumimos, sabemos que há ainda muito trabalho de sensibilização e esclarecimento para fazer.

As pessoas não pensam no que acontece aos touros depois de recolhidos aos curros ou depois de puxados pelos cornos por um trator, para um camião sem quaisquer condições. Se pensassem, e se soubessem, haveria muito menos indiferença! O mesmo sucede com o lado violento do espectáculo e a exposição das crianças a episódios de grande impacto psicológico como o sangue real que brota dos animais e pinta de vermelho as roupas, a cara e as mãos dos lidadores, sem esquecer os inevitáveis acidentes, por vezes graves e/ou mortais, que causam o pânico na assistência e por vezes vitimam também crianças que nunca deviam ser expostas a situação de risco tão elevado.

Alguns pensam que “eu não gosto, mas sempre houve touradas, é natural que sempre vá haver”.

Lembram-se quando foi imposta a proibição de fumar nos restaurantes, e toda a gente pensou que era coisa que não iria durar “porque os portugueses sempre gostaram de fumar nos restaurantes”? Hoje nem os fumadores mais inveterados pensam em fumar exceto nos locais próprios. Foi uma “mudança cultural” que se fez com toda a naturalidade, para benefício de todos.

Pois bem, também um dia nos lembraremos com embaraço que “Portugal já foi um País com touradas, como é possível, felizmente isso acabou”.

Basta de Touradas. Abolição.

Paula Pérez, empresária. Junho de 2017
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