Palestra “O Porto, a Galiza e as touradas”

Palestra “O Porto, a Galiza e as touradas”
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Porque é que desapareceram as touradas na cidade do Porto?
E porque é que as touradas estão a acabar na Galiza?

O Porto será o ponto de encontro para debater e dar resposta a estas duas perguntas, numa conversa sobre a história e a evolução de duas sociedades diferentes mas com muitos pontos em comum. A iniciativa tem por objetivo a apresentação de uma investigação sobre a tradição tauromáquica na cidade do Porto e o seu desaparecimento, bem como a situação das touradas na Galiza onde estas práticas estão em vias de desaparecer, graças ao trabalho desenvolvido pela plataforma “Galicia Mellor Sen Touradas”.
A palestra “O Porto, A Galiza e as touradas – Evolução histórica” decorrerá no próximo dia 4 de fevereiro de 2017 às 16 horas, no Auditório da Biblioteca Municipal Almeida Garrett, na cidade do Porto, com o seguinte programa:

16.00h – “As touradas no Porto e o seu desaparecimento”, Sérgio Caetano (Jornalista da FFW e Coordenador da Plataforma Basta)
16.30h – “A abolição das touradas na Galiza”, Rubén Pérez (Porta voz da Plataforma Galicia Mellor Sen Touradas)
17.00h – Debate
17.30h – Encerramento

Organização: Fundação Franz Weber
Parceiros: Plataforma Basta de TouradasGalicia, Mellor Sen Touradas e Porto pelos Animais
Apoio: Câmara Municipal do Porto

Oradores:

sergio_meu movSérgio Caetano – Jornalista e representante da Fundação Franz Weber em Portugal. Coordenador da Plataforma Basta e Presidente da Direção da associação ambiental S.O.S. Rio Paiva.

 

 

 

ruben perez gmstRubén Pérez – Gestor de campanhas e Diretor de comunicação da Fundação Franz Weber na Galiza. Porta-voz da Plataforma “Galicia Mellor Sen Touradas”.

 

Porto touradas 01

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A República e as touradas

A República e as touradas
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Sérgio Caetano, Jornalista

A implantação da República em Portugal constituiu um sério revés na expansão do negócio tauromáquico rompendo com a promoção da festa efectuada pelos últimos monarcas (D. Carlos e D. Manuel II). As questões económicas fizeram prevalecer as touradas no nosso país apesar do período hostil para o sector.

Em 1910 já estavam perfeitamente montadas as estruturas do negócio (empresários, ganaderos e toureiros profissionais) que se mostrava ser bastante rentável na época. No entanto, no início do século XX, a tourada não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas depois do 5 de Outubro de 1910. Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram: “Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da ‘Costa do Sol’”1

A implantação da República e a tentativa de fazer nascer um Portugal novo que fosse ao encontro da civilização europeia foi devastador para os conservadores empresários tauromáquicos: “As circunstâncias em que surgia a República, saída de um movimento revolucionário, estabelecia um ambiente em que toda a hostilidade parecia de menos contra os antigos hábitos e as velhas tradições. Verificava-se como que a necessidade de estabelecer uma sociedade nova, assente em velhos hábitos, e o toureio, como expressão fidalga e tradicional seria atingido da forma mais incisiva”2. O momento inspirou de imediato a apresentação de novas iniciativas para abolir o espectáculo. Fernão Bôtto Machado propôs à Assembleia Nacional Constituinte a proibição das touradas, num projecto de lei apresentado em 11 de Agosto de 1911 e que contou com o apoio da Sociedade Protectora dos Animais. “Esse cruel e perigoso sport só é defendido nos nossos dias, ou por interesses de exploração ou por aficionados del redondel, mas sem fundamentos que o justifiquem e sem sequer razões que o desculpem.”3

A atribulada 1ª República não conseguiu erradicar este divertimento do nosso país, provavelmente porque na primeira metade do século XX ele se tornou muito pouco expressivo nos anos que se seguiram, mas a relação próxima entre a monarquia e a tauromaquia revelava-se ainda nas arenas dez anos depois da proclamação da República. Exemplo disso mesmo é o caso do cavaleiro José Casimiro, fortemente hostilizado pela população devido à propaganda monárquica que fazia durante as suas actuações como toureiro, ao ponto de ser impedido de tourear em Lisboa.

Entre 1910 e 1926 registaram-se várias intervenções tanto na Assembleia Nacional Constituinte de 1911, como na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso, de repúdio e oposição às touradas sendo praticamente nulas as intervenções em sua defesa. É certo no entanto que alguns deputados simpatizavam e até assistiam às corridas, mas a sua defesa durante este período era feita de forma silenciosa.

A indústria tauromáquica só conseguiu restabelecer-se anos mais tarde, durante o Estado Novo, altura em que a tauromaquia serviu de inspiração para a propaganda nacionalista. Foi ainda neste período que se construíram grande parte das praças de touros ainda hoje em actividade em Portugal, e que são exemplos as praças de Beja (1947), Póvoa de Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Santarém (1964) e Coruche (1966).

Bibliografia:
1. Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970. Pág. 46.
2. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951. Pág. 170.
3. Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911. Pág. 3.
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Igreja Católica: A condenação das touradas

Igreja Católica: A condenação das touradas
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sergio-caetano-bastaMuito se tem dito e escrito acerca da posição da Igreja Católica em relação às touradas. Certo é que, na sua longa história, a igreja nunca assumiu uma posição de defesa das práticas tauromáquicas, muito pelo contrário, todas as posições assumidas pelo Vaticano foram no sentido de condenar as corridas de touros, posição que nem sempre foi respeitada. Alguns clérigos chegaram mesmo a adulterar os textos para que as touradas não fossem erradicadas da Península Ibérica. Nas últimas décadas, porém, assiste-se a um progressivo afastamento da Igreja Católica da prática tauromáquica, apesar da ligação económica que mantêm algumas Misericórdias portuguesas às touradas.

Historicamente as Igrejas locais estão associadas ao início da atividade tauromáquica não só promovendo eventos, mas também com um papel importante na criação de bovinos que depois eram usados nestes festejos. Durante muitos anos, tauromaquia e a Igreja surgiam lado a lado num ritual de perigo e morte onde a superstição ocupava lugar privilegiado. Nos dias de hoje é conhecida a devoção dos lidadores e a sua busca de proteção divina para os perigos na arena, mas a Igreja afastou-se lentamente do sangue e da crueldade das touradas.

S. Pedro Regalado.
S. Pedro Regalado.

Segundo alguns autores, o primeiro espetáculo taurino de que há registo terá ocorrido no período de formação dos reinos cristãos em Espanha no ano de 815 em León 1 ainda sob domínio árabe mas organizados pelos cristãos. Já nos séculos XI e XII há registos em Espanha de cerimónias religiosas em que também se realizaram este género de festejos com touros. Em 1080 na boda do Infante Sancho de Estrada em Ávila, em 1107 para celebrar a boda de Blasco Muñoz em Logroño e mais tarde em 1140 novamente em León para celebração do casamento da filha de Afonso VII. Estes eventos eram no entanto diferentes dos de hoje, e os animais eram mortos rapidamente, sem uma lide tão artística e prolongada. Ocorriam não só na Península Ibérica mas um pouco por toda a Europa.

No século XV é evidente a expansão do toureio a cavalo em Espanha e o papel da igreja local na promoção de festejos taurinos: “Os próprios átrios das Igrejas são, não poucas vezes, teatro de ações tauromáquicas, oferecendo improvisadas liças onde ocorriam as mais brilhantes facetas dos programas dos seus festejos em honra dos santos mais queridos ou populares.” 2.

Curiosa é a história do franciscano São Pedro Regalado (1390-1456) que um dia se cruzou com um touro que tinha fugido da praça de touros de Valhadolide. Pedro não se amedrontou com o desesperado animal, tratando-o por amigo e pedindo que se ajoelhasse à sua frente. Depois retirou-lhe todas as bandarilhas que tinha espetadas no corpo “(…) Regalado com sossego e tranquilidade ia-lhe arrancando, uma a uma, as pontas dos ferros com que haviam atormentado o animal. No final, depois de o ter inundado à medida da sua compaixão, deu-lhe a benção e mandou que se fosse curar nas águas do rio Douro” 3. Regalado salvou o animal da bestialidade humana, mas ironicamente seria aclamado mais tarde Padroeiro dos Toureiros, título que ainda hoje é utilizado pelos lidadores…

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Isabel, a Católica.

