Carta aberta ao Presidente da União das Misericórdias Portuguesas

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Lisboa, 14 de abril de 2020.

Exmo. Senhor Presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas,
Dr. Manuel Augusto Lopes de Lemos

Face às recentes declarações públicas do Presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas (UMP), sobre a falta de meios humanos e equipamento para combater a pandemia do COVID-19, e os pedidos de apoio do Governo para fazer face ao problema, a Plataforma Basta de Touradas recorda que a UMP celebrou um protocolo de colaboração (em junho de 2018) com a Federação Prótoiro (Federação Portuguesa das Associações Taurinas) com vista à “dinamização e promoção de ações na área da tauromaquia enquanto património cultural de Portugal”, passando a UMP a fazer parte da Direção da referida Federação tauromáquica.

Numa altura em que milhões de cidadãos portugueses fazem um enorme esforço para combater os efeitos da pandemia, que milhares de profissionais de saúde arriscam a vida para tratar dos doentes infetados e que todos os recursos são escassos para fazer face a este problema, seria muito importante que o Presidente da União das Misericórdias Portuguesas esclarecesse este opaco e incompreensível “protocolo de colaboração”, nomeadamente em que consiste esse protocolo com a Federação Prótoiro, quanto dinheiro das Misericórdias já foi investido na promoção da tauromaquia e qual o montante que a UMP pretende investir no futuro na promoção de touradas em Portugal?

A Plataforma Basta de Touradas considera inaceitável que a União das Misericórdias canalize fundos que deveriam servir para apoiar os mais desfavorecidos, e que são usados na promoção de um divertimento cruel e extremamente violento de uma elite que insiste em continuar uma tradição anacrónica e que se alimenta dos fundos públicos para manter as touradas em Portugal.

As Misericórdias têm uma relação histórica com a atividade tauromáquica que remonta a 1837, altura em que as touradas só eram permitidas mediante uma licença especial e desde que a sua receita revertesse para a Casa Pia (em Lisboa) e para as Misericórdias (no resto do país). 

Passaram 183 anos e há muito que as touradas deixaram de ser um dos principais meios de financiamento destas instituições, sendo incompreensível que se mantenha esta relação e investimento das Misericórdias numa atividade fortemente condenada pelo Comité dos Direitos da Criança das Nações Unidas em setembro de 2019.

Neste sentido, e face à ausência de resposta às nossas anteriores solicitações, reforçamos o pedido de esclarecimento sobre os montantes investidos pelas Misericórdias na promoção da tauromaquia em Portugal.

Plataforma Basta de Touradas.

Anexos:Prótoiro e Misericórdias unidas pela tauromaquia (1/6/2018)
https://www.touradas.pt/noticia/protoiro-e-misericordias-unidas-pela-tauromaquia

Relatório final de avaliação do Comité dos Direitos da Criança da ONU (27/9/2019)
https://tbinternet.ohchr.org/Treaties/CRC/Shared%20Documents/PRT/CRC_C_PRT_CO_5-6_37295_E.pdf
(Artigo 27 da página 8)

União das Misericórdias Portuguesas aceitou investir na promoção de touradas, assinando um protocolo com a Prótoiro em 2018.
fonte: www.ump.pt
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