É nesta altura que o divertimento chega também a Roma durante o papado de Alexandre VI, mas a sua prática em Itália iria durar pouco tempo.

Quando sobe ao trono de Castela a rainha “Isabel, a Católica” (1474 – 1504) as lutas sangrentas entre homens e touros sofrem um duro revés. Isabel, considerada um das mulheres mais inteligentes daquela época, mostrou grande desprezo pelo espetáculo tauromáquico e depois de assistir ao vivo à morte de dois lidadores na arena ordenou que os touros passassem a ser embolados, com as hastes cortadas, para evitar o derramamento de sangue humano nas arenas.

Apesar de estar localmente ligada ao desenvolvimento destas festejos, a igreja católica foi também o primeiro grande opositor da prática destes divertimentos, e existem várias referências históricas que confirmam este facto. Muitos membros da igreja católica repudiaram a realização, promoção e assistência a este tipo de divertimentos que consideravam contrários à bondade e fé cristã.
Na vizinha Espanha, S. Juan de Ávila (1500-1569), sacerdote e escritor andaluz foi um dos opositores das touradas que por ali se realizavam: “Correr touros é coisa perigosa para a consciência de quem manda ou autoriza a sua celebração!” 4.

fray martin touradas igreja basta

Alguns anos mais tarde em Portugal o padre Manuel Bernardes (1644-1710) escreveu sobre as loucuras e crueldades cometidas nas corridas de touros: “O jogo de feras foi introdução do demónio, como todas as mais do gentilismo, para que o coração humano perdesse o horror à morte e derramamento de sangue humano, e aprendesse a fereza de costumes e indómito das paixões. Em Espanha ainda sabe a gentilismo o jogo dos touros, porque, por mais que o deem por seguro e inocente, o certo é que quem gosta, ou de assistir, ou de se expor a tal perigo, não lhe falta muito para bárbaro, ou para ímpio. Em uma festa de touros em Cuenca, refere Marianna que houve um tão feroz, que em uma tarde matou sete toureiros (…), e acrescenta que “em vez de desterrarem semelhante folguedo, mandaram fazer um painel por um pintor célebre, onde se via o touro com os sete mortos a seus pés, e o puseram para memória do caso em lugar público. O que a mim, diz com muita razão o sobredito autor, me parece que foi levantarem os cidadãos um padrão e letreiro da sua loucura! Vejam se tem razão Cassiodoro, de chamar a este exercício jogo cruel, deleite sanguinolento e fereza humana (…)”  5.

A Igreja proibiu as touradas em 1567 horrorizada com a crueldade dos espetáculos taurinos então praticados

Em Portugal continuaram a surgir esporadicamente referências a festejos com touros. A igreja tinha nesta atividade um papel importante já que estava intimamente ligada à criação de gado fornecendo os animais para as diversões*. Terá sido também a igreja a primeira entidade a tirar rendimentos do espetáculo. Em 1555 os irmãos da Confraria de Nossa Senhora da Merciana davam parte ao rei (D. João III, O Piedoso) “fazerem a festa e touros como era de costume, com muita quietação conforme o regimento que a rainha dera à mesma confraria, pedindo ao mesmo senhor os conservasse na posse em que estavam.”  6.

* Ainda hoje algumas Misericórdias se dedicam à produção animal.

Apesar da ligação da igreja a estas atividades, o Vaticano nunca viu com bons olhos a participação dos clérigos neste tipo de divertimento e, aliás, nunca aprovou a sua realização. Na idade média o Vaticano por diversas vezes criticou os monarcas portugueses por obrigarem os clérigos a participar nas guerras. Os Concílios da altura proibiam inclusive os bispos de caçar, mas há registos que provam que os bispos portugueses se dedicavam a estas atividades. “Assim como havia bispos que se entregavam ao exercício da caça, e para isso mantinham falcões e açores contra a disposição dos concílios, assim também os havia, é bem sabido, que não faltavam aos combates como verdadeiros soldados, não já somente contra os infiéis, mas ainda contra os próprios correligionários”  7.

O grande número de vítimas mortais em consequência das touradas motivou a publicação pelo mais alto representante da igreja católica de uma Bula que excomungava os espectadores das corridas de touros e os proibia de serem sepultados em solo sagrado. Este documento tem sido alvo de muita polémica ao longo dos anos, tal como muitos dos factos que envolvem a história do espetáculo tauromáquico. Não há dúvidas que este texto condenatório das touradas não caiu nada bem junto dos mais aficionados que o tentaram esconder e por força da pressão junto do Vaticano, de alguma forma, atenuar ou adulterar o seu conteúdo. Luis Gilpérez Fraile publicou em 2001 um livro intitulado “De interés para católicos taurinos” resultado de um estudo profundo desta questão onde é feita uma análise de vários documentos publicados após a Bula de Pio V, traduzidos pelo padre Sebastián Goñi do Tribunal Eclisiástico de San Sebastian. É baseado neste trabalho e em várias publicações que abordam este tema, incluindo alguns documentos publicados em Portugal, que redigimos esta análise cronológica da proibição das touradas por parte do Vaticano.

Ilustração
Ilustração “La Lidia”.

No dia 1 de novembro de 1567 o Papa Pio V, horrorizado pela crueldade dos espetáculos taurinos procurou pôr fim a estes festejos ao publicar a Bula “Salute Gregis Dominici” proibindo determinantemente as corridas de touros e decretando pena de excomunhão imediata a qualquer católico que as permitisse ou participasse nelas. Ordenou igualmente que não fosse dada sepultura eclesiástica aos católicos que pudessem morrer vítimas de qualquer espetáculo taurino.

“Nós portanto considerando que esses espetáculos de se correrem touros e outras feras em corro ou praça, são alheios da piedade e caridade cristã. E querendo desterrar esses jogos sanguinolentos e ímpios, mais de demónios do que de homens, e providenciar, quanto com ajuda de Deus podemos, à salvação das almas, a todos os princípes cristãos, e a cada um em particular, dos constituídos em qualquer dignidade tanto eclisiástica como temporal, ou imperial, ou real, ou de qualquer outra sorte, e seja qual for o cargo que exerçam; ou a quaisquer comunidades e repúblicas, proibimos e vedamos por esta nossa Constituição, válida para sempre, e sob as penas de excomunhão e anátema, em que hão- de incorrer se a isto contravierem, que em suas províncias, cidades, senhorios, vilas e lugares, permitam espetáculos, deste género, em que se corram toiros e outros animais… Aos clérigos não menos, tanto regulares como seculares, e a todos os providos, proibimos, sob pena de excumunhão, que entrem em tais espetáculos. E cessamos todas as obrigações de juramento e votos contraídas seja por quem for, ou que de futuro hajam contrair-se perante qualquer universidade ou congregação, de entrarem nesses jogos touros ainda que (segundo a opinião falsa dessas pessoas) seja para honrar os Santos, ou qualquer solenidade ou festividade eclesiástica. Porque os Santos e a Igreja, só com louvores divinos, gozos espirituais, e obras pias se devem celebrar, e não por aquela forma…”

Esta Bula levou ao desaparecimento da tradição das touradas em Itália onde também haviam registos sangrentos de grandes tragédias associadas ao divertimento taurino. Em Roma no ano de 1332 faleceram de uma só vez 19 cavaleiros e muitos plebeus colhidos pelas hastes dos touros 8. A. Martín Maqueda atribui à falta de conhecimento e preparação dos romanos os banhos de sangue que na sua opinião foram os responsáveis pela abolição do espetáculo em Itália 9. Também em França as touradas deixaram praticamente de se realizar por esta altura à exceção de algumas localidades do sul do país onde a influência espanhola mais se fazia sentir.

Mas na Península Ibérica a vontade do Papa de terminar com estes violentos espetáculos sempre foi ignorada, escondida e desrespeitada com o falso argumento que a lide de touros era fundamental para o treinos das tropas cristãs. A mentira invocada pelos monarcas procurava esconder o fanatismo pelas lutas sangrentas contestadas pelo Papa. Monarcas, fidalgos e mesmo membros do clero tentaram ocultar as determinações do Papa, ignorando-as ou adulterando o seu conteúdo. Alguns autores tauromáquicos admitem mesmo que Filipe II enganou e mentiu ao Papa invocando estes falsos argumentos para convencer Pio V – “É fácil perceber que o filho de Carlos V não foi sincero na apresentação de tal argumento, numa altura em que os progressos da ciência da guerra já não justificavam tal preocupação, e o exercício militar, desempenhado na sua maior parte pelo povo que não praticava toureio, possuía meios de preparação em que muito pouca influência poderia ter a lide de toiros, com a feição artística e independente que vinha demonstrando. Mas Filipe II não teria encontrado melhores razões para convencer o Papa.”  10. Filipe II, fanático religioso, aliou-se aos lidadores, proibiu a publicação da Bula e encetou uma luta com Roma que iria perdurar por muitos anos. O empenho de Filipe II na defesa dos festejos taurinos não se baseava na sua afición, porque não era particularmente adepto da tauromaquia, mas pelo facto de mesmo proibidas, as lutas com touros serem muito concorridas na altura, acudindo a elas um número considerável de cidadãos, entre os quais alguns membros do clero que se disfarçavam com trajes civis para assistir aos festejos ignorando o risco de excomunhão. O monarca temia pela sua popularidade ao adotar uma medida que não seria bem aceite em setores bastante influentes na corte 11. Contudo a Bula seria traduzida para português e publicada em Carta Pastoral do Bispo de Coimbra D. João Soares, documento que se encontra ainda hoje conservado nos Arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal 12.

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Excerto da Bula Papal que proibe as touradas em Portugal.

Em 1575 o sucessor de Pio V, Gregorio XIII por pressão de Filipe II de Espanha publica a Encíclica “Exponi nobis” levantando aos laicos a proibição de assistência às corridas de touros desde que se tomassem as correspondentes medidas a fim de evitar qualquer morte e que tais eventos não se realizassem aos domingos e dias santos, procurando evitar que as touradas fossem promovidas como entretenimento. Gregorio XIII manteve no entanto a proibição aos clérigos de assistir e participar nos combates com touros. Ainda assim alguns membros do clero continuavam a disfarçar-se com trajes civis para assistir aos festejos. “Num período de forte atuação da Inquisição, a classe eclisiástica era a primeira a dar maus exemplos…”  13, refere Maria Teresa Resende no livro “No tempo das touradas” a propósito deste interessante episódio. A obsessão de alguns clérigos espanhóis pelas corridas aos touros era tão grande, que chegam a tomar posições rebeldes e segundo Luis Gilpérez Fraile, os que lecionavam na Universidade de Salamanca não só assistiam e promoviam corridas de touros, como manipulavam a encíclica Papal para que os alunos acreditassem que a exceção concedida pelo Papa também os incluía a eles. Os clérigos de Salamanca iniciaram uma luta com o Vaticano que se prolongou por alguns anos.

Os portugueses também ignoraram a proibição. Em 1578, e antes de partir para a batalha de Alcácer-Quibir, D. Sebastião terá participado numa corrida de touros em Xabregas pondo em prática a sua destreza no manejo das armas matando um touro da forma que é descrita por Jaime Duarte de Almeida: “Aguentando o embate sem mais defesa do que a sua pequena capa que mal enrolara no braço esquerdo, fez desaparecer toda a lâmina da espada no cachaço do toiro, que se entregou vencido, como fulminado por aquele golpe, entre as aclamações que coroavam o feito, naquela gritaria febril com que a emoção cede o seu lugar ao entusiasmo.”  14. Os “treinos” realizados em Xabregas e em Cádiz (onde também terá toureado a caminho de África) pelo monarca português de nada lhe valeram na batalha de Alcácer-Quibir (1578) onde viria a padecer. Bem pode dizer-se que D. Sebastião foi castigado pelas determinações de Pio V que excomungavam todos os monarcas e clérigos que participassem em corridas de touros não lhe sendo concedida sepultura em solo sagrado.

Nos dois anos que se seguiram desapareceu a afición em Portugal com a governação do Cardeal D. Henrique que fez respeitar a vontade do Vaticano dando cumprimento à vontade do Papa. As touradas desapareceram em Portugal.

Só em 1582 Filipe II de Espanha, na altura também rei de Portugal (Filipe I), dá a conhecer as ordens do Papa Gregório XIII, ignorando contudo a proibição dos clérigos. O monarca autoriza a realização de corridas de touros em Lisboa, exceto aos domingos e dias santos e desde que delas não resulte a morte de alguma pessoa 15.

… a barbárie humana está ainda entranhada nas corridas de touros, não há dúvidas de que a igreja continua a condenar, tal como o fez no passado, estes espetáculos sangrentos e vergonhosos”

O sucessor de Gregório XIII, Sixto V (Papa de 1585 a 1590) ao ter conhecimento das desobediências contacta o bispo de Salamanca (Breve “Nuper siquidem”) ordenando que se proíbam os clérigos de assistirem aos espetáculos taurinos e que castigue os desobedientes. A carta do Papa foi tornada pública pelo Bispo de Salamanca através de uma ampla e dura Carta Pastoral onde ordena que “doravante, não se ouse dizer, nem ensinar, nem aconselhar, que as ditas pessoas eclisiásticas podem assistir aos ditos espetáculos sem incorrer em pecado…” 16. Inconformados, os Clérigos da Universidade de Salamanca recorreram ao Rei pedindo que o monarca solicitasse a revogação das determinações do Papa, mas Filipe II não o chegaria a fazer nessa altura. Mais tarde, já com o Papa Clemente VIII (1592 – 1605), os clérigos tauromáquicos de Salamanca contrataram dois procuradores para negociarem no Vaticano o assunto com o Papa, que com o pretexto de que a bula do antecessor Pio V não tinha conseguido eliminar os combates com touros, “tão importantes para tornar mais valentes os cavaleiros para as tarefas da guerra”, toma em janeiro de 1596 uma nova resolução mais suave, permitindo aos clérigos seculares participar nas corridas de forma discreta e mantendo a proibição aos clérigos regulares. Aconselhou ainda aos outros eclesiásticos que por uma questão de dignidade se abstivessem por completo de assistir a tais espetáculos, suprimindo as penas de excomunhão anteriormente efetuadas, só nos reinos de Espanha e com exceção dos monges, frades e regulares de qualquer ordem religiosa mantendo também as anteriores condições: “queremos que as corridas de touros, nos reinos de Espanha, não se celebrem em dias festivos” e que “se tomem medidas para que, dentro do possível, delas não resulte a morte de qualquer pessoa.”  17.

O fanatismo gerado pelo prazer de combater touros publicamente, era de tal forma que levou a que as determinações do Vaticano fossem novamente ignoradas e deturpadas ao longo de anos. Em “História da Tauromaquia” de 1951, Jaime Duarte de Almeida afirma que Clemente VIII “corajosamente anulou, de maneira absoluta, a bula de Pio V”  18 o que não corresponde totalmente à verdade. O historiador eclesiástico monseñor Manuel Rodríguez (1629-1701), referiu mais tarde que “pecam mortalmente os religiosos que disfarçadamente se atrevem a assistir às corridas de touros interpretando falsamente a Bula de Clemente VIII, pois a proibição jamais foi revogada, e assim o têm declarado as supremas autoridades eclesiásticas.”  19.

Igreja touradas basta portugalSegundo a investigação de Luis Gilpérez Fraile, traduzida no livro “De interés para católicos taurinos”, só 84 anos mais tarde a Igreja voltaria a pronunciar-se sobre o assunto das touradas e mais uma vez condenando fortemente este espetáculo.

Em julho de 1680 o secretário do Papa Inocêncio XI (1676 – 1689), Alderano Cibo, remeteu o Decreto Apostólico “Non sine graui” ao representante diplomático do Papa em Espanha, Savo Mellini. O documento foi acompanhado de uma nota pessoal do Papa dirigida ao rei Carlos II de Espanha e chegou às mãos do monarca a 25 de setembro desse ano. No Decreto Inocêncio XI lembrava que os “nossos antecessores, os Pontífices Romanos, sempre condenaram este tipo de festas” e lamentou a desobediência dos eclesiásticos regulares às ordens de Clemente VIII de que não participassem nem assistissem às corridas de touros “tão pouco em consonância com a moral cristã”, e encarrega Savo Mellini de fazer cumprir as determinações do Vaticano e a atuar seriamente perante o rei católico e seus colaboradores para que no futuro, a acontecer estas corridas, se tomem pelo menos medidas que salvaguardem as vidas humanas. Na nota pessoal que enviou a Carlos II, o Papa referia: “Quanto seria do agrado de Deus proibir a festa de touros…”. Carlos II ignorou completamente estas súplicas do Papa bem como o Decreto não dando qualquer resposta. Mellini, o representante diplomático do Papa, enviou uma carta ao Marquês de Velada para que insistisse com Carlos II sobre este assunto sugerindo inclusive que o melhor seria fazer as corridas de touros desaparecer de uma vez já que fazem parte dos espetáculos sangrentos do paganismo. Velada fez chegar o documento ao rei junto com uma cópia do Decreto mas não há registo de nenhuma resposta por parte do monarca, que segundo Luis Gilpérez Fraile, não queria criar polémicas com a nobreza.

A proibição das touradas por parte da Igreja Católica era até aqui baseada essencialmente na condenação da perda de vidas humanas que tais espetáculos implicavam, tal como acontece nos dias de hoje. No entanto, no início do século XX, a igreja vê-se confrontada com apelos à defesa e proteção dos direitos dos animais, nomeadamente os touros e cavalos utilizados nas arenas, por parte de associações que então começam a desenvolver o seu trabalho nesta área. Em 1920 a Presidente da Sociedade Protetora dos Animais de Toulon (França) envia uma carta dirigida ao Papa Benedicto XV (Papado de 1914 a 1922) solicitando esclarecimentos sobre a sua posição em relação às corridas de touros. A resposta surgiria no dia 23 de outubro desse mesmo ano pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Gasparri com considerações bastante duras para com o espetáculo tauromáquico. “… a barbárie humana está ainda entranhada nas corridas de touros, não há dúvidas de que a igreja continua a condenar, tal como o fez no passado, estes espetáculos sangrentos e vergonhosos.” E prossegue “(Sua Santidade) incentiva todas as nobres almas que trabalham para acabar com esta vergonha e aprova de todo o coração todas as ações estabelecidas com esse objetivo e que se esforçam por desenvolver nos nossos países civilizados, o sentimento da piedade para com os animais”  20.

A carta foi tornada pública no Jornal oficial do Vaticano “Osservatore Romano” a 6 de maio de 1923 por altura da celebração de uma corrida de touros em Roma numa tentativa fracassada de reintroduzir as touradas em Itália. O documento refere-se ainda à ação da Sociedade Protetora dos Animais de Toulon, que teve um grande impacto na época e motivou algumas demonstrações de solidariedade de alguns clérigos, como o Arcebispo de Paris, Cardeal Dubois, que se dirigiu assim àquela associação: “Pode essa Sociedade estar orgulhosa da bela carta com que a honrou Sua Eminência o Cardeal Gasparri em nome do Soberano Pontífice. (…) Não pode haver dúvida de que os católicos devem abster-se de assistir a esses espetáculos, que são eminentemente cruéis.”. A igreja francesa, apesar de não ter conseguido fazer cumprir a Bula de Pio V, também se manifestava em 1885, através do Bispo de Nimes (cidade que ainda hoje é um grande centro de afición) numa passagem datada de 15 de agosto em que, depois de se referir à dita Bula, Monsenhor Besson proíbe os jornais católicos de publicitar as corridas de touros: “(…) só devem ocupar-se delas para as condenar com energia”.

Também no México a Bula de Pio V não passou indiferente à igreja local. No Concílio Mexicano Provincial celebrado em 1585 e aprovado em Roma pelo Papa Sixto V em 1589, as polémicas corridas de touros foram abordadas, e mais tarde, no século XIX, o Padre mexicano José Ximeno fez questão de lembrar os fiéis da absoluta oposição da igreja a este tipo de entretenimentos: “A Igreja sempre detestou as corridas de touros, como consta nas Bulas de Pio V, Gregório XIII, Clemente VII, não só porque têm a sua origem na crueldade das gentes, como devido aos escândalos, mortes y desgraças, que nelas costumam acontecer.” 21. No entanto a Excomunhão da Igreja Mexicana, lembra o Padre, não se estendia aos que assistem mas apenas aos que dão ordem e consentem que as touradas se realizem principalmente em cemitérios e campos santos como era vulgar acontecer: “Quando se incorre nesta primeira Excomunhão Sinodal? Incorre-se pelos que dão ordem, ou pelos que devendo impedi-lo, não o fazem, mas sim que o consentem, que com grave irreverência dos Cemitérios, ou Campos Santos, se façam nelas quaisquer corridas de touros, mas não de novilhos, vacas, ou um só touro à corda.”  22.

A oposição do Vaticano à participação do clero nas festas com touros voltou a manifestar-se em Portugal com a proibição de “touradas, cavalhadas, representações teatrais ou contradanças” 23 durante as celebrações do casamento do infante D. João, futuro D. João VI, expressa em cartas pastorais de 1785 e 1786, transcritas no ano de 1820 no Jornal de Coimbra, seguindo as anteriores indicações do Vaticano, isto apesar de ao mesmo tempo algumas instituições ligadas à igreja começarem a tirar algum rendimento das corridas algo que se viria a intensificar a partir daqui, nomeadamente as Misericórdias.

Com a ditadura a Igreja voltou a conseguir um lugar privilegiado junto do poder.

touradas basta igreja catolica
Contestação dos católicos à realização de touradas em Portugal.

Em 1933 um grupo de católicos de Lisboa, liderados por Francisco Melo, emitia um panfleto 24 de contestação aos touros de morte, “Um grupo de católicos do Patriarcado de Lisboa deliberou divulgar este artigo admirável, que demonstra que todos os que constituem a Igreja Católica devem não apenas abster-se de assistir ou auxiliar o espetáculo embrutecedor das corridas de touros, mas também combate-lo, animados pelo aplauso do grande Pontífice Pio XI, que, como os seus Antecessores, recomenda que todos trabalhem a fim de eliminar tal mancha. Que todos os católicos, ouvindo o apelo do Papa imortal da ‘Quadragéssimo Ano’ encetem luta tenaz contra essa selvajaria, imprópria da nossa época e da nossa civilização”. Francisco Melo invocou o artigo publicado na edição de maio de 1923 no “Osservatore Romano”, o jornal oficial do Vaticano, onde a igreja condenava, uma vez mais, as touradas “o espetáculo em que pobres animais são martirizados e por fim mortos, para prazer de indivíduos que a ele assistem, é contrário à civilização e à bondade cristã, que se estende até aos animais.”

pracas misericordias
Praças de touros propriedade das Misericórdias em Portugal.

O afastamento da Igreja Católica em Portugal é notório nas últimas décadas. A título de exemplo refira-se que o Regulamento do Espetáculo Tauromáquico aprovado em 1971 obrigava à existência de uma capela em todas as praças de touros – “Em todas as praças deve existir, em local condigno, uma capela ou simples oratório destinado exclusivamente aos lidadores.” bem como de um sacerdote “As empresas devem assegurar, durante a realização do espetáculo, a presença de um sacerdote para prestar assistência espiritual a qualquer lidador ou espectador afectado de doença súbita, quando solicitada.”. Atualmente, apesar de se manterem as capelas em muitas das praças de touros portuguesas, essa obrigação foi retirada do Regulamento bem como a presença do sacerdote nas touradas.

Para a história fica ainda a enorme pressão exercida por algumas Misericórdias sobre o poder político em 1837, no sentido deste retroceder na decisão da abolição das touradas em Portugal, decretada como se sabe a 19 de setembro do ano anterior, pelas receitas que beneficiavam estas instituições beneméritas. A partir desse ano, as touradas realizadas na cidade de Lisboa passavam a reverter financeiramente para a Casa Pia e as restantes, realizadas noutros pontos do país, para as Misericórdias conforme ficou expresso no Diário do Governo:

“Art.o 1º – As corridas de touros que tiverem lugar em Lisboa, e que não forem gratuitas, somente poderão ser dadas pela Casa Pia da mesma cidade.

Art.o 2º – Em qualquer outra terra do Reino onde o referido espetáculo produzir rendimento liquido, será este aplicado em benefício das Misericórdias, ou de qualquer outro estabelecimento Pio do respectivo concelho.” – Diário do Governo, Sessão de 21 de agosto de 1837.

corridaUMP-desobrável-versoA relação entre as Misericórdias e a tauromaquia tem hoje um carácter meramente económico e patrimonial uma vez que muitas praças de touros em Portugal são propriedade destas instituições, mas com um peso naturalmente muito menor no seu orçamento, continuando a ser promovida anualmente a “Corrida de Toiros da União das Misericórdias Portuguesas”.

Além da clara condenação do Vaticano do espetáculo ao longo dos anos, sem nunca o ter defendido publicamente, é também evidente o progressivo afastamento da instituição católica de um ‘divertimento’ cada vez mais contestado na sociedade, que de uma forma geral, não aceita hoje em dia, a violência contra animais com fins meramente lúdicos como acontecia no passado.

  1. Ponce, José Vargas. “Disertacion Sobre Las Corridas De Toros”. Madrid: Real Academia de la História, 1907.
  2. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
  3. Infantes, José. “Historia de la vida, virtudes y milagros del glorioso San Pedro Regalado, hijo y patron de esta muy N.L. y H. ciudad de Valladolid”. Valladolid: Imprenta de D. Julian Pastor, 1854.
  4. “Obras del venerable maestro Juan de Ávila “Tomo nono. Madrid: Andrés Ortega, 1760.
  5. Castilho, António Feliciano de. “Padre Manoel Bernardes, Excertos”. Tomo segundo. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, Editor, 1865. Pág. 240 – 241.
  6. Arquivo Nacional Torre do Tombo (ANTT), Carta dos irmãos da Confraria de Nossa Senhora da Merciana, Corpo Cronológico, Parte I, mç. 95, n.o 87 
  7. Barros, Henrique da Gama. “História da administração pública em Portugal nos séculos XII a XV”. Lisboa: Impr. Nacional, 1885-1934.
  8. Truhán, Juan Carlos Fernández (2005). “Origenes de la tauromaquia”. X Congreso de Historia del Deporte. Sevilha 2 a 5 de Novembro de 2005. s.no.
  9. Maqueda, António Martín. “Sabe ver uma corrida de touros?”. Porto: Porto Editora, 1956.
  10. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
  11. Paniagua, Cecilio (2008). “Psicologia de la afición taurina”. Revista de Humanidades – Grupo Ars XXI de Comunicación. Barcelona: Novembro de 2008.
  12. Carta pastoral de D. João Soares que manda publicar uma bula de Pio V onde se proíbe as corridas de touros. Biblioteca Nacional de Portugal, S.l. : s.n., depois de 1 de Novembro de 1567. [2] f. ; 2 (28 cm).
  13. Real, Manuel Luís, et al. “No tempo das touradas: de esplêndida corrida a tradição repudiada”. Porto: Câmara Municipal do Porto, 2002.
  14. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
  15. Arquivo Municipal de Lisboa, Chancelaria Régia, Livro de Festas, doc. 68 (antigo 69), f. 119 a 120 v
  16. Fraile, Luís Gilpérez. “De interés para católicos taurinos”. Sevilha: Edita Risko, 2001.
  17. Idem.
  18. Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
  19. Citado por Celsius em “La Iglesia católica y las fiestas de toros” [S.l. : s.n., 19–?]
  20. Fraile, Luís Gilpérez. “De interés para católicos taurinos”. Sevilha: Edita Risko, 2001.
  21. Ximeno, P. José. “Ópusculo sobre los catorce casos reservados y otras tantas excomuniones sinodales”. México: Don Alexandro Valdês, 1816.
  22. Idem.
  23. Monteiro, Ofélia Milheiro Caldas Paiva. “D. Frei Alexandre da Sagrada Família: a sua espiritualidade e a sua poética”. Coimbra: UC Biblioteca Geral 1, 1974.
  24. “Touros de morte – a condenação pela igreja católica. Tradução do notável artigo publicado em 6 de Maio de 1923 no Osservatore Romano…”, Lisboa: Oficinas Gráficas, 1933
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Notes:

    Liberdade não rima com tourada

    Liberdade não rima com tourada
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    tourada em mocambique_BN

    Vista geral do público aguardando início de uma tourada em Moçambique em Setembro de 1937, realizada no âmbito do programa da exposição agrícola.

    Nos últimos anos “Liberdade” e “touradas” têm andado juntas na boca dos responsáveis pela industria tauromáquica.

    Mas “Liberdade” e “touradas” são duas palavras que não combinam. Desde logo pelo óbvio: porque a liberdade é negada ao principal interveniente na tourada, o touro, muitas horas antes de se dar início ao espetáculo. Em algumas praças de touros as barreiras que cercam a arena foram até aumentadas para garantir a “liberdade” de cravar afiadas farpas num animal encurralado ao qual não é dada possibilidade de fuga de um destino que é certo: a morte.

    Este aspeto não foi ignorado pelos nossos decisores políticos que se viram “obrigados” a criar exceções na legislação para permitir que nos nossos tempos, milhares de animais possam ser agredidos em público nas tradicionais touradas. Desde esse momento que a tourada se viu confinada a um canto escuro à margem da evolução da nossa sociedade.

    Mas a tauromaquia esteve sempre muito relacionada com correntes ideológicas conservadoras e absolutistas. Mais tarde, a indústria taurina desenvolveu-se dentro de uma classe burguesa tradicionalista e marialva, que alcançou benefícios no período do Estado Novo para cimentar as fundações de uma atividade fora do seu tempo.

    tourada antitourada portugal basta

    Touro ferido na arena do Campo Pequeno em Lisboa.

    Do ponto de vista político, basta recuar até 1974 para perceber que a “Liberdade” nunca rimou com “tourada”. O fim da ditadura em Portugal fez ruir a conservadora industria tauromáquica que precisou de alguns anos para se restabelecer e encontrar espaço na democracia portuguesa. Com a revolução de 1974, a tauromaquia passou mais uma vez do estado de graça para uma situação onde tudo lhe era desfavorável, apesar de se manter a atração pelos touros em algumas regiões do Ribatejo e Alentejo. A tauromaquia, nos primeiros momentos após o 25 de abril, surgiu associada à “reação”, e o argumento da tradição não serviu para justificar a continuação do negócio de exploração de um espetáculo conotado com a fidalguia, o absolutismo monárquico e a ditadura fascista do Estado Novo.

    “(…) depois do tal dia em que tantas garrafas de espumoso viram saltar a rolha, neste bem aventurado país toda a gente se pôs a armar em progressista, ninguém se confessa das direitas, a custo aparece um ou outro a proclamar-se do centro, a admitir que tem um primo forcado, ou um bisavô que foi marialva latifundiário.”

    “Touros e reacção: Crónicas taurinas da temporada de 1974”. Lisboa: D. L. Petrony, 1975

    Estas palavras foram publicadas logo em 1975 no livro “Touros e Reação – crónicas taurinas da temporada de 1974”, e demonstram o clima de pressão que era exercido sobre os mais notáveis e influentes aficionados das touradas no ativo em Portugal.

    A tourada deixou de ter na sociedade portuguesa a visibilidade que conseguiu alcançar durante a ditadura do Estado Novo. Alguns toureiros viram-se obrigados a procurar fama nas arenas espanholas e mexicanas, os empresários tauromáquicos deitaram contas à vida, assim como os criadores de touros que com a redução do numero de corridas apostaram na exportação dos touros para outras paragens. As estatísticas da época indicam que o número de touros de lide exportados quase duplicou em 1974, devido à falta de mercado em Portugal.

    Touros de lide exportados em Portugal (Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses)
    Touros de lide exportados em Portugal (Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses, 1975)

     Os grandes latifundiários do Ribatejo e Alentejo, onde se localizavam as grandes herdades de criação de touros e cavalos, viram-se igualmente ameaçados pelos camponeses revoltados com a sua situação miserável, mas também com a ocupação de propriedades, através da Lei da Reforma Agrária. A este propósito é sugestiva a intervenção do deputados Casimiro dos Santos (PS) na Assembleia Constituinte, em fevereiro de 1976, reagindo às preocupações demonstradas por alguns partidos de direita, pelas ocupações consideradas ilegais e ilegítimas de propriedades agrícolas. “(…) Como não podia deixar de ser, a acompanhar o PPD e o CDS aparece também o PPM, com os seus condes, duques, toureiros e ‘ganaderos’, saudosos das grandes coutadas e das touradas à antiga portuguesa”.

    Logo nos primórdios da Revolução as elites do negócio tauromáquico apareciam “encostadas” aos partidos mais à direita, conservadores e monárquicos. A associação da tauromaquia à “reação” ganhou forma logo após a Revolução. Em 26 de setembro de 1974 uma tourada no Campo Pequeno a favor da Liga dos Combatentes, transformou-se num comício de preparação para a manifestação da chamada “maioria silenciosa” de apoio a António de Spínola, ficando a tourada celebrizada como uma tentativa de “contra-revolução” e de repúdio ao programa do Movimento das Forças Armadas. “Viva Spínola”, “Viva o Ultramar”, “Viva a GNR” e “Abaixo o MFA” foram algumas palavras de ordem gritadas nos altifalantes da praça de touros do Campo Pequeno. O próprio toureiro José João Zoio exibiu-se na arena com um dos célebres cartazes verdes da “reação” espalhados pelo país convocando os espectadores para a manifestação da “maioria silenciosa”. Dentro da praça de touros, a corrida foi várias vezes interrompida por manifestações de apoio a Spínola enquanto cá fora, à porta da praça de touros, se gritava “abaixo a reação” e “o fascismo não passará”.

    28Setembro 1974 bastaO país vivia um período bastante inquieto de transição para a democracia, com toda a agitação política, a descolonização, eleições, etc…. Os defensores da festa brava tiveram que se organizar e reagir rapidamente à ameaça evidente que o período político representava. O Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses decidiu criar uma “Secção de Controle e Defesa do Toiro e do Cavalo” através da qual faz publicar a “Síntese do valor Económico e Social da Raça Bovina Brava” onde procurou demonstrar, em 1975, a importância do negócio tauromáquico, não só ao nível económico mas também turístico e de solidariedade pela fonte de receita que representava para instituições como asilos e hospitais. “Cuidamos que na pressa justificada de se recuperar tempos e valores perdidos, de se acudir a tudo e a todos, a potencialidade económica que acabamos de denunciar, não fique sem a atenção prioritária que se terá de conceder a quanto, esta Revolução, possa constituir factor importante ou vital de recuperação”. O Sindicato dos Toureiros, neste autêntico manifesto de propaganda tauromáquica, tentou recuperar a ideia, defendida pelo Estado Novo, que as touradas deviam constituir um cartaz turístico por ser um espetáculo diferente de todos os outros “Sem que queiramos ser apaixonados, pensamos que na confeção da nossa ‘ementa’, a corrida de toiros é, indiscutivelmente, um prato forte; forte e caro, que o estrangeiro paga sem discutir”. Apesar das contrariedades na agitada temporada de 1974, continuaram a realizar-se corridas de touros no Campo Pequeno e em Cascais, além de outras localidades do Ribatejo e Alentejo como, Coruche, Vila Viçosa, Barrancos e Moura mas sem que alguma vez o espetáculo se tenha tornado um cartaz turístico forte do nosso país.

    Já alguns anos antes, o processo de implantação da República em 1910, foi igualmente nefasto para o negócio das touradas. A tourada, não se livrou da sua forte conotação com a fidalguia monárquica, associada a um Portugal atrasado, conservador e retrógrado, pelo que os toureiros da nobreza se afastaram das lides nas arenas. Muitas das novas praças construídas, ficaram ao abandono ou desapareceram.

    Muitas praças de toiros do país caíram em ruínas, outras foram demolidas e só, durante o governo do Presidente do Conselho, Dr. António de Oliveira Salazar, se reconstruíram algumas dessas Praças, entre as quais a de Santarém – a maior de Portugal – graças à iniciativa do ex-Ministro Dr. Rafael Duque, e a de Cascais que hoje constitui um magnífico elemento de motivação turística da Costa do Sol”

    Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970.

    Invocar a Liberdade para procurar legitimar as touradas é negar a história e a natural evolução para uma sociedade mais justa, consciente e tolerante.

    Combinar Liberdade com violência, sangue, sofrimento e morte é por isso depreciar um valor que para nós portugueses tem tanto significado e que associamos a fraternidade, amizade, tolerância e paz. Incutir nas gerações mais jovens que o valor da liberdade pode justificar a prática de atos de crueldade com os animais é insensato e contrário aos princípios de respeito e compaixão pelos animais que a nossa sociedade procura estabelecer junto das crianças.

    Liberdade nunca rimou com touradas.

    touro antitourada liberdade

    Bibliografia:

    • Solilóquio, pseud. “Touros e reação: Crónicas taurinas da temporada de 1974”. Lisboa : Depos. Livr. Petrony, 1975.
    • Sindicato Nacional dos Toureiros Portugueses. “Síntese do valor económico e social da raça bovina brava”. Lisboa : Sind. Nac. dos Toureiros Portugueses, [D.L. 1975].
    • Diário da Assembleia Constituinte nº 112. Sessão nº111 de 11 de Fevereiro de 1976.
    • “Morte ao fascismo o povo vencerá”. Diário de Lisboa (27 de Setembro de 1974).
    • Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas, 1970.
    • Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951.
    • Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911.

     

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    As touradas em Portugal – Breve história de uma atividade polémica

    As touradas em Portugal – Breve história de uma atividade polémica
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    sergio-caetano-bastaA realização de touradas nunca foi consensual na sociedade portuguesa e por quatro vezes estiveram proibidas no nosso país. A sua promoção ao longo dos últimos 300 anos foi inconstante havendo registo de vários períodos em que praticamente deixaram de existir os combates com touros em Portugal.

    A promoção de touradas esteve sempre relacionada com a evolução da nossa sociedade e em particular no século XIX com as lutas entre liberais e absolutistas. Periodos como a implantação da República e a transição para a Democracia foram nefastos para as touradas que quase desapareceram em Portugal.

    touradas portugalInicialmente as lutas com touros consistiam em exercícios militares para aguçar a ferocidade dos combatentes e aperfeiçoar a sua perícia. Mais tarde com o surgimento da pólvora, a cavalaria perdeu a sua importância nos campos de batalha e os combates com touros e outros animais ‘ferozes’ ganharam um carácter lúdico mas igualmente violento, originando um grande número de vítimas mortais. A prática desta atividade esteve sempre reservada às classes mais privilegiadas da sociedade.

    Os combates sangrentos como diversão foram sempre contestados pela igreja católica. O Papa Pio V chegou a proibir a sua realização em 1567, acabando desde logo com a realização de touradas em Itália. Em Portugal e Espanha a decisão do Papa foi desrespeitada, a Bula Papal foi ignorada e o seu conteúdo escondido ou adulterado, mas a Bula chegou a ser publicada em Portugal e as touradas proibidas pelo Cardeal D. Henrique.

    touradas portugal antitourada 2As corridas de touros não são um exclusivo da Peninsula Ibérica. Elas ocorreram um pouco por toda a Europa medieval. A maioria dos países abandonou ou aboliu este tipo de espetáculos sangrentos por volta do século XVI por se tratarem de eventos cruéis e impróprios de nações civilizadas. Atualmente as touradas são proibidas em diversas nações europeias como a Dinamarca, Alemanha, Itália ou Inglaterra.

    Em Portugal foram proibidas novamente em 1809 pelo Principe Regente D. João. A proibição das touradas foi cumprida com determinação pelo Intendente Geral da Polícia Lucas Seabra da Silva que se referiu a elas nestes termos: “Os combates de touros sempre foram considerados como um divertimento impróprio de humana Nação civilizada”.

    Bullfight
    Lutas com touros em Inglaterra (1620).

    As corridas de touros mantiveram-se em Espanha sendo daí exportadas para Portugal onde foram alvo de várias restrições e abolidas por decreto em 1836. Por constituírem uma importante fonte de receita para a Casa Pia de Lisboa e para as Misericórdias, e por forte pressão destas duas entidades, as touradas foram novamente autorizadas mas apenas para fins benéficos. No entanto a determinação não foi respeitada e rapidamente se transformaram num evento comercial lucrativo para um pequeno grupo de empresários tauromáquicos, acompanhando e imitando a evolução que acontecia no país vizinho. Essa influência é evidenciada nos trajes, nas lides, no vocabulário e até na música que se ouve nas praças.

    Foram várias as personalidades que ao longo da história contestaram a violência do espetáculo tauromáquico. Em Portugal a contestação foi intensa durante o século XIX e personificada em homens como Passos Manuel, Borges Carneiro, José Feliciano Castilho, António F. Castilho ou Silva Túlio.

    Durante o Estado Novo, as touradas beneficiaram de grande impulso em Portugal

    A evolução dos valores humanos e o surgimento de uma consciência social para o respeito pelos animais não-humanos colocou os combates com touros à margem da evolução civilizacional.

    A sua prática esteve sempre relacionada com setores mais conservadores da sociedade portuguesa e espanhola. Foi durante os regimes absolutistas que as touradas foram propagandeadas na Península Ibérica, com destaque para os reinados de Fernando VII (Espanha) e D. Miguel que em Portugal anulou a Constituição e lançou as sementes para o florescimento do negócio das touradas com o início da criação de touros nas lezírias do Tejo e a construção da nova Praça de touros do Campo Santana em Lisboa. Em Espanha Fernando VII encerrou diversas Universidades e em 1830 fundou a “Universidade Tauromáquica” em Sevilha.

    RibatejoA partir de 1919 as touradas foram outra vez proibidas em Portugal com a entrada em vigor do Decreto nº 5650 de 10 de Maio que punia toda a violência exercida sobre animais com pena correccional de 5 a 40 dias em caso de reincidência, mas a partir de 1923 as touradas voltavam a ser propagandeadas durante o Estado Novo, inclusive com touros de morte, e em filmes como “Gado Bravo” (1934), “Severa” (1939), “Sol e Touros” (1949), “Ribatejo” (1949), Sangue Toureiro (1958) … Foi também durante a ditadura que se ergueram grande parte das praças de touros hoje existentes em Portugal: Beja (1947), Póvoa do Varzim (1949), Moita (1950), Almeirim (1954), Montijo (1957), Cascais (1963 – demolida em 2007), Santarém (1964), Coruche (1966),…

    Franco e Salazar no Campo Pequeno (Diário de Notícias, 24 de Outubro de 1949)

    A “tourada portuguesa” é resultante de décadas de contestação e restrições que levaram ao modelo atual, suavizando a sua crueldade aos olhares do público. A “pega” dos forcados, por exemplo, surgiu já no século XX como a solução de recurso para substituir a “sorte de morte” no final da lide que simboliza o domínio do homem sobre o animal. A “pega” foi importada da “suerte de mancornar” que antigamente se realizava em terras espanholas.

    Dossier Movimento
    Número de touradas em Portugal (fontes: IGAC/ANTP)

    A tendência natural das últimas décadas, nos países onde ainda subsistem as corridas de touros, tem sido claramente no sentido do aumento das restrições ao desenvolvimento desta atividade e a sua abolição, pela violência e risco associados, mas também e principalmente pelo sofrimento e maltrato a que são sujeitos os animais antes, durante e após o espetáculo. Portugal não foge à regra dos outros países onde a tradição se mantém, e as estatísticas indicam claramente que nos últimos anos o número de espetáculos tem vindo a diminuir em resultado de um menor apoio financeiro das autarquias, mas também pelo crescente desinteresse dos cidadãos portugueses pelas touradas.

     

     
     
     
     
     
     
     
    Bibliografia:
    • Catálogos Gerais – Direcção de Serviços de Documentação e Informação da Assembleia da República.
    • Gonçalves, Odete. “Touradas e poder político na transição do Sec. XVIII”, Revista História. Março de 2004.
    • Duviols, Jean-Paul, et. al. “Des taureaux et des hommes”, . Paris: Presses Paris Sorbonne, 1999
    • Noronha, Eduardo de. “História das Toiradas”. Lisboa: Comp. Nac. Ed., 1900
    • Saumade, Frédéric. “Las tauromaquias europeas: la forma y la historia, un enfoque antropológico”. Sevilha: Secretariado de Publicaciones de la Universidad de Sevilla, 2006
    • Almeida, Jaime Duarte de. “História da Tauromaquia”. Lisboa: Artis, 1951
    • Ângelo, J. S. Faustino. “História breve da cultura tauromáquica em Portugal”. Alcobaça: Tipografia Alcobacense Limitada, 1983
    • Barreto, Mascarenhas. “Corrida: Breve história da tauromaquia em Portugal”. Lisboa: Ag. Port. Revistas,1970
    • Ximeno, P. José. “Ópusculo sobre los catorce casos reservados y otras tantas excomuniones sinodales”. México: Don Alexandro Valdês, 1816
    • Lisboa. Arquivo Municipal de Lisboa, Chancelaria Régia, Livro XIII de Consultas, Decretos e Avisos de D. José I
    • Carta pastoral de D. João Soares que manda publicar uma bula de Pio V onde se proíbe as corridas de touros. Biblioteca Nacional de Portugal, S.l. : s.n., depois de 1 de Novembro de 1567
    • “Obras del venerable maestro Juan de Ávila “Tomo nono. Madrid: Andrés Ortega, 1760
    • Buiza, Luis Toro.“Sevilla en la história del toreo”. Sevilha: Fundación de Estudios Taurinos, Universidad de Sevilla, 2002
    • Rey, Luis Lozano . “Protección de animales y plantas”. Heraldo Deportivo, no 563. Madrid, 1931
    • Andrade, Vitória Pais Freire de. “A Acção dissolvente das touradas”, Lisboa: Tip. de A Batalha, 1925
    • Machado, Fernão Boto. “Abolição das touradas: projecto de Lei”. Lisboa: Typ. Bayard, 1911
    • Revista Universal Lisbonense, redigido por António Feliciano de Castilho, Tomo II, anno de 1842-1843. Lisboa: Imprensa Nacional, 1843
    • Pelegrín, Santos López. “Filosofia de los toros”. Madrid: Boix, 1842
    • Garrett, Almeida. “Memória Histórica de J. Xavier Mousinho da Silveira”. Lisboa: Imp. da Epocha, 1849
    • Robert W. Malcolmson. “Popular Recreations in English Society 1700-1850”. Cambridge: Cambridge University Press, 1973
    • Strutt, Joseph. “Sports and pastimes of the people of england”, Londres: T. Bensley, 1810
    • “Archivo pittoresco”, Volume 1. Lisboa: Tip. de Castro Irmão., 1858
    • Martínez, Antonio Luis López. “Ganaderías de lidia y ganaderos: historia y economía de los toros de lidia”. Sevilha: Universidad de Sevilla, 2002
    •  Ribeiro, José Silvestre. “Resoluções do Conselho de Estado na secção de contencioso administrativo”. Tomo XIV. Lisboa: Imprensa Nacional, 1868
    •  Intendência Geral da Polícia – Avisos e Portarias. Anno 1820/Agosto. Mç 38
    • Stallaert, Christiane. “Etnogénesis y etnicidad en España: Una aproximación histórico-antropológica al casticismo”. Barcelona: Proyecto A Ediciones, 1998

     

    “Lutar com animaes bravos, maltrata-los e feri-los com traças ardilosas ou com destemida temeridade, mas por gosto e sem necessidade, é cousa repugnante e deplorável e que a moral não autoriza, e que muito doi a corações generosos. Semelhantes espectáculos não amenizam os instintos, nem levantam o nível moral de um povo, bem ao revez d’isto só servem para obdurar os ânimos, tolhendo os progressos da sua moralidade e empanando com uma nódoa os brilhos da actual civilização.”

    Lisboa: Câmara dos Senhores Deputados, 5 de julho de 1869.

    Joaquim Alves Matheus;
    José de Aguilar;
    Antonio Pereira da Silva;
    Augusto da Cunha Eça e Costa;
    João Carlos de Assis Pereira de Mello;
    Fernando Augusto de Andrade Pimentel e Mello;
    Henrique Barros Gomes;
    António Joaquim da Veiga Barreira;
    José Dionysio de Mello e Faro;
    Barão da Ribeira de Pena;
    Henrique de Macedo Pereira Continha;
    Jose Augusto Correia de Barros;
    Francisco Pinto Beata;
    Luiz Vicente d’Affonseca;
    Henrique Cabral de Noronha e Menezes;
    Filippe José Vieira;
    José Luiz Vieira de Sá Júnior;
    Joaquim Nogueira Soares Vieira.

     

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    Touradas no Porto: história de uma evolução

    Touradas no Porto: história de uma evolução
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    sergio-caetano-bastaÀ semelhança de qualquer outra localidade da lezíria do Tejo, a cidade do Porto foi igualmente palco de inumeros festejos tauromáquicos durante a idade média, que decorreram com grande fervor nas ruas e praças da invicta até ao século XIX, mas que acabaram por desaparecer com o fim da monarquia pelo desinteresse e repúdio da população portuense em relação ao maltrato injustificado e cruel dos animais.

    O repúdio dos portuenses pelas touradas levou à falência das empresas tauromáquicas, e no século XIX a atos mais exacerbados que culminaram com a demolição e, em alguns casos, a queima das praças de touros da cidade (casos das praças da Aguardente e da Areosa).touradas porto

    Real Coliseu Portuense (Rotunda da Boavista)

    As touradas começaram a perder fulgor no Porto a partir de 1830, altura em que muito se contestava o espetáculo pelo uso e abuso dos animais. Várias tentativas foram feitas nas décadas seguintes para trazer de volta os touros à cidade mas sempre sem sucesso.

    Na década de 70 do século XIX assistiu-se a uma súbita edificação de praças de touros por todo o país e uma tentativa de impor à cidade do Porto a tradição das touradas com a construção de 3 praças de touros (Cadouços, Rua da Boavista e Largo da Aguardente). Mas a tentativa resultou num grande insucesso devido ao desinteresse da população. Ramalho Ortigão satirizou o episódio como uma fugaz cópia dos hábitos da capital, considerando-o desgarrado e sem qualquer tradição: “Ao cabo de dois anos ninguém mais voltou aos touros.” Também Pinho Leal deixou registado o seu conformismo com o fracasso da reintrodução das touradas e os gostos dos portuenses “nada depõe contra o gosto e a humanidade dos portuenses”. As 3 praças desapareceram em menos de cinco anos, com fracas receitas e a falência das empresas que as geriam. A imprensa escrita da cidade fazia eco da antipatia e indignação popular em relação às touradas. O Jornal Comércio do Porto em 1870 escrevia nas suas páginas: “Vê-se que infelizmente se porfia no intento de introduzir nesta cidade um divertimento contrário à indole e hábitos dos seus habitantes, porém ainda que o não fosse, nem por isso ele deixaria de ser menos condenável e digno de reprovação” – Comércio do Porto, 26 de janeiro de 1870.

    “As touradas tendem a acabar no Porto, com o que nada se perde.” O Comércio do Porto, 21 de setembro de 1897

    No final do século XIX foi realizada a última grande ofensiva para tentar ressuscitar a afición dos portuenses com a construção de duas novas praças de touros na cidade – Rotunda da Boavista e Praça da Alegria – a que se juntaram as praças erguidas na Serra do Pilar (V. N. de Gaia), Matosinhos e Granja.

    O Real Coliseu Portuense (Rotunda da Boavista) foi a mais imponente e maior praça de touros da cidade do Porto. Acolhia cerca de 8.000 espetadores e possuía 2 restaurantes, camarotes, bancadas, salão de bilhares, cafés e quiosques de venda de jornais, além de dispor de iluminação elétrica. O exeburante redondel foi construido por dois empresários que fizeram fortuna no Brasil, mas 6 anos depois estava ao abandono.

    Passado o periodo da curiosidade despertado pela imponência e o exotismo do edifício, o povo do Porto não se rendeu à tentativa de imposição de uma tradição, já na altura considerada anacrónica e sem raizes na região. Os touros e os toureiros eram importados do Ribatejo e Estremadura. Poucos anos depois da inauguração a praça de touros viu-se obrigada a acolher outro tipo de espetáculos como demonstrações de natação e equilibrismo e acabou por ser abandonada e demolida em 1895.

    As praças de touros da Serra do Pilar e da Rua da Alegria não tiveram melhor sorte e acabaram por fechar portas. A imprensa dava conta desta realidade, antecipando o evidente desfecho: “De há muito os portuenses têm demonstrado a sua pouca afeição às diversões tauromáquicas. (…) Assim, as touradas tendem a acabar no Porto, com o que nada se perde.” – O Comércio do Porto, 21 de setembro de 1897.

    Já no século XX, ainda antes da implantação da República, surgiram duas novas praças de touros no Porto: Areosa e Bessa mas a sua história foi igualmente breve e não existem registos de atividade significativa nestes redondeis. Ainda se tentou erguer uma praça de touros nas Antas, na atual Praça Velasquez, mas o projeto não saíu do papel.

    tourada portoA última ofensiva da indústria tauromáquica no Porto ocorreu no início da década de 90 do século XX, com a realização de uma tourada no campo do Lima 5 numa praça improvisada, e mais uma vez a afición não deixou raízes na cidade. Um dos principais diários portuenses da época, “O Primeiro de Janeiro” escreveu no dia seguinte na manchete do jornal: “A arrogância dos organizadores da tourada que ontem se realizou no Porto esteve na origem dos distúrbios entre populares e defensores dos animais, por um lado, e os promotores da iniciativa. A PSP teve de intervir. Uma pessoa saiu ferida da refrega, que até teve a presença provocante, inoportuna e parola do cavaleiro Joaquim Bastinhas.”

    Tal como referiu Alberto Pimentel em 1894 “A tauromaquia portuense deu em vasa barris”.

    Bibliografia:

    • Real, Manuel Luís, et al. “No tempo das touradas: de esplêndida corrida a tradição repudiada”. Porto: Câmara Municipal do Porto, 2002.
    • Leal, Pinho, “Portugal antigo e moderno”, Mattos Moreira & Cª, 1890.
    • Pimentel, Alberto, “O Porto na berlinda”. Porto: Ernesto Chardron, 1894
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    Dia da Mulher – Vitória Pais Freire de Andrade

    Dia da Mulher – Vitória Pais Freire de Andrade
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    accao dissolvente touradasNo Dia da Mulher homenageamos uma grande lutadora pela Liberdade, pelos direitos das mulheres e pela abolição das Touradas em Portugal: Vitória Pais Freire de Andrade.

    Nos anos 20 encabeçou o movimento pela abolição das touradas em Portugal e foi autora do livro “A acção dissolvente das touradas” publicado em 1925, onde mostrava especial preocupação em relação à exposição das crianças à violência das touradas defendendo a sua abolição. “As touradas, onde se comete a infâmia imprópria dos nossos dias de gozar com o sofrimento de outrem, assim como todos os espetáculos selvagens que as precederam, estão na razão inversa da civilização. Civilizemo-nos devidamente e elas desaparecerão por completo”, escreveu em 1925.

     

    vitoria pais freire_touradas

    Vitória Pais Freire de Andrade (20-01-1883 – 07-11-1930) Professora, natural de Ponte de Sor, onde nasceu em 1883. A par do seu empenho nas questões pedagógicas e no associativismo docente, evidenciou-se na militância cívica e feminista, tendo aderido à Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, à Associação de Propaganda Feminista e ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que foi um dos pilares, quer pelos cargos directivos que desempenhou, como pela participação nos Congressos Feministas e Abolicionistas. Preocupada com o bem estar colectivo, reivindicou uma participação social mais activa por parte dos cidadãos, e assumiu-se permanentemente como educadora, tanto no exercício da profissão, como na vida associativa e cívica, sendo muito conceituada entre o professorado primário. Empenhou-se no combate à prostituição e à sua regulamentação pelo Estado, encabeçou o movimento pela extinção das touradas.

    Fonte: “Silêncios e Memórias”, Estudos Sobre as Mulheres [sécs. XIX-XX] – http://goo.gl/AHzir

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